AP Photo/Eduardo Verdugo
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Obrador revê promessas antes de posse como presidente do México

Presidente mais votado da história democrática do país tomará posse hoje com capital político desgastado por anunciar que pretende descumprir duas de suas promessas de campanha ao manter Exército nas ruas e promover ‘anistia’ a corruptos

Verónica Calderón, ESPECIAL PARA O ESTADO, da CIDADE DO MÉXICO, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2018 | 05h00

Andrés Manuel López Obrador assumirá hoje o governo do México como o presidente mais votado na história democrática do país. Ele substitui Enrique Peña Nieto, que deixa o poder com a maior desaprovação já registrada por um presidente mexicano em trinta anos. Apesar de ter crédito, Obrador tomará posse com capital político desgastado e mudança de planos em duas importantes promessas de campanha.

López Obrador jogou o primeiro balde de água fria em seus eleitores há duas semanas, quando anunciou que perdoaria os corruptos do país para que se pudesse começar do zero. Em sua campanha, ele havia defendido uma anistia para certos delitos e penas, mas não para os corruptos. 

Os escândalos de corrupção se acumulam em um país onde 95% dos crimes denunciados ficam impunes, segundo dados da ONU. Somente um ex-governador, Javier Duarte, do PRI, é acusado de desviar mais de US$ 170 milhões. A corrupção e a impunidade são as principais preocupações das pessoas inquiridas pelas pesquisas, mais do que a segurança e a economia, e o seu combate foi o lema da campanha de López Obrador. 

O anúncio do perdão foi feito no mesmo dia em que seu nome foi mencionado no processo contra Joaquín El Chapo Guzmán, o poderoso chefe do Cartel de Sinaloa. Uma das testemunhas, o traficante Jesús El Rey Zambada, disse ao juiz ter entregue subornos a funcionários de todos os partidos políticos mexicanos, entre eles Gabriel Regino, advogado que participou da equipe de Obrador durante sua gestão como prefeito da Cidade do México, entre 2000 e 2006.

López Obrador também prometeu uma anistia para narcotraficantes, sem especificar como será o processo judicial envolvendo tal anistia e em que instâncias. Além disso, anulou outra de suas promessas de campanha, que era tirar o Exército das ruas. Dois dias antes de assumir o governo, ele fez as pazes com as Forças Armadas, que foram um de seus alvos prediletos durante a campanha. López Obrador acusava o Exército de vários crimes e de excessos de força e violência, em meio a aplausos e gritos dos seus seguidores.

Essas idas e vindas podem prejudicar López Obrador logo na largada de seu governo. Os 53,1% que obteve em primeiro de julho de 2018 não têm precedentes e não deixam dúvidas do respaldo sólido que tem. Mas o extenso período de transição entre um governo e outro, que no México dura cinco meses, desgastou seu capital político, na opinião do jornalista Raymundo Riva Palacio, um dos mais influentes do país.

“Muitas das decisões políticas de López Obrador tiveram impacto na confiança interna e externa sobre o que será seu governo. Este período foi como estar em uma montanha russa, pelos desacertos e contradições, confrontos e insultos contra os que pensam diferente dele ou o criticam por suas declarações e atos.”. Riva Palacio resume em uma palavra o novo presidente: “populista”. Mas, mesmo assim, diz que ele merece o benefício da dúvida.

Em um país que enfrenta a pior crise de violência em décadas, um índice de pobreza que não diminuiu em 30 anos e uma crise diplomática sem precedentes na história do México com seu principal parceiro, os Estados Unidos, Obrador terá que usar seu capital político para resolver os desafios. 

Mas o México enfrenta uma tempestade perfeita. O índice de assassinatos no governo Peña Nieto aumentou de 22 para cada 100.000 habitantes para 25. E a extensão do país não reflete a gravidade da violência em algumas regiões. Colima, Estado situado na costa mexicana do Pacífico, registra 113 assassinatos para cada 100.000 habitantes, mais do que em Honduras, o país mais violento da América Latina.

“No caso do México não é um incidente, é uma tendência” afirma Jan-Albert Hootsen, representante mexicano do Comitê de Proteção de Jornalistas (CPJ). “Todos os índices indicam uma situação espantosa”. 

A tempestade mexicana se intensifica na fronteira de mais de três mil quilômetros que separa o país dos Estados Unidos . O novo governo, que alardeia uma amizade com os principais líderes de esquerda da região, também recebeu um respaldo de ​Donald Trump, que iniciou sua campanha para presidente dos Estados Unidos com a promessa de construir um muro entre os dois países e acusou os imigrantes mexicanos de “estupradores e criminosos”. 

Os elogios da equipe de Trump, que enviará a maior delegação americana já vista na cerimônia de posse de um presidente mexicano em toda a história do país, contrastam com as queixas da sociedade civil ante a crise humanitária na fronteira, onde milhares de centro-americanos são maltratados tanto pelas autoridades mexicanas como americanas.

A ironia chega a tal nível que, não fosse a Cúpula do G-20 que ocorre no mesmo momento da posse de López Obrador, o próprio Trump compareceria a um evento no qual que estarão presentes o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e o cubano Miguel Díaz-Canel.

O grande problema é que o governo de Obrador é uma incógnita Andrés Manuel López Obrador é presidente do México e oscilou de um vigoroso apoio para o benefício da dúvida. “Não existe clareza”, diz Riva Palacio. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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