Obras inacabadas marcam centenário de Kim Il-sung

Apesar de US$ 2 bilhões gastos, aeroporto, parque aquático, ginásio e ringue de patinação no gelo não ficam prontos a tempo

PYONGYANG , O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2012 | 03h01

Em Pyongyang, calçadas estão sendo arrumadas e árvores, plantadas. Flores e bandeiras enfeitam as ruas em um esforço para embelezar a capital às vésperas da comemoração do centenário de Kim Il-sung, patriarca da Coreia do Norte. Boa parte das obras que seriam inauguradas e mostradas ao mundo, porém, não foram sequer terminadas.

Porta de entrada do país, o aeroporto internacional de Pyongyang deveria ter sido demolido e reconstruído. Não foi. Restou, na beira da pista, um esqueleto. Para receber os visitantes, o governo improvisou um galpão com divisórias de madeira e algumas cadeiras transformadas em área de espera. O free shop é apenas uma vitrine com alguns poucos produtos - a maioria bebidas alcoólicas.

Na beira do Rio Taedong, que corta a capital, um parque aquático estava sendo preparado com água do mar para abrigar vários animais. Entre eles, golfinhos. Não ficou pronto. O mesmo ocorreu com um ginásio de esportes e um ringue de patinação no gelo.

O que o governo conseguiu inaugurar foi uma hidrelétrica, que deve diminuir a crise energética do país. Ainda hoje, no entanto, o país vive no escuro. Mesmo na capital, a iluminação noturna raramente é ligada, a não ser em ocasiões especiais, como o aniversário de Kim Il-sung.

Durante o dia, pequenos apagões de alguns minutos perturbam a rotina. Além disso, falta restaurar a rede de energia elétrica, deteriorada pela falta de uso. A estimativa é que a Coreia do Norte gastará cerca de US$ 2 bilhões nas comemorações - um terço do seu orçamento anual.

Cerca de 10 mil pessoas, entre jornalistas, cientistas, diplomatas, músicos e outros artistas, além de turistas em geral, receberam o visto para entrar no país, muitas delas com as despesas pagas pelo governo.

A enorme quantidade de visitantes, algo inédito na história norte-coreana, complicou a já deficiente infraestrutura de Pyongyang. Com poucos hotéis disponíveis, o governo tem tido dificuldade para hospedar todo mundo.

Na mente dos norte-coreanos, que veneram Kim Il-sung como uma figura mítica, o ano de seu centenário encontraria o país forte e rico. A ilusão alimentada pelo governo, no entanto, foi trocada pela ideia de que 2012 será o ano da virada, o momento em que a Coreia do Norte começará seu caminho para a prosperidade, apesar da fome estar batendo à porta de boa parte da população.

A prova de força que sobrou ao governo de Kim Jong-un, apontado como novo líder em dezembro, depois da morte de seu pai, Kim Jong-il, é o lançamento do satélite, marcado para os próximos dias.

Planejado há anos, de acordo com os norte-coreanos, o lançamento causou irritação de americanos, sul-coreanos e japoneses, que garantem que o lançamento é uma fachada para o teste de um míssil balístico de longo alcance. Apesar da pressão internacional e da ameaça de interceptação do foguete por parte dos EUA, o governo de Pyongyang parece irredutível. / LISANDRA PARAGUASSU, ENVIADA ESPECIAL A PYONGYANG

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