Jonathan Tichler/Metropolitan Opera via AP
Jonathan Tichler/Metropolitan Opera via AP

Obrigatoriedade de vacina e distanciamento derrubam casos da variante Delta nos EUA 

A crescente imunização e pequenas mudanças de comportamento podem explicar por que os casos estão em declínio, mas resta saber muita coisa, afirmam cientistas

Emily Anthes / The New York Times , O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2021 | 10h00

WASHINGTON - Depois de uma elevação brutal durante o verão (Hemisfério Norte), ocasionada pela altamente contagiosa variante Delta, o coronavírus está recuando novamente nos Estados Unidos. O país está registrando aproximadamente 90 mil novos casos de covid-19 diariamente, uma queda de mais de 40% em relação a agosto. Hospitalizações e mortes também estão em queda.

A crise não acabou em todas as regiões, a situação no Alasca é particularmente grave, mas nacionalmente essa tendência é evidente, o que aumenta a esperança de que o pior finalmente tenha passado. De novo.

Nos dois anos recentes, a pandemia devastou o país em ondas que inundaram hospitais e depois retrocederam, retornando quando os americanos baixavam a guarda. É difícil esclarecer as razões pelas quais o vírus declina e flui dessa maneira — e ainda mais difícil prever o futuro.

Mas conforme o inverno (Norte) se aproxima, há várias razões para otimismo. Cerca de 70% dos adultos completaram o ciclo vacinal, e muitas crianças com menos de 12 anos deverão se tornar qualificáveis para se vacinar em uma questão de semanas. Agências reguladoras federais logo autorizarão a primeira pílula antiviral contra covid-19.

“Definitivamente, sem dúvida nenhuma, estamos em um ponto muito melhor neste ano do que no ano passado”, afirmou a médica Nahid Bhadelia, diretora do Centro para Políticas e Pesquisas de Doenças Infecciosas Emergentes da Universidade de Boston.

Mas a pandemia ainda não acabou, alertaram cientistas. Cerca de 2 mil americanos ainda morrem todos os dias de covid-19, e outra onda nos próximos meses é possível. Dada a quantidade de americanos não vacinados e tudo o que ainda não se sabe, é cedo demais para abandonar precauções básicas, afirmaram cientistas.

“Fizemos isso repetidamente, abrimos a guarda cedo demais”, afirmou Bhadelia. “Temos de ser um pouco mais cautelosos para conseguirmos vencer.”

Achatando a curva

Quando a primeira onda de covid-19 atingiu os EUA, no início de 2020, não existia vacina contra o coronavírus, e essencialmente ninguém estava imune. A única maneira de achatar a acentuada curva era mudar o comportamento individual.

Foi isso que a primeira rodada de ordens para ficar em casa, fechar de comércios e empresas, usar máscaras e banir grandes aglomerações pretendeu fazer. Ainda há debate a respeito de quais dessas medidas foram mais eficientes, mas numerosos estudos sugerem que, coletivamente, isso fez diferença, mantendo as pessoas em casa e refreando o aumento no número de casos.

Essas políticas, combinadas com o distanciamento social voluntário, muito provavelmente ajudaram a debelar as ondas iniciais, afirmaram cientistas. “E quando as restrições eram suspensas, talvez as memórias se apagassem”, afirmou Jennifer Nuzzo, epidemiologista da Universidade Johns Hopkins.

Por fim, o número de casos aumentava outra vez, e padrões similares se apresentavam. Comércios e governos locais restabeleciam restrições, enquanto as pessoas que tinham começado a se aventurar novamente no mundo voltavam a ficar em casa e usar máscara em público.

Durante a onda do inverno recente, por exemplo, a porcentagem de americanos que relataram ter ido a bares, restaurantes ou grandes eventos declinou, de acordo com a Pesquisa Tendências e Impactos da Covid-19 nos EUA, que entrevistou diariamente cerca de 44 mil usuários do Facebook desde abril de 2020. “A curva é moldada pela consciência do público”, afirmou Nuzzo. “É como se estivéssemos tropeçando entre a crise e a complacência.”

A variante Delta chegou em um período de profunda fadiga em relação à pandemia, um momento em que muitos americanos já vacinados sentiam que podiam finalmente relaxar. Dados sugerem que a nova cepa ocasionou menos mudanças comportamentais profundas do que as ondas anteriores de infecção.

Em meados de julho, apenas 23% dos americanos afirmaram que sempre usavam máscara em espaços públicos, a menor porcentagem desde março de 2020, de acordo com o Instituto de Métricas e Avaliações de Saúde da Universidade de Washington, que compila dados de variadas fontes.

Em 31 de agosto, no pico da onda da variante Delta, esse número cresceu para 41%, apesar de ter ficado bem abaixo do índice de 77% de pessoas que relatavam usar máscaras durante a onda do inverno. “Se você olhar em volta, as pessoas estão levando cada vez mais uma vida normal, um vida pré-covid”, afirmou o médico Christopher Murray, diretor do instituto.

Ainda assim, até mesmo pequenas mudanças de comportamento podem ajudar a diminuir a transmissão do vírus, especialmente se combinadas, e a variante Delta ocasionou mudanças em níveis tanto individuais quanto organizacionais. Escolas adotaram novas precauções, empresas adiaram reaberturas de escritórios e entidades cancelaram eventos, dando ao vírus menos oportunidade de se espalhar.

Enquanto isso, o outono teve temperaturas mais amenas, possibilitando a americanos de muitas regiões se socializar em ambientes abertos, onde o vírus tem menor possibilidade de se espalhar. “Estamos numa estação intermediária, em que faz mais frio no sul do que no meio do verão e faz mais calor no norte do que no meio do inverno”, afirmou David O’Connor, virologista da Universidade de Wisconsin-Madison.

Realmente, muitos dos atuais epicentros de covid-19 estão localizados nas partes mais ao norte do país, do Alasca a Minnesota, onde temperaturas mais baixas levam as pessoas permanecer em ambientes fechados.

Imunidade crescente

Mudanças comportamentais são uma maneira temporária e imediata de baixar o número de casos. Mas apenas por meio da imunidade a pandemia acabará verdadeiramente.

A onda da variante Delta foi a primeira a ocorrer em larga escala, nacionalmente, depois de as vacinas serem disponibilizadas de maneira ampla, protegendo substancialmente muitos adultos contra o vírus (também é provável que a Delta tenha feito mais americanos se vacinar).

Ao mesmo tempo, a variante é tão infecciosa que se espalhou rapidamente entre populações vulneráveis, imunizando naturalmente muitos americanos que não se vacinaram.

Apesar de nem vacinações nem infecções anteriores propiciarem proteção completa contra o vírus, ambas reduzem dramaticamente as chances de contrair o vírus. Então, a partir de setembro, ficou muito mais difícil para o vírus encontrar hospedeiros amigáveis.

“A Delta está ficando sem ter quem infectar”, afirmou Jeffrey Shaman, epidemiologista especializado em doenças infecciosas da Universidade Columbia.

O fato de o número de casos estar em queda não significa que o país tenha atingido imunidade de rebanho, uma meta que muitos cientistas agora creem ser inatingível. Mas os crescentes índices de vacinação e infecções combinados com mudanças de comportamento menores podem ter sido suficientes para pôr fim a essa onda.

“É uma combinação entre maneiras de imunização, mas as pessoas também estão mais cuidadosas”, afirmou Joshua Salomon, especialista em doenças infecciosas e modelos científicos da Universidade Stanford.

Cientistas afirmaram que, na verdade, uma combinação de fatores, que podem ser diferentes em diferentes partes do país, determinaria finalmente quando e por que o vírus prosperou ou não.

“Os diferentes surtos e ondas dependem da amplitude das ondas anteriores, de quantas pessoas foram vacinadas, de quando as escolas reabriram, de diferentes variantes”, afirmou Alessandro Vespignani, diretor do Instituto Network Science, da Universidade Northeastern, em Boston.

Alguma aleatoriedade também opera, especialmente porque pequenos números de indivíduos “superdisseminadores" parecem ter um papel desproporcional no desencadeamento de surtos. “Cerca de 10% a 20% das pessoas são responsáveis por 80% ou 90% das infecções”, afirmou Christina Ramirez, bioestatística da Universidade da Califórnia, Los Angeles.

Isso significa que duas comunidades similares podem se encontrar em trajetórias radicalmente diferentes simplesmente por causa de um indivíduo altamente infectado compareceu a um evento lotado de gente realizado em ambiente fechado, alimentando uma imensa contaminação.

Alguns padrões ainda desafiam a razão. Em março e abril, por exemplo, Michigan foi fortemente atingida pela variante Alpha, a antecessora um pouco menos infecciosa da Delta.

Outros Estados foram em grande parte poupados por razões que permanecem sem explicação, afirmou Murray. “Por que Michigan foi o único Estado com um surto grande de Alpha na primavera?”, afirmou ele. “Não temos nem ideia.”

A previsão para o inverno

É difícil prever o que vem a seguir, mas os casos não continuarão a cair de maneira constante infalivelmente, alertaram cientistas.

Reino Unido e Israel, ambos com índices de vacinação mais elevados do que os EUA, ainda lutam contra surtos de covid-19.

“Isso deveria servir de alerta”, afirmou Michael Osterholm, diretor do Centro de Pesquisa e Políticas para Doenças Infecciosas da Universidade de Minnesota. “Não voltem ao pensamento anterior ao Dia da Independência, quando todos achavam que a pandemia tinha acabado.”

A maioria dos especialistas afirmou que não se surpreenderia se houver ao menos um pequeno aumento de casos neste outono ou neste inverno, quando as pessoas começarem a passar mais tempo em ambientes fechados e viajarem durante os feriados de fim de ano.

Mas em razão de as vacinas terem permanecido altamente eficazes em evitar hospitalizações e mortes, qualquer alta nos casos no próximo inverno deverá ser menos catastrófica do que a do ano passado.

“Não é provável que o surto seja tão mortífero quanto o do inverno recente, a não ser que tenhamos muito azar com uma nova variante”, afirmou Salomon.

O aparecimento de uma nova variante continua no baralho, assim como a possibilidade de a proteção garantida pela vacinação começar a diminuir mais substancialmente. 

Nosso comportamento, em si, é outra fonte de incerteza.

“Prever um surto infeccioso não é como previsão do tempo, porque você lida com comportamento humano”, afirmou Nicholas Reich, bioestatístico da Universidade de  Massachusetts, Amherst. “E intrinsicamente essas coisas são bem difíceis de prever: novas políticas a ser implementadas, as reações das pessoas a isso, novas tendências em redes sociais, sabe como é… a lista é interminável.”

Mas nosso comportamento está, pelo menos, sob nosso controle, e continua sendo uma variável crucial à medida que nos aproximamos do inverno, afirmaram cientistas. De maneira geral, eles não recomendaram que cancelemos nossos planos para os feriados de fim de ano; muitos afirmaram que eles mesmos celebrarão com amigos e parentes. Mas eles sugeriram, sim, que tomemos precauções sensatas.

Ainda há tempo para se vacinar ou encorajar pessoas próximas a se vacinar antes do Dia de Ação de Graças. Usar máscaras em certos locais de alto risco, organizar eventos ao ar livre quando o clima estiver ameno e realizar testes rápidos de covid antes das festas de fim de ano são estratégias sensatas para reduzir o risco, de acordo com especialistas.

“Não é para ser o Natal do Lockdown 2”, afirmou Angela Rasmussen, virologista da Organização para Vacinas e Doenças Infecciosas da Universidade de Saskatchewan. “Mas isso significa, sim, que todos nós devemos estar atentos, pois a pandemia ainda não acabou completamente.” /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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