Observadores apontam ampla fraude eleitoral no Afeganistão

Entre os indícios estão urnas com resultados redondos ou com 100% dos votos para Karzai

AP,

07 de setembro de 2009 | 20h42

Na zona eleitoral de Haji Nehmetullah, todos os 725 votos computados no pleito de 20 de agosto foram para o presidente Hamid Karzai. Na de Haji Akhtar Mohammad, ele recebeu exatos 400 votos. São exemplos de resultados considerados suspeitos de fraude, segundo observadores.

 

As acusações de fraudes eleitorais, incluindo manipulação de urnas e intimidação de eleitores, chegam de todos os cantos do país desde a disputa no mês passado. Levantamento da Associated Press mostra resultados que, de acordo com autoridades, parecem extremamente improváveis.

 

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De acordo com números da Comissão Eleitoral Independente, Karzai teve em diversas zonas eleitorais do sul do país 200, 250 ou 500 votos. A incidência destes números redondos mostram um padrão consistente com as acusações de fraude em larga escala em regiões de conflito, onde a eleição não pode ser monitorada.

 

Um alto diplomata ocidental, que pediu anonimato, afirmou que a maioria dos votos em três províncias - Kandahar, Paktika e Khost - são fraudulentos. Os resultados parciais de cada uma dessas provinciais favorecem fortemente Karzai.

 

No centro distrital de Zoor, em Paktika, Karzai obteve números redondos de votos em quatro de seis zonas: 300, 250, 200 e 200. Um especialista em eleições, que também pediu anonimato, considera este resultado "ilógico".

 

Autoridades afegãs e internacionais haviam previsto fraudes episódicas nas eleições, mas esperavam que, de modo geral, seu resultado tivesse credibilidade. Mas, ao contrário, a escala das acusações e os resultados questionáveis põem em dúvida o processo eleitoral.

 

O diplomata ocidental disse que várias pessoas haviam alertado Karzai, antes do pleito, para que "não desse uma de Nixon: não roube uma eleição que já está ganha".

 

O especialista em eleições diz que muitos dos resultados suspeitos veem de urnas que não existiam, supostamente localizadas em partes remotas do país que chefes tribais sabiam não seriam alcançadas por observadores. Ele estima em cerca de 800 as urnas deste tipo.

 

"O volume de acusações indica que houve fraude em massa, mas temos que esperar pela investigação", diz Haroun Mir, diretor do Centro de Pesquisa e Estudos Políticos do Afeganistão.

 

A porta-voz da embaixada americana, Caitlin Hayden, disse hoje que os Estados Unidos esperam que autoridades contem todos os votos e depois "excluam os fraudulentos".

 

Hoje a Comissão Eleitoral Independente tirou da internet resultado postado anteriormente que mostrava que Karzai havia obtido 4.085 de 4.049 votos em duas urnas em Kandahar. Esses votos estavam entre os cerca de 12 mil votos para Karzai que foram anulados, conforme levantamento da AP.

 

As autoridades eleitorais estão divulgado lentamente os resultados da eleição desde 20 de agosto. Com base nos números de 74% das urnas, Karzai tem 48.6%, contra 31.7% de Abdullah Abdullah. O resultado da apuração é esperado para terça-feira, após o que cerca de 650 acusações de fraude serão investigadas.

 

A porta-voz da Comissão de Queixas Eleitorais, Nellika Little, conta ter recebido acusações contra urnas que deram 100% dos votos a Karzai; urnas que nunca foram aprovadas; e urnas que foram fechadas sob violência no dia da eleição.

 

Caso Karzai não obtenha a maioria dos votos, haverá segundo turno. Caso Karzai saia vitorioso, uma eleição sem credibilidade pode corroer significativamente o apoio que recebe dos países ocidentais - o que, nota o diplomata ouvido pela AP, já vem ocorrendo por conta do aumento das baixas militares no país.

 

Em uma entrevista publicada hoje pelo jornal francês le Figaro, Karzai diz estar sendo atacado por norte-americanos por, supostamente, não se mostrar tão dócil. "Mas ninguém tem interesse em um presidente afegão se tornar um boneco americano".

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