Observadores da ONU deixam a Síria enquanto Assad aperta cerco a Alepo

Batalha síria. Forças do regime deslocam-se rumo à segunda cidade do país para tentar esmagar insurgentes, que dizem controlar 40% da metrópole; metade dos 300 monitores da missão encarregada de ajudar em uma solução pacífica deixaram o território sírio

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL, ANTAKYA, TURQUIA, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2012 | 03h02

Tropas do Exército sírio, até então estacionadas em um planalto da região de Idlib, próximo à fronteira com a Turquia, iniciaram ontem um deslocamento em direção a Alepo, a segunda cidade da Síria e polo econômico do país. Rebeldes de diferentes cidades - que controlariam cerca de 40% do perímetro urbano - preparam-se para conter a ofensiva. Metade dos 300 observadores da ONU enviados para monitorar o conflito já deixou o país.

O movimento das tropas de Assad foi diagnosticado no final da manhã, quando uma linha de tanques e de carros de transporte começou a rumar em direção a Alepo. Os veículos partiram do planalto de Jabal al-Zawiya, precedidos de artilharia e de helicópteros, que voltaram a atacar os rebeldes com mísseis ar-terra. Ao longo do dia, 13 pessoas morreram, segundo a ONG oposicionista Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), 12 das quais civis, nos bairros de Salaheddine, Sakhour e Tariq al-Bab, além do vilarejo de Ezaz, na periferia.

"Sim, as forças do governo estão concentrando tropas, mas aparentemente têm problemas para direcionar suas forças apenas para Alepo", disse ao Estado Y.A., um dos coordenadores da rebelião em Kilis, cidade de fronteira com a Turquia. "Hoje o Exército Sírio Livre (ESL) está controlando a maior parte do norte até o centro, na Cidade Antiga. Apesar da ofensiva do regime, é realista acreditar que vamos conseguir tomar Alepo em uma semana."

O controle de Alepo transformou-se em uma prioridade dos rebeldes, em especial depois que as Forças Armadas recuperaram os bairros da capital que haviam caído nas mãos dos rebeldes. "Se Alepo cair, o regime acaba e os dois adversários sabem disso", disse Rami Abdel Rahmane, presidente do observatório oposicionista, que tem sede em Londres.

Ontem, segundo informações do OSDH, Firas al-Be'li, um dos líderes insurgentes na capital, morreu em consequência dos ferimentos que sofreu dois dias antes no bairro de Al-Qaboun. Houve ainda novos bombardeios nos bairros de Al-Hajar, Al-Aswad e Al-Qadam, mas os enfrentamentos parecem ter perdido intensidade na capital desde a contraofensiva do regime.

Fronteiras. Preocupado com a situação de guerra, o Ministério de Alfândegas e do Comércio da Turquia ordenou ontem o fechamento completo de seus postos de fronteiras com a Síria.

O objetivo oficial é cortar o fluxo de caminhões de mercadorias entre os dois países e reduzir os incidentes envolvendo rebeldes, militares e comerciantes. Em Ancara, fontes do Ministério da Defesa disseram a agências de notícias que o maior problema seria a crescente atividade de rebeldes de origem curda, que estariam tentando se valer da insurgência na Síria para traçar as linhas de um Estado no norte do país e no sul da Turquia.

Os efeitos do conflito, que reduziu em 80% o comércio entre os dois países, afasta parentes nos dois países. Um ex-motorista de ônibus turco, com o qual o Estado conversou em Antakya, está separado da mulher, que não consegue voltar para casa depois de visitar a família em Alepo, há 10 dias. "Ela é síria, árabe, curda e não recebe autorização dos grupos que controlam a região para voltar à Turquia", disse.

Enquanto os combates prosseguem no interior do país, o choque de discursos entre EUA e Rússia continua no campo diplomático. O chanceler russo, Sergei Lavrov, acusou ontem Washington de "justificar o terrorismo" ao não condenar o atentado a bomba perpetrado pelo ESL que matou a cúpula da segurança e da Defesa de Assad em Damasco (mais informações nesta página). / COM NYT

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