Yuri Gripas/EFE
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Obstáculos internos de Biden para atingir uma economia verde; leia análise

Aprovação do plano de investimentos em infraestrutura, proposto recentemente pela administração Biden, é essencial para o desenvolvimento de uma economia verde

Denilde Holzhacker*, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2021 | 05h00

O presidente Joe Biden, no seu discurso durante a Cúpula de Líderes sobre o Clima, realizada virtualmente nos dias 22 e 23 de abril, foi contundente ao afirmar que “não temos escolha” e que os governos devem agir agora por questões tanto morais quanto econômicas. A sua mensagem enfatizou que o desafio não é de um país, mas da comunidade internacional e dos 40 líderes presentes na Cúpula. 

Ao evocar a urgência da questão, além da comunidade internacional, Biden também busca convencer o público americano, especialmente os congressistas republicanos, que ainda resistem em apoiar medidas que impactam a economia do país. Por isso, o discurso de Biden e de seus assessores enfatizam que compromissos ambientais colocarão os Estados Unidos na liderança de uma nova economia descarbonizada e de alto grau tecnológico. 

A relevância da agenda climática e ambiental já estava clara no início do seu governo, tanto pela escolha do John Kerry como responsável pelas negociações climáticas, como pela sua decisão de retornar ao Acordo de Paris. Os compromissos de reduzir a emissão de carbono entre 50% e 52% até 2030 e atingir a neutralidade de carbono até 2050 são partes da estratégia de liderança global dos Estados Unidos. 

Apesar dos compromissos anunciados por Biden serem mais ambiciosos do que foi proposto pelo governo Obama, quando comparado com os países europeus (que se comprometeram em reduzir em 55% suas emissões em comparação aos níveis de 1990) a meta americana fica em torno de 41% e 44%. Essa diferença acontece porque os Estados Unidos consideram os níveis de 2005, enquanto os europeus utilizam como métrica os níveis de emissão de 1990.

Além disso, de acordo com projeções do Climate Action Tracker, os Estados Unidos teriam de reduzir a emissão de carbono em 57% para atingir a meta climática de Biden em 2050, ou seja, para alcançar as emissões líquidas de carbono zero até metade do século. 

Porém, é inegável que o anúncio de Biden tem um forte impacto para a economia e sociedade americana, especialmente se considerarmos as resistências existentes em setores econômicos e políticos presentes desde o governo Obama. A pergunta, então, que se coloca é o quanto esse compromisso é viável? Quais são os desafios para que os Estados Unidos sigam em direção a uma transformação econômica e social?  Muitos dos estudos mostram que a redução entre 50% e 52% é factível e poderá ser alcançada, mas é preciso fortes investimentos em setores como energia, transporte, produção industrial e tecnologia, por exemplo. 

Estudo do Centro de Sustentabilidade da Universidade de Maryland aponta que o governo Biden terá que negociar com o Congresso investimentos para setores de energias renováveis, infraestrutura e apoio à pesquisa e ao desenvolvimento. A aprovação do plano de investimentos em infraestrutura, proposto recentemente pela administração Biden, é essencial para o desenvolvimento de uma economia verde.

O governo também deve se voltar para alterações regulatórias, que tenham impacto na eficiência energética e na emissão de gases não-CO2. A ampliação da cooperação entre a administração federal com governos estaduais e das cidades americanas para a implementação de políticas públicas deverá ser parte da estratégia do país. As ações devem ser coordenadas em diferentes esferas governamentais para terem impacto no longo prazo.

A transição para uma economia verde e de zero-carbono envolverá também o engajamento do setor privado com a mudança nos padrões de produção e comprometimento com as metas de redução. Nesse sentido, a Cúpula dá um passo importante ao incorporar as empresas nos debates nos dois dias de evento. A aliança público-privada permitirá avanços significativos para mitigação dos riscos ambientais. 

Do ponto de vista internacional, Biden prometeu, sem muito detalhamento, dobrar até 2024 os recursos para financiamentos aos países em desenvolvimento. Também anunciou a criação de um Plano Internacional de Financiamento Climático dos Estados Unidos.  Outra iniciativa internacional foi a criação da Coalizão Leaf  (Lowering Emission by Accelerating Forest Finance), na qual participam empresas globais e os governos dos Estados Unidos, Reino Unido e Noruega.  Essas iniciativas reforçam que a superação dos desafios globais depende da cooperação entre governos, empresas e sociedade.  

O histórico dos Estados Unidos nas negociações climáticas gera um certo ceticismo em alguns setores quanto à capacidade do governo Biden de superar as resistências domésticas e, de fato, garantir avanços nos âmbitos interno e externo. A existência de um movimento global para uma nova economia, com forte engajamento de investidores, empresas e sociedade, se houver empenho político, o governo Biden deu um importante passo para consolidar a agenda climática e ambiental no país. 

*Denilde Holzhacker é cientista política e professora de Relações Internacionais da ESPM São Paulo

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