Obter confiança do povo é outro desafio no Haiti

Além do um milhão de desabrigados, calcula-se que 95% dos entulhos produzidos pelo terremoto de janeiro do ano passado não foram retirados. Foram cerca de 250 mil mortos em um país de menos de 10 milhões de habitantes. O grosso dessa reconstrução ficará a cargo do novo governo.

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2011 | 00h00

Mas o próximo presidente haitiano encontrará uma situação sanitária melhor do que a de 2010. Embora ainda esteja longe a erradicação da epidemia de cólera - que já matou mais de 4.500 haitianos -, o surto da doença foi controlado.

A credibilidade do novo governo aos olhos da população deve ser outro problema para Michel Martelly ou Mirlande Manigat. Fraudes generalizadas tomaram o primeiro turno, cujo resultado teve de ser alterado sob pressão internacional.

Martelly havia inicialmente ficado em terceiro lugar, portanto fora da disputa, mas uma recontagem teria mostrado que ele obteve 0,3% de votos a mais que o candidato governista Jude Celestin.

"Tomamos várias medidas e o risco de fraude é mínimo agora", disse ao Estado o porta-voz do CEP, Richardson Dumel. Segundo ele, 342 mesários foram substituídos e centenas de agentes de segurança, afastados. "Será um processo transparente."

Mas tanto Marelly quanto Manigat já se queixaram ao CEP de supostas intimidações e agressões. O cantor acusa partidários do governo, solidários à ex-primeira-dama, de impor um "império do medo" no interior do país - região onde seria mais fraco. Manigat disse que dois de seus comitês no norte foram atacados por pessoas ligadas a seu rival.

Sob esse pano de fundo de crise humana e incerteza eleitoral, os ex-presidentes Jean-Claude Duvalier, em janeiro, e Jean Bertrand Aristide, na sexta-feira, encerraram o exílio autoimposto. Mas Pierre Esperance, diretor da ONG Rede de Direitos Humanos do Haiti, afirma que os casos dos líderes depostos têm mais diferenças do que semelhanças. Ditador acusado de matar 30 mil opositores em seu governo, Baby Doc tem pouco apoio popular e responde a processos na Justiça.

Primeiro presidente eleito do Haiti, Aristide ainda tem forte apoio na população e nenhuma acusação a responder nos tribunais - ao ser eleito, Préval bloqueou os processos. "Apresentamos acusações contra Duvalier e vamos apresentar contra Aristide, que também cometeu violações sistemáticas. Mas não se pode comparar os dois", enfatiza Esperance.

Ao Estado, as campanhas de Martelly e Manigat tentaram se distanciar da disputa judicial envolvendo os dois ex-presidentes. Segundo eles, isso "cabe apenas à Justiça".

Mas o próximo presidente deverá nomear pelo menos dois juízes para a Suprema Corte logo no início do governo. "Eles, sim, podem ajudar. Préval não quis ajudar, pois teme que, um dia, seja ele no banco dos réus respondendo por acusações de corrupção", diz Esperance.

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