'Obter informações secretas é essencial'

Especialista destaca papel dos serviços de inteligência alemães, mas ressalta 'dependência' em relação aos americanos

Entrevista com

Erich Schmidt-Eenboom

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2014 | 02h02

Depois de passar meses no papel de vítima da espionagem americana, a Alemanha inverteu o jogo. Revelações de que Berlim espionou os EUA e a Turquia comprovaram uma guerra secreta para se obter informações entre países amigos e a preocupação da inteligência alemã de enterrar o rótulo de um serviço de 'segunda classe'. 

Em entrevista ao Estado, o especialista alemão em espionagem e serviço secreto Erich Schmidt-Eenboom, diretor de pesquisa do Instituto para Políticas da Paz (Baviera), afirma que é normal os serviços secretos dos países não confiarem uns nos outros, mas recrutar um funcionário de outro serviço, como a CIA fez com o agente duplo do BND (serviço secreto alemão) é sem precedentes. 

Autor de vários livros sobre o tema, o especialista explica que o BND sempre teve um tratamento desigual com as agências americanas no pós-guerra, fornecendo tudo a elas e recebendo muito pouco em troca, mas isso tem mudado com os investimentos do governo em inteligência nos últimos anos. A seguir, a íntegra da entrevista:

Com relação ao caso do funcionário da inteligência alemã pego fazendo espionagem para os EUA, o sr. disse recentemente que nunca houve um caso tão sério como esse. Por que ele é mais sério e o que o diferencia dos outros escândalos de espionagem entre EUA e Alemanha? 

Desde os tempos da parceria com a CIA sob a Organização Gehlen (entre julho de 1949 e março de 1956), encontramos muitos exemplos de que o serviço americano não confiava em seus parceiros alemães e os espionavam. Arquivos, agora conhecidos no Arquivo Nacional nos EUA, nos mostram que esse tipo de espionagem, na verdade, nunca parou. Nesses documentos, o mais recente deles é do começo dos anos 90 e trata-se de uma lista de empregados do BND com suas posições e funções. Mas a espionagem contra o BND e seu predecessor durou por mais de cinco décadas feita apenas por meios eletrônicos. Recrutar alguém de dentro da inteligência alemã tem sido um tabu por décadas, que agora foi quebrado com o recrutamento de um funcionário que não tinha uma alta posição, mas ainda assim, acesso a documentos secretos e muito importantes.

A chanceler Angela Merkel expulsou o chefe da CIA em Berlim. O que achou da reação do governo? 

Expulsar o representante da CIA em Berlin foi a mais forte resposta diplomática possível. Mais até do que chamar o embaixador para protestar em nosso Departamento de Estado (fizemos isso duas vezes este mês). Mas essa é apenas uma medida diplomática. Teremos um novo chefe de estação em algumas semanas e temo que ele conduzirá as mesmas operações de inteligência que seu predecessor - com um pouco mais de precaução, claro, e talvez com um número menor de espiões. Na cena da inteligência, é de Angela Merkel a decisão de cortar a cooperação entre o BND e os serviços americanos em muitos campos importantes - com exceção no da "guerra internacional contra o terrorismo" e as parcerias com o Afeganistão. Mas em semanas voltaremos a operar como sempre fizemos. 

Mas depois de reclamar com os EUA por ter sido alvo de sua espionagem e até mesmo patrocinar, com o Brasil, uma resolução na ONU para proteção na internet, o governo alemão foi acusado de ter espionado o próprio EUA e a Turquia. O governo foi acusado de hipocrisia. O senhor concorda? 

Claro. Angela Merkel e outros líderes políticos não são hipócritas apenas no seu trabalho de inteligência. Eles negam ter qualquer conhecimento sobre a espionagem praticada pela NSA contra a Alemanha quando Edward Snowden abriu seus arquivos. Mas isso era muito bem conhecido pelo governo alemão desde os dias do primeiro chanceler Konrad Adenauer. Aliados como EUA, Grã-Bretanha e França espionaram a política, a economia e os segredos militares da Alemanha. 

E qual o interesse da espionagem na Turquia? 

Espionar a Turquia desde 1976 - apesar da boa cooperação no campo da Inteligência de Sinal (Sigint) contra o inimigo comum, a União Soviética - é uma banalidade. Sempre houve muitas boas razões para dar uma olhada na Turquia: o grupo de 'terror' curdo PKK com muitos apoiadores na Alemanha e responsáveis pelo tráfico de drogas do Líbano para a Europa; a influência das organizações turcas na grande comunidade turca na Alemanha; a ambição turca de se juntar à União Europeia; o fato de que desde o início dos anos 90 Ancara ter influência sobre os Estados islâmicos da Ásia Central na competição com a Alemanha por objetivos econômicos nessa região; e o apoio turco aos jihadistas combatentes na Síria e no Iraque; esses são apenas alguns dos principais pontos de interesse.

E a reação de Merkel a essa denúncia?

A reação de Merkel ao 'escândalo de espionagem contra a Turquia' podemos até considerar sua mais nova hipocrisia. Ela disse a todos que os EUA, França e Grã-Bretanha são os amigos reais que não estão na mira do BND. Isso não é verdade. Com relação às prioridades do BND no fim dos anos 80, classificando em seis níveis - de "o mais alto interesse" até "sem interesse" - a política da Grã-Bretanha e da França dentro da União Europeia tinha prioridade 2, "alto interesse", assim como os planos políticos dos EUA para a Alemanha, para Berlim Oriental, União Europeia e a economia (principalmente o fornecimento de bens importantes como o urânio para a Alemanha). Assim também como a decisão política do Brasil sobre suas matérias primas e a venda de urânio para a Alemanha e o poder militar brasileiro, que tinham o mesmo nível de interesse, 2. 

Qual a importância da espionagem hoje para a Alemanha? 

Fornecer informações secretas para o governo de um país com a importância política como a Alemanha tornou-se mais essencial após a reunificação do país. Esse papel tem crescido lentamente nas questões de política externa, incluindo a cada vez maior participação em operações militares, dos Bálcãs ao Afeganistão. No início dos anos 90, o BND sofreu um corte no orçamento, assim como de pessoal, mas mais para o fim daquela década, e após o 11 de Setembro, os tomadores de decisão em Berlim fizeram um grande investimento para fortalecer seu serviço de inteligência. A maior parte do dinheiro foi para os satélites de reconhecimento e para os equipamentos das grandes estações de Sigint dentro da Alemanha. 

O governo alemão diz que as gravações de Hillary e Kerry foram acidentais. Mas parte dos críticos diz que o BND teve a intenção de demonstrar seu poder de espionar os americanos. O senhor acredita? 

Não acredito nisso, de que foram pegos acidentalmente, porque Hillary Clinton e John Kerry nunca usariam um sistema de comunicação desprotegido. Interceptar suas comunicações significa que a capacidade de Sigint do BND está concentrada nos sistemas secretos de linhas e comunicação americanos e significa que mesmo as conversas criptografadas podem ser decodificadas. O BND faz tudo para negar que tenha tido sucesso ao espionar políticos americanos, temendo que esse caso possa levar a contramedidas americanas no campo da criptologia. 

Outras análises sugerem que há hoje uma preocupação em tornar o BND mais forte no pós-guerra, e que a Alemanha não é um mero "país vassalo" nesse campo? 

O tratamento da Alemanha como um "país vassalo" tem razões históricas. A Alemanha teve sua soberania plena após a reunificação. Mas mesmo depois disso, a CIA - assim como a NSA e a Agência de Inteligência de Defesa - prefere uma "parceria", na qual o BND deve fornecer tudo e receber apenas uma pequena parte do serviço, em retorno. Em geral, tivemos o mesmo cenário nos dias de Guerra Fria: o BND é muito bom em Sigint, acumula uma vastidão de informações valiosas de parceiros de toda a parte do mundo (incluindo China), mas não é muito eficiente em inteligência humana. O fortalecimento Humint (inteligência humana) foi anunciado pelo presidente do BND, Gerhard Schindler, que disse que "sem risco, sem diversão", mas isso é um longo caminho. O secretário (do Interior) Thomas de Mazière também anunciou uma forte contrainteligência contra os serviços dos EUA. Ele outras autoridades também falaram em uma contraespionagem nunca feita antes: tentar infiltrar nos serviços americanos espiões gerenciados pelo BND. Por muitas rações isso é totalmente irreal: há muitos amigos dos serviços secretos americanos dentro do BND e eles alertariam a CIA, DIA ou FBI. A contrainteligência americana é muito forte, nenhum serviço alemão poderia recrutar um espião nela. Um tipo de ação como essa poderia prejudicar tanto as relações entre BND e a CIA que os americanos poderiam acabar com qualquer cooperação em terceiros países, o que é essencial para o BND, não para a CIA.

Em geral, as pessoas têm muito interesse em assuntos ligados à espionagem, há muita produção literária e cinematográfica sobre o tema. Por que há esse interesse? 

No campo da ficção, livros e filmes, podemos observar um senso comum global de que a espionagem como um jogo político de poder permite que muitas histórias interessantes sejam contadas. Mas na área da não ficção, há um choque de culturas resultante de diferentes razões históricas. Nos EUA, França e Grã-Bretanha, os serviços de inteligência são vistos como as organizações que prestaram uma contribuição importante para derrubar o Terceiro Reich na Alemanha de Hitler. Dentro da Alemanha, porém, temos dois fardos históricos que ainda criam uma atmosfera negativa para as atividades do serviço de inteligência: a cruel Gestapo (polícia secreta nazista) dentro e fora da Alemanha durante a 2.ª Guerra e o papel dos serviços de inteligência no Holocausto, por um lado, e a repressão praticada pelo Ministério da Segurança de Estado na Alemanha Oriental que durou até 1989, por outro.

Mais conteúdo sobre:
AlemanhaEUAespionagem

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.