ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP
ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP

Ocean City, uma ilha de sobriedade em um mar de embriaguez

Fundada no fim do século 19 por metodistas que queriam transformá-la em um local de descanso cristão, Ocean City é uma das 'cidades secas' dos EUA

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2020 | 08h00

Nenhum restaurante na costa atlântica de Ocean City oferece álcool em seu menu. Aliás, esse balneário em New Jersey não tem nem bar: cem anos após o início da Lei Seca nos Estados Unidos e, apesar da abolição em 1933, ainda existem no país as "cidades secas".

"Bebidas alcoólicas proibidas. (Regra) estritamente cumprida. Multa de US$ 275." Ao longo da calçada de madeira que margeia o mar, as placas alertam, entre dois anúncios de igrejas, sobre as conseqüências do consumo de álcool na praia. Ou em qualquer outro lugar da ilha.

Fundada no fim do século 19 por metodistas que queriam transformá-la em um local de descanso cristão, Ocean City, com 11 mil habitantes, é o que nos Estados Unidos ficou conhecido como "dry town" ou "cidade seca".

Na ilha, que chega a receber cerca de 150 mil visitantes nos fins de semana de verão, os restaurantes somente oferecem bebidas quentes, água e refrescos. 

A produção e a venda de álcool estão proibidas em Ocean City desde 1909, bem antes do início da Lei Seca, em 17 de janeiro de 1920, em todo o país. 

Um século depois, não mudou quase nada. Pode-se beber em casa, mas para isso é necessário comprar bebidas alcoólicas do outro lado das pontes que levam à ilha, que costumam ficar congestionadas durante a alta temporada. 

Referendo tenso 

Sejam eles bebedores ou não, os habitantes de Ocean City têm muito orgulho da "sobriedade" de sua cidade, auto-proclamada "melhor cidade costeira familiar dos Estados Unidos", em comparação com seus vizinhos menos virtuosos.

Os cassinos e bares de strip-tease de Atlantic City, um dos centros do crime organizado durante a Lei Seca, ficam a menos de três horas de carro e, nos dias de verão, a maioria das praias próximas está cheia de jovens festeiros, como os que aparecem no reality show da MTV Jersey Shore.

Eric Plyler, um designer gráfico de 26 anos que passou todas as suas férias na ilha quando criança, criou a marca Dry Island para destacar o caráter único de Ocean City em xícaras, bonés e camisetas, cujos motivos e slogans são inspirados na Lei Seca. 

"As pessoas gostam do fato de que a proibição do álcool melhora a qualidade de vida, mas isso não significa que não gostam de beber", diz o jovem empresário barbudo, amante de cerveja artesanal, em sua loja na rua principal. "É apenas algo que nos torna famosos."

Quando um comerciante local conseguiu, em 2012, as assinaturas necessárias para realizar um referendo sobre a possibilidade de os clientes levarem suas próprias garrafas de cerveja ou vinho para um restaurante, alguns moradores, como Drew Fasy, alertaram para a ameaça que isso poderia representar à imagem da cidade. 

"Quando você tem uma marca eficaz, não precisa fazer nada com ela. Ninguém vai mudar os arcos dourados do McDonald's", explica esse exagerado corretor de imóveis, que se não quer ver Ocean City apenas como mais uma das outras ilhas do litoral de New Jersey "construídas em torno do álcool".

Áreas cinzentas

O referendo de 2012 dividiu a cidade: aqueles que se opunham à mudança foram acusados ​​de serem fanáticos religiosos; os outros, de querer levar a cidade à depravação.

Chris e Sharon Hoffmann, proprietários do restaurante Captain Bob's, no sul da ilha, dizem que foram boicotados por pedir a mudança. "Foi tenso", lembraram eles. "As pessoas faziam as reservas (no restaurante), mas depois não apareciam."

O "não" foi imposto com uma grande maioria de dois terços, mas o casal encontrou uma maneira de tirar proveito das "áreas cinzentas" das leis do álcool "privatizando" seu estabelecimento.

É só pagar US$10 por mesa para entrar no "Foodies Dinner Club" e, assim, poder levar uma garrafa ao restaurante,  como quando você vai comer na casa de um amigo.

Essa ideia, aprovada pelas autoridades locais, está se espalhando na ilha da moderação, mais famosa por suas pizzarias e estabelecimentos de fast food do que por seus restaurantes de luxo, quase inexistentes em Ocean City, pela impossibilidade de acompanhar pratos com bebidas alcoólicas. 

"Por que tenho de sair da ilha para desfrutar de uma boa refeição? As pessoas estão cansadas de ter de ir a outro lugar", lamentam os dois, que não pedem a legalização do álcool na cidade. "Você tem de respeitar a cultura", dizem. / AFP 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.