Michel Euler/AP
Michel Euler/AP

Ocidente e Rússia divergem sobre previsão de uso da força na Síria

EUA, França e Grã-Bretanha defendem que resolução da ONU tenha 'caráter obrigatório' ou autorize intervenção militar

Andrei Netto, correspondente em Paris ,

16 Setembro 2013 | 18h51

PARIS - Dois dias após sacramentarem o acordo sobre a deposição das armas químicas pela Síria até 2014, o secretário de Estado americano, John Kerry, e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, voltaram a colidir nesta segunda-feira, 16, pondo em perigo a resolução que terá de ser aprovada no Conselho de Segurança. Para os Estados Unidos, a França e a Grã-Bretanha, o texto a ser votado nas Nações Unidas vai prever o uso da força em caso de desrespeito por parte do regime de Bashar Assad. Em Moscou, a visão é oposta.

A divergência entre Kerry e Lavrov ficou clara na manhã de ontem, em Paris, quando o americano concedeu entrevista coletiva ao lado dos ministros da França, Laurent Fabius, e da Grã-Bretanha, William Hague. No encontro, os três afirmaram que a resolução que regulamentará o acordo firmado no sábado, em Genebra, prevendo o desmantelamento do arsenal químico de Assad até 2014, deve incluir uma menção ao Capítulo VII da Declaração das Nações Unidas.

A eventual citação não é anódina. O Capítulo VII é texto que autoriza a comunidade internacional a recorrer à força ou a sanções contra um país que esteja em clara violação de um tratado internacional. Esse seria o caso da Síria de Assad, caso o regime não cumpra os termos do acordo Kerry-Lavrov. A inclusão dessa cláusula é uma bandeira da França, que tenta obter garantias de que a Rússia não vai mais poder vetar uma eventual intervenção militar no futuro.

Ontem, o presidente da França, François Hollande, recebeu Fabius, Kerry e Hague no Palácio do Eliseu. Ao final, a presidência divulgou um comunicado no qual pede ao Conselho de Segurança "uma resolução forte". Minutos depois, o chanceler francês repetiu as palavras em tom de advertência. "Nós queremos obter do Conselho de Segurança das Nações Unidas nos próximos dias uma resolução forte, que preverá, claro, consequências sérias se o acordo não aplicado", disse Fabius. Hague foi no mesmo sentido. "A pressão é sobre o regime de Damasco para que eles apliquem integralmente este acordo", reiterou, beligerante: "O mundo deve estar pronto a tirar as consequências se não o fizerem".

O objetivo, segundo Fabius, é fazer o regime entender "que não ha outra perspectiva além da mesa de negociações", sem esconder que o fim da guerra civil na Síria depende da partida de Bashar Assad. O chanceler francês alertou ainda que o Ocidente vai aumentar a ajuda - sem especificar se militar - aos rebeldes ligados à Coalizão Nacional Síria (CNS), o grande órgão da oposição.

Kerry, no início moderado, acabou sendo o mais enfático dos três. Questionado sobre se a resolução que seria apresentada à ONU incluiria o Capítulo 7, o americano não deixou dúvidas. "O acordo compromete totalmente os EUA e a Rússia a impor medidas ao sob o abrigo do Capítulo 7 da Declaração da ONU no caso de não-conformidade", enfatizou Kerry.

Em Moscou, Lavrov acusou as "capitais europeias" de estarem pondo o acordo em risco de fracasso. "Estou certo de que, apesar de todas as declarações emanando de certas capitais europeias, a parte americana se atrelará estritamente ao que foi acordado", afirmou o chanceler russo, insinuando que Kerry não havia imposto a condição. O próximo round da disputa deve acontecer ainda nesta semana, quando a resolução será apresentada.

 
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