Ocidente não tem nada a temer, além do próprio medo

Após enfrentar guerras dispendiosas, crises financeiras e a ascensão de novas potências como a China, Europa e EUA precisam despertar de seu torpor e responder à nova ordem sob pena de serem excluídos da estrutura de poder global

É EX-CHANCELER DA FRANÇA , HUBERT, VÉDRINE, FOREIGN POLICY, É EX-CHANCELER DA FRANÇA , HUBERT, VÉDRINE, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2012 | 02h03

O colapso da União Soviética, em 1991, deveria marcar supostamente tanto o "fim da história" como o nascimento de uma comunidade internacional fundada na aceitação universal dos valores ocidentais - um mundo em que a "democracia de mercado" fosse a norma.

Em vez disso, o Ocidente sofreu uma ladainha de decepções - de guerras dispendiosas a crises financeiras até a ascensão de potências não ocidentais - que o desiludiram profundamente. No lugar de uma ordem cooperativa, o mundo contemporâneo vive uma permanente competição - uma mistura confusa de polos regionais, países, governos, empresas, bancos, fundos financeiros, agências de classificação de risco, produtores, consumidores, indivíduos, mídia internacional e organizações criminosas, se não também de "civilizações". Essa competição ocorre mesmo nos fóruns que supostamente deveriam regulá-la: a Organização Mundial do Comércio, o G-20, e outros.

Após o fim da Guerra Fria, o Ocidente - particularmente a Europa - se esforçou para promover o intercâmbio internacional. Um intercâmbio unidirecional, é claro - a projeção dos valores de liberdade e progresso e da economia de mercado para o restante do mundo. Mas, para consternação do Ocidente prosélito, o mundo exterior agora está sendo projetado sobre ele. Da mesma forma como povos colonizados viraram as ideias de colonizadores contra eles, os globalizados começaram a usar a economia global desregulada em seu proveito. Vimos a ascensão dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e dezenas de outros países "emergentes" que sinalizam o fim do controle ocidental sobre assuntos mundiais.

Ante esta nova realidade desorientadora, parte da elite ocidental se refugiou na negação, insistindo numa abertura e numa globalização cada vez maiores - e perdendo cada vez mais contato com a opinião pública.

Enquanto isso, a acumulação destas sublevações está produzindo uma sensação de vertigem e até de pânico entre populações ocidentais.

Todos os fluxos mundiais - comerciais, financeiros, migratórios, culturais - parecem completamente caóticos e incontroláveis, ao menos pelo Ocidente e as organizações internacionais que, até agora, serviram aos seus interesses. Nos EUA, o Partido Republicano está à deriva. Incapazes de aceitar o fim de uma era estilo John Wayne, líderes partidários procuram simultaneamente isolar os EUA e reduzir a ameaça de competição do "resto". Esta reação seguramente contribuiu para a derrota do partido em 6 de novembro.

Na Europa, estamos vendo mais votos de protesto, contra os partidos no poder, e, no lado oposto, abstenção eleitoral e desconfiança geral. Esses fenômenos estão associados não somente à crise econômica e à recessão, mas também a um sentimento rancoroso de impotência que está minando a confiança civil. Esta tensão psicológica é particularmente aguda na França, onde pesquisas de opinião mostraram que os cidadãos estão mais preocupados com o futuro do que com o Afeganistão.

Ansiedade. A ansiedade prevalecente na Europa com a ordem mundial emergente criou um novo público para previsões catastróficas. Esta corrente intelectual, alimentada por extrapolações apocalípticas de toda sorte, busca panaceias utópicas na forma de um governo mundial racional, do federalismo europeu, da sociedade civil internacional e da justiça internacional. Estes ideais oferecem um substituo para a confiança no mercado e a veneração do multilateralismo e da "comunidade" internacional. Trata-se de uma mentalidade em forte contraste com a de povos não europeus, que exultam otimismo e olham o futuro com confiança e apetite.

Hoje, o uso da expressão "globalização win-win" (em que todos saem ganhando) soa como provocação, ao menos na Europa. Os europeus ficaram especialmente desapontados com as mudanças correntes porque muitos queriam desesperadamente acreditar que estavam vivendo em um mundo pós-trágico que tinha evoluído além da história e da identidade. Era sua idade da inocência. Mas, em vez disso, eles receberam austeridade e um sistema quase pós-democrático de sanções para garantir a disciplina orçamentária.

Por enquanto, ao menos, o debate sobre uma política econômica na zona do euro foi decidido a favor da regra "merkeliana" do punho de ferro. Mas a eleição de François Hollande na França abriu um debate paralelo crucial sobre crescimento e o equilíbrio apropriado entre eficácia e democracia na Europa. Não é impossível imaginar um acordo envolvendo reformas que não sejam duras ou apressadas ao extremo e que sejam graduais o bastante para ser política e socialmente palatáveis.

É em torno desse tipo de acordo que irá girar o futuro do Ocidente. Dada a magnitude das mudanças globais em curso, o caminho mapeado por governos ocidentais de hoje terão um impacto monumental na política mundial de amanhã. Os desafios que Estados e Europa enfrentam hoje são diferentes, mas entrelaçados: os europeus precisam despertar de seu torpor estratégico; os americanos precisam aceitar a nova realidade global e adaptar sua estratégia de acordo com ela.

O surgimento de alguns países do chamado Terceiro Mundo ou pelo eufemismo bem intencionado de países em desenvolvimento (mesmo quando não o eram) é agora um fato inegável. Há a China com mais 1,3 bilhão de habitantes e um crescimento econômico espetacular, a Ásia inteira, e os Brics, menos a Rússia, que está mais pairando que emergindo. Observadores contam até 100 países emergentes.

Monopólio perdido. Com exceção de um punhado de corporações multinacionais ocidentais que tem um interesse de curto prazo em transferir tecnologia básica ou de ponta, o Ocidente continua chocado, se não paralisado, ante as adaptações que teria de fazer. Ele já começou a perder o monopólio em capacidade industrial, expertise técnica e até em moeda, agora que a China e o Japão começaram a negociar em yuans e ienes.

Da mesma forma, o poder brando é parte do arsenal de uma lista crescente de países emergentes. Mesmo o equilíbrio militar - tal como refletido no crescimento de orçamentos militares na China, Índia e Brasil - está mudando, ainda que muito lentamente, assim como a influência geopolítica que é a menina dos olhos do poder militar. Aliás, de que outra maneira se poderia explicar a decisão da Índia e do Brasil de se aliar com a Rússia e a China no Conselho de Segurança da ONU para bloquear uma intervenção ocidental na Síria? Não há nenhum aspecto da supremacia ocidental que os países emergentes não estejam preparados para desafiar - agora ou no futuro - da distribuição de poder em instituições internacionais aos valares que as embasam. Pela primeira vez na história, como já apontaram corretamente o ex-consultor de segurança nacional dos EUA, Zbigniew Brzezinski, e Brent Scowcroft em 2008, "toda a humanidade está politicamente ativa".

Mas se as potências emergentes estão ficando cada vez mais assertivas no cenário mundial, elas não parecem preparadas para suplantar suas congêneres mais estabelecidas - ao menos, não ainda. A ascensão meteórica dessas potências na última década obscureceu, em certa medida, o fato de que todas têm vulnerabilidades. Riscos políticos, tais como o futuro incerto dos regimes russo e chinês e uma oposição limitada, mas crescente, em muitos outros países, poderiam eventualmente impedir seu desenvolvimento. Da mesma maneira, a desigualdade cresceu a níveis explosivos em muitos países emergentes, na medida em que as taxas de crescimento estão afunilando e a inflação alta exigiu políticas de "esfriamento" em lugares como o Brasil. Problemas ambientais, poluição, superexploração e escassez também assomam no horizonte.

De mais a mais, é importante lembrar que a renda per capita ainda é muito baixa na maioria dos países emergentes e continuará assim no futuro previsível. E o fator demográfico também pode ser negativo: a Índia é sobrecarregada pelo excesso de população, a China pelo envelhecimento, a Rússia pelo decréscimo populacional. A Rússia pode ter petróleo e gás, mas está com dificuldade para criar uma economia moderna. Há também uma tendência a superestimar a unidade e homogeneidade das potências emergentes. Elas se unem para criticar o Ocidente e fazer cobranças, mas com igual frequência se dividem sobre rivalidades individuais - competição estratégica entre China e Índia, competição comercial entre Brasil e Argentina, e competição entre Nigéria e África do Sul pela liderança na África.

Da mesma maneira, tendemos a esquecer, especialmente na Europa, que os países ocidentais têm vantagens consideráveis. Não só dominam instituições mundiais como têm uma riqueza colossal e poder econômico. O Ocidente abarca 58% do PIB global e 40% do comércio internacional quando se inclui o Japão. Ademais, a capacidade americana de invenção e criação continua sem rival e seu poder brando segue ímpar. Os EUA ganharam 39% dos prêmios Nobel e 48% dos prêmios em ciências, medicina e tecnologia. O Ocidente abriga a maioria das principais universidades mundiais e seus níveis educacionais são ainda superiores.

Finalmente, os países ocidentais retêm uma vantagem militar da qual não estão dispostos a abrir mão. Os gastos americanos de defesa continua a representar quase a metade dos gastos militares globais, e França e Grã-Bretanha conservaram suas capacidades militares. A perspectiva do desengajamento americano está preocupando profundamente países vizinhos de maiores potências emergentes, fortalecendo a posição mundial dos EUA e tornando possível propostas como o plano do presidente Barack Obama de estabelecer uma zona de livre comércio entre os países da Parceria Trans-Pacífico. Por último, a supermacia cultural americana está fora de questão e podemos somar a ela a vitalidade da francofonia (apesar de a elite francesa estar perdendo interesse nela) e da "hispanidade". Em suma o Ocidente não está sob risco de ser eclipsado pelos demais países.

Mudança. Parece claro que o Ocidente jamais recuperará a posição única de que desfrutou do século 16 ao 20 e os EUA o tipo de poder inconteste de que desfrutaram em 1945 ou nos anos 1990.

Não haverá mais uma força única moldando o mundo. Ao mesmo tempo, porém, é altamente improvável que a China - supondo que ela o quisesse - domine o mundo como os EUA dominaram no último século. Tampouco o farão a Ásia como um todo e as potências emergentes, cujos interesses são diferentes demais para formarem um bloco permanente. Não teremos um "mundo pós-americano" no futuro próximo. Os EUA quase certamente manterão sua posição de liderança - ainda que relativa, contestada e desafiada mesmo depois de a economia chinesa superar a americana por volta de 2020.

É provável, porém, que a China tente apertar seu controle sobre seus vizinhos e estender sua influência a países cujas economias dependem pesadamente de importações ou investimentos chineses, particularmente aqueles na África e na América Latina. O equilíbrio de poder entre as maiores potências mundiais continua a oscilar, portanto, seguindo a previsão do analista francês Pierre Hassner de um longo caos.

Diante dos desafios, como os países ocidentais deveriam prosseguir? Formular uma estratégia coerente será fundamental para o Ocidente defender ao máximo seus interesses. Inevitavelmente, isto significará aceitar os ajustes necessários para instituições internacionais e firmar acordos com novas potências sobre regras e normas, além de cronogramas razoáveis para quaisquer mudanças acertadas. Tudo isso demandará que os europeus voltem a pensar na Europa como uma potência, se concentrem em projetos mais amplos e ponham fim às disputas institucionais.

Sempre que possível, a Europa deveria coordenar políticas com os EUA. Juntos, eles deveriam forjar alianças, de questão em questão, com uma ou mais potências emergentes.

O Ocidente também precisa reanimar o crescimento econômico - não qualquer tipo de crescimento, mas o crescimento sustentável que promoverá um processo "verdejante" norteado por novos indicadores econômicos que sejam mais relevantes do que medidas rançosas, simplistas, como o Produto Interno Bruto. Esse crescimento precisa se basear em economias de mercado reguladas novamente, mas por regras e salvaguardas sensatas, pelas quais o setor financeiro seja reduzido a dimensões razoáveis e desencorajado a buscar ganhos financeiros artificiais e de se engajar em especulações ilimitadas, grande parte desligadas da economia real.

A reordenação da esfera econômica dependerá de nossa capacidade para legitimar novamente nossos sistemas democráticos e torná-los eficazes, talvez redirecionando parte da energia produzida por protestos ou pela democracia "direta" e protegendo melhor nossos sistemas políticos da tirania de grupos de interesse e das incessantes sondagens de opinião.

Pessimismo. Há um contraste entre a posição do Ocidente - e o potencial de médio e longo prazo que ainda mantém - e a atmosfera de ansiedade predominante. A Europa está sobrecarregada pelo pessimismo, a França pela melancolia. Mas se a Europa limpar as finanças, estimular níveis de crescimento suficientes, melhorar a eficiência sem se tornar demasiado tecnocrática, seu futuro será invejável.

O principal obstáculo da Europa na briga multipolar recém iniciada é o seu pessimismo. Ela devia se inspirar em Franklin D. Roosevelt e adotar a ideia de que "a única coisa que temos a temer é o próprio medo". Os EUA continuam a acreditar em seu papel, em sua capacidade de recuperação e em si mesmos. Esta religião americana - o otimismo - ainda está intacta, apesar de a estrutura do eleitorado que reelegeu Obama representar uma mudança demográfica espetacular e irresistível.

Ao dar ao atual presidente uma segunda chance apesar de numerosas decepções, a maioria dos americanos demonstrou uma compreensão de que os EUA não conseguirão enfrentar os desafios futuros se caminharem para trás. Vista de fora, a distância psicológica entre os EUA e a Europa está se alargando. A maneira como os EUA - que se parecem cada vez mais com uma nação global - responderão aos desafios futuros terá grande impacto, em especial, nos aliados europeus. Se os Estados Unidos não conseguirem responder e se a Europa mergulhar mais fundo no desespero, o Ocidente não só perderá seu monopólio do poder global, mas ficará totalmente excluído da estrutura de poder global. /TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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