Ocidente politizou caso de iraniana, diz Teerã

Governo do Irã, porém, poupa Brasil de críticas porque pretende contar com ajuda do País nas negociações nucleares que começam em setembro

Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2010 | 00h00

Para preservar os poucos aliados que tem, o Irã tem poupado o Brasil de críticas ligadas ao caso de Sakineh Ashtiani, iraniana condenada à morte. Teerã, porém, não perdoa o Ocidente, acusando-o de ingerência em assuntos internos. Para os iranianos, o caso está sendo usado por americanos e europeus para afastar o Brasil do Irã e "abalar a amizade" entre o país e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ontem, o porta-voz da chancelaria do Irã, Ramin Mehmanparast, fez a mais dura crítica até agora aos países que pedem a liberdade de Sakineh, condenada à morte por adultério, depois sentenciada à forca por assassinato do marido. Mehmanparast avisou que a questão é um assunto. "Não aceitaremos ingerência. Nações independentes não permitem que outros países interfiram em seus assuntos judiciais."

Europa, EUA e intelectuais do mundo todo pedem que a vida de Sakineh seja poupada. "Se liberarmos quem cometeu um assassinato, não haverá mais segurança. Se for o caso, podemos também pedir que esses países libertem todos aqueles que cometeram assassinatos", afirmou Mehmanparast.

Mas, sobre a oferta do Brasil de dar asilo para Sakineh, Teerã usa outro tom e não fala de ingerência. "Quando forem reveladas mais informações sobre o caso se concluirá que a atmosfera sendo criada por governantes ocidentais é um plano para causar problemas aos estreitos laços de Irã, Brasil e Turquia", alertou o porta-voz. "O Brasil entenderá que está sendo usado."

O tratamento diferente tem uma razão simples. Diplomatas brasileiros, em Viena e em Teerã, confirmaram ontem ao Estado que o Irã quer a participação do Brasil nas negociações nucleares, que serão retomadas em setembro. Criar um mal-estar agora, portanto, não ajudaria os interesses do país.

Na segunda-feira, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, disse que não mandaria Sakineh para o Brasil. No entanto, em vez de acusar Lula, optou por dizer que não queria "mandar um problema para o brasileiro" "Queremos exportar nossa tecnologia para o Brasil. Não esse tipo de assunto", disse.

"O Irã sabe que o assunto ganhou proporções que vão além dos direitos humanos", disse ao Estado um experiente negociador brasileiro, que pediu para ter sua identidade preservada. "O Irã não pode se dar ao luxo de perder a relação que tem com o Brasil. Portanto, nega o asilo, mas não coloca o País no mesmo grupo daqueles que acusa de ingerência."

Pressão. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, negou ontem que haja "interferência" do Brasil no caso de Sakineh. Segundo o chanceler, o governo brasileiro fez um "apelo" ao oferecer asilo. "Não é uma interferência de modo algum na soberania (iraniana)", disse. "O apelo de uma pessoa com quem você tem relações amistosas tem mais chances de ser bem-sucedido."

REVIRAVOLTAS

28/7 - Lula fala pela primeira vez sobre o caso Sakineh, pede respeito à soberania do Judiciário iraniano e diz que se interviesse em todos os casos de violação de direitos humanos, "viraria uma avacalhação"

31/7 - Em comício eleitoral, em Curitiba, Lula muda radicalmente o discurso, diz que "só Deus pode tirar a vida" de alguém e se oferece para receber a iraniana no Brasil, caso ela "esteja causando algum incômodo" no Irã

2/8 - A agência de notícias conservadora "Jahan", ligada ao regime iraniano, classifica a proposta de Lula como "uma clara interferência em assuntos domésticos do Irã", sem

atribuir a afirmação a ninguém

3/8 - No primeiro

pronunciamento oficial sobre o caso, a chancelaria iraniana diz que "Lula é uma pessoa muito humana e emotiva, que, provavelmente, não recebeu informações suficientes sobre o caso de Sakineh"

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