‘Ocidente subestima o terrorismo do século 21’

Analista defende que governos adotem políticas para garantir que jovens não sejam seduzidos pelo movimento jihadista

Entrevista com

Loretta Napoleoni, autora de 'A Fênix Islamista'

Murillo Ferrari, O Estado de S. Paulo

04 de abril de 2015 | 18h20

A ameaça de uma aliança jihadista internacional liderada pelo Estado Islâmico (EI) é crescente e o ocidente não só subestima o assunto como não tem estratégias para enfrentar a “ameaça terrorista anti-imperialista do século 21”. A opinião é da doutora em terrorismo pela London School of Economics, Loretta Napoleoni, que lançou em maço o livro A Fênix Islamista. A seguir, trechos da entrevista concedida por telefone ao Estado.

O que podemos esperar do EI num futuro próximo?

Hoje o EI lidera a criação de um aliança internacional, na qual eles seriam uma espécie de “guarda-chuva ideológico”, e cuja natureza não é apenas religiosa, mas também anti-imperialista. Basicamente, é uma frente contra as oligarquias do mundo muçulmano, mas também contra o ocidente. 

Quem aderiu a essa coalizão?

Essa é uma iniciativa que atrai outros grupos jihadistas, desde que eles sejam sunitas, como fez o Boko Haram (que, no mês passado, jurou lealdade ao EI). Existem pequenos grupos no Paquistão, Afeganistão, na Tunísia, no sudeste da Ásia, por exemplo, que podem se juntar a esse movimento.

Porque aumentaria os lugares onde o EI pode realizar ataques?

Sim, claro. É uma situação em que o perigo pode estar em qualquer lugar, porque a mensagem geral do EI para seus afiliados é: “independente de onde você estiver, faça o que for possível”. É assim que o terrorismo anti-imperialista do século 21 vai se organizar, com uma instrução distribuída, por exemplo, no universo digital com qualquer um que se solidarize com a causa podendo assumir a “necessidade” de praticar o ataque. Uma pessoa com uma arma em São Paulo, por exemplo, após ter contato com a ideologia do EI na internet pode decidir ir para as ruas e atirar nas pessoas. E acho importante ressaltar que, ao contrário do que alguns dizem, não são apenas pessoas com distúrbios mentais que praticam esses atos. 

Como assim?

Existe uma nova modalidade, uma nova forma de ser terrorista que os países ocidentais estão subestimando atualmente. Muitas dessas pessoas são jovens, com pouca experiência de vida. Alguns talvez nem compreendam a divisão entre sunitas e xiitas. E, ao contrário dos movimentos anti-imperialista do passado que exigiam certo tipo de conhecimento até de teorias econômicas, hoje muitos desses jovens que combatem pelo EI veem isso como uma aventura.

Documentos do governo brasileiro mostram preocupação para a Olimpíada de 2016. Acha que existe algum risco?

Os grandes eventos, como foi a Copa do Mundo e como serão os Jogos Olímpicos, contam com um esquema de segurança muito refinado e, não podemos esquecer, esses militantes individuais, esses ‘lobos solitários’ agem de forma amadora. Eu diria que é muito mais provável que, caso ocorra algum ataque, não seja dentro das dependências da Olimpíada, mas no seu entorno, ou em locais próximos. É quase um paradoxo, mas ao mesmo tempo em que esses eventos atraem muito mais atenção para atos terroristas, eu diria que as pessoas estão mais seguras participando desses eventos do que à margem deles.

Você fala no seu livro que o ocidente subestimou o EI. Como enfrentá-lo agora?

Essa é uma questão complicada. A estratégia atual, de ataques aéreos de uma coalizão lideradas pelos EUA, por exemplo, não está funcionando. O que eu acho que é importante fazer no momento, fora do front de combate, é desenvolver ações para garantir que os jovens não sejam seduzidos por esse movimento jihadista. Ou seja, focar na integração dos grupos que estão à margem da sociedade é uma forma de combater o recrutamento do EI e, consequentemente, enfraquecer os jihadistas. Por quê permitir que esses jovens viagem para a Síria ou para o Iraque em busca de uma identidade ao invés de permitir que eles tenham esse sentimento, seja nos Estados Unidos, em algum país europeu, ou no Brasil?

Mas qual a alternativa às guerras por procuração contra o EI?

A solução hoje seria apoiar os curdos, mas no fim das contas, essa continuaria sendo uma estratégia com problemas porque os peshmergas tem uma agenda própria de interesses. Por outro lado, sempre existe a possibilidade de não intervir. É o país deles, a região deles. Os EUA e outras potências sempre tem a opção de deixar que lutem uns contra os outros, sem enviar armas para qualquer um dos lados. Não é verdade que se as potências não intervirem sentirão o impacto imediato em seus próprios territórios. A maior parte desses combatentes que estão no Iraque e na Síria não conseguirá ir para a Europa ou para os EUA. É importante entender que foi a própria guerra por procuração que criou o Estado Islâmico. Continuar com essa estratégia pode criar a próxima geração de perigo vindo dessa região.

Você compara a Alemanha Nazista de Hitler ao Califado de Abu Bakr al-Baghdadi. Quais as semelhanças e diferenças?

A comparação diz respeito ao genocídio cometido pelos dois e também a teoria de superioridade racial, seja dos arianos de Hitler ou dos sunitas de Al-Baghdadi. A diferença mais óbvia é que o EI não é uma ameaça a união territorial da Europa, como era a Alemanha.

De onde vem o expertise do EI nas redes sociais, uma de suas ferramentas de recrutamento?

Isso é algo que está relacionado diretamente com o a guerra civil da Síria. Quando os estrangeiros começaram a ser recrutados para o conflito, eles levaram esse conhecimento, que foi rapidamente adotado pelos jovens que hoje combatem pelo EI. O exemplo mais emblemático, sem dúvida, é surgimento do Jihadi John – militante que ficou famoso após videos com a decapitação de jornalistas serem divulgado na internet –, que reflete a supremacia do EI na região e é a propaganda perfeita para atrair novos membros para o EI.

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