Ocupação de cidade ameaça pacificação do Afeganistão

Num grave incidente que ameaça o processo de pacificação do Afeganistão, a milícia do senhor da guerra usbeque, Abdul Rashid Dostum, ocupou hoje a cidade de Maimane, capital da província nortista de Faryab, informou o ministro do Interior afegão, Ali Ahmad Jalali. Em outro incidente não menos sério, sete pessoas morreram em confrontos no sul do país, entre os quais quatro soldados do Exército afegão. Segundo o ministro do Interior, cerca de 2 mil homens controlam a província, forçando a retirada do governador, Anauatula Anayat, e de chefes militares leais ao governo central de Cabul. "A ocupação é uma flagrante violação da Constituição afegã", disse o ministro. O ministro do Interior não se referiu a baixas nos combates ocorridos durante a ocupação, mas a imprensa local menciona grande número de mortos e feridos. O governo do presidente Hamid Karzai mobilizou 750 soldados do Exército afegão que serão transportados de avião para a província de Faryab. Segundo um funcionário do Ministério da Defesa afegão, outras unidades estão se dirigindo ao território por terra, mas não citou números. Divergências - Dostum apoiou a invasão do país pelos americanos e também a formação do novo governo afegão, mas vem mantendo sérias divergências com o presidente Karzai. Na última Grande Assembléia das Tribos Afegãs realizada no início do ano, em Cabul, vários senhores da guerra representantes das etnias minoritárias tayika e usbeque, entre os quais Dostum, defenderam um sistema parlamentarista de governo, numa clara oposição ao regime presidencialista centralizado de Karzai - líder da etnia pastun, majoritária no Afeganistão. Além disso, os milicianos de Dostum têm mantido freqüentes choques com outros senhores da guerra da região norte afegã desde a queda do regime do Taleban no fim do ano 2001. O último deles ocorreu em outubro do ano passado, quando milicianos de Dostum enfrentaram combatentes de Ustad Ata Mohamed, em princípio também um aliado de Karzai. No total, o Exército afegão conta com 7 mil soldados, treinados e armados pelos Exército americano e francês. É um número considerado insuficiente para controlar todo o território afegão. Na terça-feira, as Nações Unidas advertiram que a insegurança reinante no país pode causar um novo adiamento das eleições. O pleito deveria ser realizado em junho, mas foram adiados para setembro pelo governo afegão. O subsecretário da ONU para Manutenção da Paz, Jean-Marie Guehenno, ressaltou que o governo central deve cumprir o compromisso de desarmar pelo menos 40 mil dos mais de 100 mil combatentes que teriam os senhores da guerra. Gueheno insistiu na preparação de um Exército Nacional, integrado por membros de todas as tribos, e no aumento da assistência internacional para garantir a segurança. "Caso contrário, as eleições estarão seriamente ameaçadas", concluiu. Combates no sul - Os confrontos no sul ocorreram numa região remota a 350 quilômetros a sudoeste da capital afegã e resultaram na morte de pelo menos sete pessoas, entre os quais quatro soldados do Exército afegão, informou o comando militar dos Estados Unidos. Um soldado afegão ficou ferido. O comando americano não identificou vítimas. O tiroteio ocorreu durante uma operação conjunta de soldados americanos e afegãos perto de Gereshk, na província de Helmand, disse a porta-voz militar Michele De Wert, acrescentando que os soldados afegãos mortos faziam parte no novo Exército Nacional afegão treinado pelos Estados Unidos, destacando que os combates com fuzis AK-47 e foguetes se estenderam por três horas. Fontes militares americanas disseram ainda que tropas da coalizão liderada pelos americanos também foram alvo de ataques perto da fronteira com o Paquistão em Lwara, na província oriental de Paktika. Reunião de Emergência - O presidente Karzai convocou hoje uma reunião de emergência do Conselho de Segurança Nacional para analisar os dois conflitos, principalmente o que eclodiu no norte do país, com a invasão da província de Faryab por forças leais a Dostum. O presidente afegão classificou a situação de extremamente grave e pediu ao senhor da guerra que deixe imediatamente a cidade de Maimane, capital da província. O comando americano no Afeganistão não fez nenhum comentário sobre a ocupação.

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