Ocupação paralisa a Cisjordânia

Palestinos que viajam entre as principais cidades do território perdem horas nos postos de controle israelenses

Gustavo Chacra, Hebron, Cisjordânia, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 00h00

Hebron é a maior cidade da Cisjordânia. Nablus, o antigo centro comercial. Na emergente Ramallah, está situada a sede da Autoridade Palestina (AP), que um dia o povo sonha transferir para Jerusalém Oriental - a capital de um território que ainda não é um país, mas tampouco integra outro Estado. A Cisjordânia é uma área ocupada militarmente pelos israelenses, que mantêm assentamentos e controlam o fluxo de palestinos, impondo barreiras e mais de 500 postos de controle. O presidente palestino, Mahmud Abbas, administra apenas as principais zonas urbanas e seus arredores. A viagem de Nablus a Ramallah, que deveria durar uma hora de ônibus, pode levar mais de quatro, mesmo depois de os israelenses reduzirem as restrições ao trânsito de palestinos nos últimos anos. No centro de Nablus, há táxis e lotações que levam ao posto de controle de Hawara, a poucos quilômetros dali. Com raras exceções, os veículos dessa cidade não recebem permissão dos israelenses para cruzar a barreira - localizada fora das fronteiras reconhecidas de Israel.Os viajantes descem das lotações e se dirigem para uma fila. Uma delas, mais rápida, com duração de 20 minutos, é destinada a mulheres, idosos e estrangeiros. Eles precisam apenas mostrar um documento que indica que Israel os autoriza a cruzar para o outro lado. Homens com menos de 50 anos se aglomeram em outras filas e aguardam por mais de duas horas no início da manhã e no fim da tarde. Muitos são universitários que passam por esse bloqueio todos os dias para estudar. Eles já se acostumaram, batem papo e ficam felizes quando o tempo na fila corre rápido. "Hoje talvez dure somente pouco mais de uma hora", disse um estudante ao Estado.Os soldados israelenses, portando fuzis e coletes à prova de bala, chamam um palestino por vez, que atravessa uma catraca. Primeiro, ele tem de abrir a mochila. Passam por um detector de metal e vão para uma guarita blindada. Colocam o documento em um buraco para ser checado por outro oficial de Israel. Se autorizados, seguem para um estacionamento com transporte público para Ramallah.No trajeto, os palestinos torcem para que os israelenses não tenham fechado alguns dos postos de controle para carros, que normalmente ficam em cruzamentos com estradas usadas apenas por colonos judeus - apesar de estar em áreas palestinas, os moradores árabes da região têm acesso impedido a muitas delas.Nos postos de controle das estradas, os palestinos não precisam descer dos carros. Em alguns casos, a passagem é direta. Em outros, mostram documentos para os soldados. O problema é quanto os israelenses decidirem fechar um dos quatro postos de controle permanentes entre Nablus e Ramallah. Foi o que ocorreu no dia de uma das viagens feitas pelo Estado. O motorista perguntou aos passageiros da lotação se preferiam pagar 5 shekels (R$ 2,80) a mais e fazer um caminho que prolongaria a viagem em uma hora ou correr o risco de ficar por tempo indefinido no bloqueio. Uma professora alemã de música, uma estudante palestina e um outro jovem concordaram em pagar. O motorista cruzou por meio de ruas de vilas palestinas e vielas secundárias. No percurso normal, percorrido em outra viagem, é possível observar ao menos dez assentamentos judaicos. A professora alemã diz que não aguenta mais os bloqueios e decidiu que, após dois anos em Ramallah, voltará para casa. "O pior é ver as injustiças. Muitos alunos não podem ir às aulas de música simplesmente porque eles querem proteger os colonos." ILEGAISAdnan Owdeh, de 50 anos, que trabalha no Conselho Legislativo Palestino, precisa cruzar todos os dias o posto de controle de Hawara. Contudo, ele está proibido de usar seu carro, que não recebeu licença de Israel para circular fora de Nablus. "Com o tempo, a gente se acostuma. Era muito pior no passado, durante a intifada", disse.O governo israelense, em acordos de paz com os palestinos e amparados pelos EUA, comprometeu-se a desmantelar ou pelo menos congelar as colônias judaicas. No ano passado, entretanto, foram construídas 1.257 na Cisjordânia, um crescimento de 57% em relação a 2007, de acordo com a ONG israelense Paz Agora. Israel argumenta que se trata de um crescimento "natural" dos assentamentos. Até hoje, Israel retirou apenas os assentamentos da Faixa de Gaza e quatro pequenas colônias da Cisjordânia. Ao todo, 364 mil israelenses, segundo dados da CIA, vivem em assentamentos irregulares em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia em meio a mais de 2,5 milhões de palestinos.Se sair de Nablus já é complicado, os obstáculos para ir de Ramallah a Jerusalém são ainda maiores. Um palestino nascido na Cisjordânia, sem uma permissão israelense, não entra em Jerusalém Oriental, que fica a 20 minutos da sede da AP. Caso possua a autorização ou seja residente de Jerusalém, o palestino precisará cruzar mais um posto de controle, em Qalandia. Novamente os palestinos são obrigados a entrar numa fila e esperar. Atravessam então uma roleta, colocam as bolsas, mochilas e pastas em um aparelho de raios X e cruzam um detector de metal. Apresentam os documentos a outro militar israelense e, se liberados, têm direito a entrar em Jerusalém. O objetivo de Israel, com a fiscalização, é impedir a entrada de terroristas. A medida realmente contribuiu para a redução dos ataques de militantes radicais palestinos.Em Hebron, no sul da Cisjordânia, o problema principal não é entrar e sair da cidade. A maior dificuldade dos moradores está na tentativa de rezar na Tumba dos Patriarcas ou mesmo ir ao mercado da Cidade Velha. Sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos, Hebron é habitada por cerca de 200 mil palestinos e 500 colonos judeus. Para proteger os colonos, o Exército impôs uma série de restrições aos palestinos. Uma delas implica na passagem por três detectores de metal para entrar na mesquita - os israelenses, que tem uma entrada própria do outro lado, também passam por um detector, mas os militares não fazem nada se o aparelho apitar. Muçulmanos e judeus apenas se observam à distância por janelas distintas, enquanto rezam diante da tumba de Abraão.

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