'Odiamos a polícia; nos batem como no tempo de Ben Ali'

Ahmed Chouaib, de 18 anos, é dono de uma coragem reservada aos jovens. Saiu de casa na manhã de ontem, em um bairro não muito afastado do centro de Túnis, disposto a enfrentar, com um punhado de pedras, o bem armado batalhão antidistúrbio da capital. No dia anterior, quando milhares de tunisianos tomaram a capital para protestar conta o assassinato de Chokri Belaid, o principal líder da oposição, Chouaib também se perdera na multidão.

YAN BOECHAT , DUBES SONEGO , ESPECIAL PARA O ESTADO / TÚNIS , O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2013 | 02h06

Na manhã de ontem, Ahmed reuniu-se com amigos em frente ao Teatro Municipal de Túnis. Foi acompanhar os protestos pacíficos que pediam a dissolução do governo de coalizão liderado pelo partido islâmico moderado Ennahda, acusado de ordenar o crime.

Entre os que entoavam hinos que marcaram a revolta contra o ex-ditador Zine al-Abidine Ben Ali, Ahmed não era dos mais animados. Mas, assim como seus jovens amigos, estava ansioso para o momento em que manifestantes e forças de segurança se enfrentariam pelas ruelas do centro de Túnis, em mais uma tarde de confrontos.

O jovem tunisiano, que sonha em emigrar para a Europa, não precisou esperar muito. Bastou passar a chuva, pela manhã, para que os manifestantes ganhassem número suficiente para começar a marchar em direção ao Ministério do Interior - um dos símbolos do terror do regime Ben Ali. "Nós odiamos a polícia. Os policiais são como na ditadura. Nada mudou, eles nos batem", disse Ahmed, pouco antes de os confrontos começarem.

Alguns jovens exaltados começaram a atirar pedras contra os policiais que guardavam o ministério. Manifestantes mais velhos ainda tentaram - em vão - acalmar os ânimos. Em pouco tempo, uma chuva de bombas de gás lacrimogêneo caiu sobre a larga Avenida Habib Bourguiba. Os manifestantes mais jovens, como no dia anterior, buscaram refugio nas ruas adjacentes e, munidos com pedras e pedaços de paus, atacaram os policias.

Após horas de confrontos em todo o centro da cidade, as forcas de segurança mudaram a estratégia. Em maior número e com mais munição de bombas de gás lacrimogêneo, os policiais procuravam não apenas dispersar os manifestantes, como no primeiro dia de protestos, mas os prender também.

Enquanto policiais uniformizados ou à paisana enfrentavam os grupos de manifestantes mais numerosos, homens com máscaras pretas cortavam as ruelas em motos tentando capturar os mais jovens - dezenas de rapazes de 20 e poucos anos foram presos. Outros foram levados para vans estacionadas no centro da cidade.

Apesar de os confrontos terem cessado mais cedo do que no dia anterior, Túnis terminou o dia sob um forte clima de tensão. Policiais ocuparam a principal avenida da cidade e dissolviam qualquer aglomeração.

Apesar do silêncio após o anoitecer, quase ninguém duvida que novos confrontos tomarão a capital hoje - sexta-feira é dia sagrado no islamismo. Ao meio-dia, hora local, será enterrado Belaid e, provavelmente, milhares comparecerão o funeral em mais um ato de protesto contra o governo da Tunísia. Chouaib e seus amigos garantem que estarão lá.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.