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Ódio aos EUA domina eleições no Paquistão

Antiamericanismo marca a campanha dos principais candidatos na disputa pelo voto de 84 milhões de eleitores que vão às urnas no sábado

ADRIANA CARRANCA, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2013 | 02h01

Como da noite para o dia, o campo de refugiados de Jalozai, o vasto e monocromático terreno nas proximidades da conturbada fronteira do Paquistão com o Afeganistão, amanheceu colorido por cartazes dos candidatos às eleições paquistanesas, no sábado. Políticos raramente são vistos ali, mas o antiamericanismo predominante entre os 150 mil moradores transformou o local no principal palanque da disputa.

A maioria das famílias que vive no campo de Jalozai foi deslocada pelo conflito entre extremistas islâmicos e as forças da coalizão liderada pelos EUA - que ocorre oficialmente no vizinho Afeganistão, mas cruzou a fronteira para o Paquistão na mesma medida em que os terroristas atravessaram as montanhas e fizeram das áreas tribais do país seu esconderijo.

Sob o governo do presidente americano, Barack Obama, a população dessas áreas passou a sofrer sobretudo com os bombardeios de aviões não tripulados (drones), que atingem civis com mais frequência do que a Casa Branca admite e ajudam a alimentar o ódio contra os americanos.

Pesquisa do instituto Gallup com eleitores, conduzida em fevereiro, mostrou que 92% dos paquistaneses têm uma visão negativa do governo dos EUA, alçada principalmente pelos ataques com drones.

Os dois principais opositores do Partido Popular do Paquistão, legenda da ex-premiê Benazir Bhutto e do presidente Asif Ali Zardari, que governou até o fim do mandato em março - uma administração interina assumiu até as eleições -, adotaram o discurso antiamericano na tentativa de catalisar os votos dos insatisfeitos com a última administração, vista como um "fantoche" dos EUA.

Primeiro-ministro por dois mandatos, deposto em um golpe pelo general Pervez Musharraf em 1999, o líder da Liga Muçulmana do Paquistão-Nawaz, Nawaz Sharif, cuja ressurgência na política se deve à crescente influência no Paquistão da Arábia Saudita, um aliada dos EUA, tem defendido que o apoio à guerra americana contra o terror - pelo qual bilhões de dólares fluem do tesouro americano para os cofres de Islamabad - seja reconsiderada.

Ex-marido de uma socialite britânica e ídolo do críquete, Imran Khan, do Movimento pela Justiça, cuja influência na política era até há pouco periférica, hoje consegue levar milhares de pessoas aos seus comícios, pautados pelo discurso nacionalista e pela defesa da soberania do Paquistão contra a intervenção dos EUA.

"Os candidatos estão pegando carona no forte sentimento anti-EUA para angariar votos, mas isso não passa de um discurso populista", diz o diretor do Carnegie Endowment for International Peace para o Sul da Ásia, Frederic Gares, especialista em segurança e democratização no Paquistão, Índia e Afeganistão. "Independentemente de quem for eleito, há muito pouco que o governo civil pode fazer a esse respeito, porque a relação com os EUA é dominada pelos militares. Além disso, o Paquistão depende largamente da ajuda americana."

Os paquistaneses culpam os EUA pelo crescimento de grupos extremistas que estão fazendo destas eleições as mais sangrentas da história do Paquistão, com 43 ataques contra candidatos de orientação secular e partidários e mais de 70 mortos no último mês.

Nos anos 80, a Casa Branca usou o Paquistão para barrar o avanço dos soviéticos na região; bilhões de dólares foram canalizados para os militares paquistaneses, que treinaram e financiaram milícias islâmicas para lutar no Afeganistão contra os laicos comunistas, conflito do qual os talebans saíram vitoriosos. Quando veio 11 de Setembro e as tropas americanas marcharam para Cabul, os radicais islâmicos cruzaram a fronteira e foram buscar refúgio no antigo reduto. O Paquistão se tornou um esconderijo de terroristas.

"Não havia terrorismo no Paquistão antes da chegada das tropas americanas ao Afeganistão", diz Gares. A estabilidade do Paquistão é crucial para os EUA no momento em que as tropas americanas começam a deixar o vizinho Afeganistão.

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