Damon Winter/The New York Times-9/12/2010
Damon Winter/The New York Times-9/12/2010

OEA afasta brasileiro do Haiti por crítica

Ricardo Seitenfus, representante especial do organismo no país caribenho, tinha dado entrevista a um jornal suíço na qual questionava o papel da força de paz internacional; acadêmico, porém, atribui episódio a ''um longo processo de desgaste''

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2010 | 00h00

O representante especial da Organização dos Estados Americanos (OEA) para o Haiti, o brasileiro Ricardo Seitenfus, foi afastado de suas funções após ter criticado o trabalho da comunidade internacional. À agência EFE, diplomatas da OEA disseram que Seitenfus foi "destituído" por causa de uma entrevista que deu ao jornal suíço Le Temps. O brasileiro, porém, discorda e afirma que houve "um longo processo de desgaste".

Seitenfus disse ao Estado que até agora não foi comunicado oficialmente de seu afastamento. Ele deveria sair em férias no dia 17, mas, diante da crise política instalada após as eleições do dia 28 de novembro, decidiu permanecer no Haiti.

Na segunda-feira, o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, pediu-lhe que tirasse de vez suas férias. "Não pude ir contra a decisão", lamentou o brasileiro.

No mesmo dia, o Le Temps publicara uma entrevista com Seitenfus na qual ela criticava duramente a ação internacional no Haiti, dizendo que os capacetes azuis "não ajudam e só pioram a situação" e chamando atenção para a "perversa relação entre a força das ONGs e a fraqueza do Estado haitiano". Seitenfus ainda alfinetava Washington: "O Haiti paga por sua proximidade dos EUA."

A entrevista foi publicada também no jornal Haiti Libre, de Porto Príncipe, e causou estardalhaço nas rádios comunitárias haitianas.

Desgastes. Já em Arroio do Tigre, cidade no Rio Grande do Sul onde vive, o brasileiro disse que a entrevista foi "apenas um elemento" que pode ter desagradado a alguns dos 34 países da OEA. O principal ponto de desgaste seria sua oposição ao governo provisório e, sobretudo, as críticas que fez à posição de países diante da crise instalada após as eleições.

Seitenfus revelou que, no dia em que se iniciaram os protestos, participou de uma reunião na qual o afastamento do atual presidente haitiano, René Préval, e seu exílio forçado foram propostos "por três ou quatro países". O brasileiro - "diante de um silêncio constrangedor" - pediu a palavra e condenou a ideia, que violaria a Carta Democrática Interamericana.

Adotado pela OEA em 2001, o documento prevê que governos democraticamente eleitos devem cumprir todo o seu mandato, a não ser em caso de impeachment. Na mesma reunião, o Itamaraty também teria se posicionado contra a redução do mandato e a saída do Haiti de Préval, afirmou Seitenfus.

O emissário da OEA afirma que sua oposição à ideia de um governo provisório no Haiti, não legitimado nas urnas, também incomodou parte dos países ativos na reconstrução do país.

PARA LEMBRAR

O Haiti foi tomado por intensos protestos após as eleições gerais do dia 28, motivados por problemas nas urnas - que impediram milhares de haitianos de votar - e acusações de fraude por parte de vários candidatos à presidência. A nova instabilidade política veio à tona enquanto o país enfrenta uma violenta epidemia de cólera que já matou milhares de pessoas e os prejuízos do terremoto de janeiro. O segundo turno das eleições deve ocorrer no próximo mês.

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