OEA está indecisa sobre queda de Chávez

Diante da saída do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, a Organização dos Estados Americanos tem duas opções, mas aparentemente não está pronta para se decidir por nenhuma delas. Horas depois do golpe, a organização entrou num processo de consultas com os governos membros e o resultado deve estar em perfeito equilíbrio.A OEA deve optar entre condenar a forma como Chávez, um presidente democraticamente eleito, foi obrigado a deixar o cargo sob pressão militar ou elogiar a saída de um político incômodo para muitos, incluindo o secretário-geral da organização, o colombiano César Gaviria.A posição final será um termômetro da Carta Democrática Interamericana, um acordo que a Venezuela e os demais países da OEA firmaram para defender a democracia e isolar regimes fruto da "interrupção" do processo democrático.O subdiretor do Diálogo Interamericano, Michael Shifter, um grupo não-governamental de análise de Washington, disse que "um processo democrático foi interrompido" com a saída de Chávez.Se a OEA não agir de acordo com os postulados da Carta Interamericana, ela pode ver-se diante da incômoda posição de promover "um risco de contágio" em outros lugares da região.Se assumir a "realidade prática" de que um dirigente eleito, Chávez, estava causando danos graves às liberdades e à economia venezuelanas, teria de condená-lo, esquecendo o ponto anterior."Veremos um difícil ato de equilíbrio", disse Shifter. "Existe o desejo de se preservar os princípios democráticos mas por outro lado, não se pode desdenhar a complicada situação que levou à destituição de Chávez".O antecedente mais recente ocorreu no Peru em 2000. O presidente Alberto Fujimori foi objeto de críticas por parte da OEA naquele ano, logo depois de ter vencido uma terceira reeleição num processo considerado irregular pela própria organização.A assembléia de chanceleres reunida em Windsor, Canadá, nomeou uma comissão multinacional para buscar o diálogo entre Fujimori e a oposição e fixar uma agenda. Fujimori renunciou em novembro no Japão, pressionado por protestos populares.A partida de Fujimori, dirigente eleito em duas ocasiões pelo voto popular, não ocorreu, entretanto, por um componente militar. A OEA não teve maior problema em expressar sua boa vontade em relação ao governo do sucessor interino Valentín Paniagua.Mas, desde então, o Peru iniciou uma forte campanha pela elaboração de uma Carta Democrática, que promove o isolamento de qualquer governo resultante da interrupção do processo democrático, como é o caso venezuelano.Se Chávez não fosse considerado uma pedra no sapato do presidente norte-americano George W. Bush e de outros governantes americanos, a Carta Democrática teria sido acionada de forma imediata.Mas, Chávez tem sido criticado pela administração dos EUA por seus contatos com os dirigentes de Cuba, Líbia, Iraque, Irã e outros países considerados como patrocinadores do terrorismo. Outros dirigentes, entre eles Gaviria, o criticavam por seus ataques contra os meios de comunicação.Numa reação pessoal na noite de quinta-feira, Gaviria se esforçou para condenar o movimento que acabaria derrubando Chávez, mas tampouco defendeu o mandatário; e pediu a ele para restituir as liberdades no país.O porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, disse que os EUA não reconhecerão unilateralmente o novo governo de Carmona e que estavam em coordenação com os governos americanos e a própria OEA para tomarem uma decisão.Mas Fleischer deixou em aberto o caminho que, aparentemente, prevalecerá quando a OEA tiver que assumir uma posição: o compromisso de todos os países americanos para com a democracia. E nesse sentido foram as primeiras declarações de Carmona."A posição do governo (de Washington) sempre tem sido a de promover a democracia e a tranquilidade", definiu Fleischer.Leia o especial sobre a crise na Venezuela

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