Presidência da Bolívia / AFP
Presidência da Bolívia / AFP

OEA publica relatório final com acusações que incentivaram renúncia de Evo Morales

Versão preliminar do documento, divulgada no dia 10 de outubro, gerou terremoto político na Bolívia

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2019 | 03h59

A Organização dos Estados Americanos (OEA) reiterou nesta quarta-feira, 4, suas alegações de 'irregularidades' nas últimas eleições presidenciais na Bolívia, apresentando a versão final do relatório que levou à saída do então presidente, Evo Morales.

A OEA publicou a versão preliminar do relatório em 10 de outubro. O documento gerou um terremoto político na Bolívia e em poucas horas causou um anúncio de repetição eleitoral por Morales e sua subsequente renúncia forçada pelos militares.

Nas eleições em questão, realizadas em 20 de outubro, Morales foi eleito pela quarta vez como presidente boliviano, impondo no primeiro turno uma margem superior a dez pontos, segundo a contagem oficial de seu principal rival, o ex-presidente Carlos Mesa.

O relatório final da OEA publicado na quarta-feira, no entanto, afirma que "as manipulações e irregularidades indicadas não permitem certeza sobre a margem de vitória do candidato (Evo) Morales sobre o candidato (Carlos) Mesa".

O documento, resultado de uma auditoria, diz que "pelas evidências esmagadoras encontradas, o que é possível dizer é que houve uma série de operações maliciosas destinadas a alterar a vontade expressa nas pesquisas".

Entre as "ações deliberadas que procuravam manipular o resultado da eleição", segundo a OEA, estava "a interrupção intencional e arbitrária, sem base técnica, do Sistema de Transmissão de Resultados Preliminares (TREP)", ou contagem rápida.

"Todas as análises da equipe técnica nos permitem determinar que a paralisia do sistema TREP não foi um acidente ou uma decisão baseada em fundamentos técnicos. Foi simplesmente uma decisão arbitrária, cujo objetivo incluía a manipulação da infraestrutura de TI", sublinha o documento preparado pela órgão liderado por Luis Almagro.

O relatório também denuncia que, quando o sistema foi reiniciado no dia seguinte, "um servidor oculto apareceu, não declarado e não controlado pela empresa de auditoria ou pela equipe técnica do órgão eleitoral".

Nesse sentido, os auditores detalham "uma manipulação maliciosa das eleições em dois planos", por um lado no nível das atas após sua alteração e a falsificação das assinaturas dos jurados do painel e, por outro, dos resultados após o redirecionamento do fluxo de dados para dois servidores ocultos, o que possibilitou a manipulação de dados.

 "As descobertas detalhadas também revelam o viés da autoridade eleitoral. Os membros do TSE (Supremo Tribunal Eleitoral), que tinham que garantir a legalidade e a integridade do processo, permitiam que o fluxo de informações fosse desviado para servidores externos, destruindo todos os confiança no processo eleitoral ", diz ele.

 O documento considera suas descobertas "contundentes". "A equipe de auditoria não pode ignorar o conjunto de manipulações e irregularidades observadas no trabalho de campo e a análise das mais de 200 reclamações e comunicações com as informações recebidas", defende o texto, que conclui que "a margem da vitória na primeira rodada é mínima se comparada ao volume de manipulações e alterações detectadas ".

A versão preliminar do relatório causou um terremoto político na Bolívia após dias de protestos da oposição que levaram à renúncia de Morales, forçada pelas Forças Armadas, e ao acesso ao poder de um executivo interino da oposição sem maiorias legislativas, presididas por Jeanine Áñez.

A renúncia de Morales foi descrita como um "golpe de estado" por vários governos – como o México – e políticos latino-americanos, enquanto outros países como os Estados Unidos reconheceram o executivo de Áñez. A chegada ao poder de Áñez gerou, por sua vez, grandes protestos dos apoiadores de Morales, que receberam em resposta a repressão policial e militar protegida por um decreto que isentava a responsabilidade criminal de soldados e agentes e que resultou em cerca de 35 mortos. /EFE

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