Ofensiva da França reflete o fracasso da 'união' na Europa

Análise: Gilles Lapouge

É CORRESPONDENTE EM PARIS, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2013 | 02h05

Os combates continuam em Tiganturine, onde o Exército argelino ataca os terroristas que tomaram como reféns cerca de 60 estrangeiros funcionários de um campo de exploração de gás. Os soldados argelinos libertaram uma parte dos reféns, mas ainda restam alguns. Mas americanos, japoneses e britânicos foram mortos nos combates.

Não espanta que os governos do Japão, Grã-Bretanha e EUA tenham mostrado seu mau humor com relação aos argelinos. Eles não foram avisados sobre esse ataque fulminante dos soldados de elite da Argélia. E lamentam. Mas a reação argelina era previsível: de um lado os sequestradores se preparavam para aniquilar suas presas. A vida dos reféns estava ameaçada, além da tortura da situação. De outro lado, todo o mundo sabia que os argelinos, que foram sangrados até a morte por terroristas islâmicos há cerca de 20 anos, jamais negociam com sequestradores. Eles os matam.

A França, que teve dois ou três cidadãos mortos na confusão, não fez nenhuma censura aos argelinos. Qual a razão? Paris tem necessidade da compreensão de Argel para continuar a guerra que trava no sul do Saara contra os terroristas que assumiram o controle do no norte do Mali. Em compensação, os franceses não estão satisfeitos com o comportamento de seus aliados tradicionais, Europa e EUA. Estes certamente felicitaram ruidosamente essa França corajosa, que investiu contra uma situação perigosa que pode se tornar trágica: a criação de um Estado terrorista no Mali, coração da África. Eles aplaudiram, disseram que enviariam aviões ou alguns caminhões, mas depois retornaram às suas ocupações habituais.

O deputado europeu Daniel Cohn-Bendit criticou o comportamento. Dirigindo-se aos europeus ele declarou: "O que vocês nos disseram foi 'vão lá se matar no Mali. Nós enviaremos as enfermeiras'". Essa carência de apoio europeu indica um novo fracasso dessa ambiciosa "União Europeia" que já tem grandes tormentos com sua moeda comum.

Como a Europa pode pretender se exibir como um continente unido quando cada uma de suas peças tem sua própria rede de organizações, seus próprios objetivos diplomáticos, seu pequeno Exército, seus pequenos canhões, seus soldadinhos e suas pequenas inquietações? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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