Ofensiva de Israel causa perdas de US$ 1 bilhão por semana aos palestinos

Mais de 5 mil imóveis foram destruídos, 30 mil danificados e 4 mil tornaram-se inabitáveis de tão castigados pelas bombas

O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2014 | 15h10

CIDADE DE GAZA - Encorajado pelo novo cessar-fogo, Mohamad al Wadiya, empresário de 30 anos, decidiu neste sábado romper o segundo de seus medos: pegar o carro e se aproximar para calcular os danos sofridos pela fábrica familiar após mais de um mês de intensos combates e bombardeios israelenses.

"Tínhamos conseguido reconstruir tudo e reabrir a fábrica há dois meses, depois que em 2009 ficasse totalmente destruída em outra operação israelense", explicou à agência de notícias EFE junto aos destroços do que até pouco tempo era uma cadeia de produção de batatas fritas e outros tipos de aperitivos.

Situada no leste da Cidade de Gaza, palco de conflitos e operações dos carros de combate israelenses, o edifício não já é mais que uma massa de máquinas poeirentas e infraestruturas derruídas no meio de escombros.

"Nem sequer pudemos recuperar as perdas que sofremos na guerra anterior", acrescentou Wadiya, que acusa Israel de esconder, por trás de alvos bélicos, uma estratégia para acabar de forma sistemática com a indústria e a economia de Gaza.

"Israel diz que esta guerra se dirige contra as milícias e (o movimento islamita) Hamas, mas nem esta nem outras muitas das fábricas destruídas pertencem ao grupo, portanto seu objetivo deve ser manter nossa economia frágil e fraturada", argumentou.

"Nesta fábrica, cem trabalhadores davam de comer a uma centena de famílias. Agora que está destruída, estas famílias não têm como ganhar a vida. Não sei de que quantia exata podemos falar, mas calculo que as perdas chegam a US$ 5 milhões", calculou.

Sua situação se repete de forma dramática em Gaza, onde bairros inteiros foram reduzidos a cascalhos desde que no último dia 8 de julho o exército israelense empreendeu uma ofensiva militar que causou a morte de mais de 1.900 palestinos, 75% deles civis.

A destruição e o número de vítimas mortais se multiplicaram de forma exponencial duas semanas depois, uma vez que o governo israelense deu sinal verde a uma incursão terrestre que provocou também a morte de 64 soldados israelenses.

Além disso, um civil israelense, um beduíno e um trabalhador estrangeiro morreram em consequência dos mais de 3.500 foguetes que as diversas milícias palestinas lançaram contra território israelense.

Segundo as autoridades na Faixa, o mês de combates arruinou a frágil agricultura que se desenvolvia, reduziu a cinzas o frágil tecido industrial e asfixiou o fraco comércio, com perdas econômicas próximas aos US$ 5 bilhões.

Esse é o cálculo apresentado nesta semana por Mufid Hasayna, ministro da Habitação e Obras Públicas do governo de unidade transitório palestino.

"Cerca de 40 mil construções de todo tipo foram destruídas ou ficaram severamente danificadas. A grosso modo, achamos que as perdas podem superar os US$ 5 bilhões", explicou aos meios de comunicação imprensa em Gaza.

"Foram 5.238 imóveis destruídos totalmente, 30 mil foram danificados, mas ainda são habitáveis, e 4.374 sofreram danos muito mais severos que os tornaram inabitáveis", acrescentou.

Além disso, "250 indústrias, comércios e infraestruturas agrícolas ficaram inúteis", ressaltou Hasayna, que lembrou que mais de 250 mil pessoas se viram obrigadas a deslocar-se de seus lares e necessitam de ajuda para subsistir.

Yaysir Amro, vice-ministro de Economia no mesmo governo, detalhou que, dessas perdas, cerca de US$ 3 bilhões correspondem à indústria e à agricultura.

"Durante estas últimas cinco semanas, o ciclo produtivo esteve totalmente paralisado. Setores como a agricultura, a pesca e a indústria não funcionaram. A tudo isso é preciso acrescentar o enorme prejuízo sofrido por infraestruturas fundamentais como a eletricidade e a água", afirmou.

Uma conjuntura que faz com que, segundo Amro, a tarefa de reconstruir a Faixa pareça desta vez titânica, e impossível se Israel não suspender o bloqueio econômico e o assédio militar que impõe há sete anos aos dois milhões de pessoas que ali vivem.

"O bloqueio deve acabar, é o que pedimos todos os palestinos. É ilegal e desumano. Mesmo assim, voltaremos a tentar. Não há outro remédio, reconstruiremos tudo outra vez", concluiu Wadiya com os dentes cerrados. / EFE

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