Ofensiva israelense impõe dilema a Abbas

Presidente da Autoridade Palestina poderia lucrar politicamente com os ataques ao Hamas, mas terá de enfrentar o descontentamento palestino

Michel Gawendo, Sderot, Israel, O Estadao de S.Paulo

31 de dezembro de 2008 | 00h00

O presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmud Abbas, aderiu à posição de Israel e dos Estados Unidos na esperança de ver o fim do regime do Hamas e de recuperar seu poder na Faixa de Gaza, mas terá de voltar atrás, pressionado pela população. Esta é a opinião do sociólogo palestino Nasser Ibrahim, que vive em Belém, na Cisjordânia."Abbas apostou no apoio tácito a Israel. Mas, com isso, passou a enfrentar muitas críticas, pois a população palestina está a favor da resistência do Hamas", disse Ibrahim ao Estado. Desde o início da ofensiva israelense contra o Hamas, na Faixa de Gaza, no sábado, Abbas vem emitindo sinais contraditórios. Ele condenou os ataques aéreos como atos "criminosos", mas culpou o Hamas por provocar Israel rompendo o cessar-fogo ao disparar centenas de foguetes Kassam contra alvos israelenses.O presidente palestino afirma que o grupo teve tempo suficiente para aderir ao processo de paz com Israel, mas preferiu usar a violência. Dizendo isso, Abbas correu o risco de desapontar centenas de palestinos que estavam sob fogo cerrado de Israel.Para a maioria da população, os israelenses são os únicos culpados pelo rompimento da trégua, não o Hamas.DESCONFIANÇAAbbas também ordenou que a polícia palestina reprimisse protestos nas ruas de Hebron, Nablus e Jenin. "Na verdade, Abbas nunca deu oportunidade para o Hamas demonstrar que tem capacidade de governar. Ele deu apenas a oportunidade para Israel tentar destruir o governo do movimento islâmico em Gaza", disse Ibrahim.O Hamas venceu as eleições legislativas palestinas em 2006, tomando o poder na Faixa de Gaza em 2007 por meio de um golpe militar que expulsou do território as forças leais a Abbas."Agora, mesmo dentro do Fatah, o partido de Abbas, há pressão para que ele mude de posição", disse o sociólogo. "Eles entendem que a única alternativa do Hamas é manter a resistência militar. Caso contrário, o movimento perderá toda a legitimidade política."Abbas deveria terminar seu mandato em janeiro, mas o presidente anunciou que pretende continuar no cargo."Ele tem medo da força do Hamas na Cisjordânia, onde a maioria da população, obviamente, condena os ataques israelenses", afirmou o sociólogo.Na opinião do especialista, Abbas terá de aderir aos esforços diplomáticos por um cessar-fogo em Gaza, seguindo os passos do presidente egípcio, Hosni Mubarak. "É a única maneira de o presidente palestino mostrar a seu povo que está contra as estratégias dos Estados Unidos e de Israel", disse.Para o deputado palestino Abdullah Abdullah, do Fatah, os ataques israelenses vão enfraquecer os líderes palestinos moderados, dando força para discursos mais radicais.Com o aumento do número de mortos - principalmente de civis - e o crescimento da raiva dos palestinos nos últimos dias, "os esforços públicos pela paz serão reduzidos e o Hamas ganhará apoio fora da Palestina e simpatia dentro da Palestina", disse Abdullah à agência Reuters.

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