Ofensiva na Faixa de Gaza é ensaio para ação contra Irã

Análise: David Sanger e Thom Shanker / NYT

O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h04

O conflito em Gaza que, pelo menos no momento, terminou com um cessar- fogo entre o Hamas e Israel, parece ser o mais recente episódio de um confronto que é periódico. Mas, desta vez, havia uma segunda finalidade estratégica, segundo autoridades americanas e israelenses: o confronto foi uma espécie de teste na prática para um futuro enfrentamento armado com o Irã, com destaque para foguetes mais aprimorados que podem alcançar Jerusalém e novos sistemas antimísseis que conseguem detê-los.

É o Irã, naturalmente, que mais preocupa o premiê Binyamin Netanyahu e o presidente Barack Obama. Embora discordando nas táticas, ambos deixaram claro que o tempo é curto - provavelmente uma questão de meses - para resolver o impasse envolvendo o programa nuclear iraniano.

Importante para esse jogo de guerra era eliminar a capacidade do Irã de enviar mísseis de segunda geração para a Faixa de Gaza e o Líbano, onde podem ser lançados pelos aliados do Irã, como Hamas, Hezbollah, e Jihad Islâmica durante alguma crise envolvendo sanções ou ataques israelenses contra instalações nucleares iranianas.

Michael Oren, embaixador israelense nos EUA e também historiador militar, comparou a entrada de mísseis iranianos em Gaza à crise dos mísseis cubanos. "Na crise dos mísseis cubanos, os EUA não estavam enfrentando Cuba, mas a União Soviética", disse Oren. "Na operação Pilar de Defesa, Israel não estava enfrentando Gaza, mas o Irã."

É uma analogia imprecisa. O que a União Soviética estava introduzindo secretamente em Cuba 50 anos atrás era um arsenal nuclear. Em Gaza, os foguetes que vêm do Irã são convencionais e, como os israelenses sabem, ainda têm sérios problemas de precisão. Mas de um ponto de vista Israel usou a batalha de Gaza para saber dos recursos do Hamas e da Jihad Islâmica - grupos que têm vínculos com o Irã, e também para romper essa ligação.

Na verdade, o primeiro ataque na guerra de oito dias entre o Hamas e Israel ocorreu quase um mês antes de os combates começarem - e foi em Cartum, capital do Sudão, com uma outra misteriosa explosão na guerra nas sombras com o Irã.

Uma fábrica que estaria produzindo armas leves foi explodida de um modo espetacular em 22 de outubro, dois dias após os sudaneses afirmarem que ela tinha sido atingida por quatro aviões israelenses. Israel não se manifestou a respeito. Mas as autoridades americanas e de Israel afirmam que o Sudão há muito tempo é o principal ponto de trânsito para o contrabando de foguetes Fajr iranianos, mesmo tipo dos que o Hamas lançou contra Tel-Aviv e Jerusalém.

A campanha envolvendo o sistema de defesa antimísseis em território israelense é descrita como a mais intensa num combate real não observada em nenhum outro lugar e teria potencial para mudar as estratégias de guerra da mesma maneira que o uso da Força Aérea na Guerra Civil Espanhola configurou os combates nos céus desde então.

Mas nos planos de contingência dos EUA e israelenses, Israel enfrentaria três níveis de ameaça num conflito com o Irã: dos mísseis de curto alcance que têm sido lançados nesta campanha, foguetes de médio alcance em mãos do Hezbollah no Líbano e mísseis de longo alcance partindo do Irã. A última das três ameaças incluiria o Shahab-3, míssil que agentes dos EUA e de Israel acreditam poderá um dia ter capacidade nuclear. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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