Marcos Brindicci/Reuters
Marcos Brindicci/Reuters

Oferta argentina de voos às Malvinas reduz tensão com Reino Unido

Conflito pela soberania das ilhas era um dos temas mais esperados na inauguração do ano legislativo

Efe,

01 de março de 2012 | 19h31

BUENOS AIRES - Em plena escalada do clima de tensão com o Reino Unido, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, surpreendeu nesta quinta-feira, 1, ao propor voos de seu país às ilhas Malvinas em um discurso no Congresso no qual também aliviou a pressão sobre a YPF, mas não pôs fim às dúvidas sobre o futuro da companhia petrolífera.

 

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O conflito pela soberania das Malvinas e os rumores sobre uma estatização da YPF eram os temas mais esperados da inauguração do ano legislativo e foram os últimos sobre os quais a governante se referiu.

"Não vim para brigar, vim para informar", disse Cristina aos parlamentares. No discurso, que se assemelhou a uma cerimônia partidária e durou mais de três horas, ela lembrou, com lágrimas nos olhos, seu falecido marido e antecessor na Presidência, Néstor Kirchner.

Quase no final do pronunciamento, quando os presentes começavam a demonstrar impaciência, ela surpreendeu com uma proposta para renegociar com o Reino Unido o plano de comunicações das Ilhas Malvinas e oferecer um aumento das frequências semanais de voos com saídas de Buenos Aires e aeronaves da Aerolíneas Argentinas.

Em 1999, a Argentina chegou a um acordo com o Reino Unido que permite o uso de seu espaço aéreo para que a companhia Lan voe às ilhas a partir do Chile.

"Não estamos aqui para prejudicar comunidade alguma", afirmou Cristina, longe do tom de irritação exibido em outras ocasiões ao falar sobre o tema.

Um dia antes, a União Europeia anunciou sua intenção de adotar ações diplomáticas "apropriadas" em resposta ao apelo do governo argentino para boicotar comercialmente o Reino Unido, às vésperas do 30º aniversário do início da guerra pela soberania das ilhas Malvinas, que deixou cerca de 900 mortos.

Minutos antes de se referir à questão das Malvinas, a presidente tinha desativado outra "bomba" que era esperada para ser detonada em seu discurso: a situação da YPF, a principal petrolífera do país, controlada pela espanhola Repsol.

A presidente "pisou em ovos" sobre o conflito com a companhia. "Vamos tomar as medidas necessárias para garantir o fornecimento de combustível", disse.

Após a menção à YPF, as ações da companhia subiram 16,80% na Bolsa de Buenos Aires, embora fontes do setor consultadas pela Agência Efe tenham se mostrado cautelosas sobre a estratégia governamental e não descartaram uma nova investida estatal nos próximos meses.

Não houve uma só menção aos supostos planos do governo para tomar o controle da empresa, nem às intensas negociações que ocorreram em Buenos Aires nos últimos dias entre os governos de Espanha e Argentina, e que incluíram inclusive uma visita-relâmpago do ministro de Indústria espanhol, José Manuel Soria.

Em seu longo discurso, ela atacou o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, que na quarta-feira tentou devolver ao governo a gestão do metrô da cidade.

Cristina Kirchner questionou se Macri pensa que é "prefeito de Nova York", e qualificou como "adolescente e vergonhosa" a atitude do político.

A presidente argentina aproveitou a ocasião para reiterar que não "tremerá" para tomar a decisão "que tiver que tomar" com a concessão privada do serviço ferroviário após o acidente que custou as vidas, na semana passada, de 51 pessoas.

"Minha mão não vai tremer para tomar as decisões que tiver que tomar", afirmou a governante, que foi duramente criticada pela gestão do acidente e pela falta de controle estatal sobre as empresas concessionárias.

O tom do discurso de Cristina e seus contínuos apelos à unidade não conseguiram comover a oposição, que criticou a falta de um projeto e a omissão de grandes problemas do país, como a crise energética e a inflação.

Segundo o esquerdista Claudio Lozano, da Frente Ampla Progressista, a presidente tentou "fazer a Argentina parecer a Disneylândia", enquanto a conservadora Gabriela Michetti se perguntou se algum dos presentes "vive no país do qual falava a presidente". 

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