Ariel Schalit/AP
Ariel Schalit/AP

Oferta de potências prevê revisão de sanções se Irã abrir programa nuclear

Ocidentais dizem que estão dispostos a retirar restrições caso Teerã aceite dar livre acesso a inspetores, reduzir enriquecimento de urânio e enviar ao exterior combustível atômico

Jamil Chade, correspondente em Genebra,

14 de outubro de 2013 | 23h15

GENEBRA - As grandes potências estão dispostas a rever imediatamente parte das sanções ao Irã caso Teerã aceite fazer três concessões, demonstrando que a cooperação vai além das palavras. Diplomatas dos dois lados se reúnem na terça-feira, 15, na Suíça, no primeiro teste real após os sinais de aproximação emitidos no último mês pelo novo presidente iraniano Hassan Rohani.

Segundo fontes ocidentais ouvidas pelo Estado, o relaxamento de sanções será "proporcional" ao que o Irã ceder em seu programa nuclear. Se esse diálogo inicial der frutos, as potências aceitarão reavaliar o cerco que estrangula a economia de Teerã - a começar pelo levantamento da proibição à exportação de produtos petroquímicos e de metais.

Para isso, países ocidentais exigem que o governo iraniano assuma três compromissos. O primeiro é anular as restrições aos inspetores internacionais, permitindo acesso a lugares "sensíveis" do programa, segundo critérios da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), da ONU.

Em segundo lugar, o Irã deverá reduzir o atual ritmo de enriquecimento de urânio, incluindo na usina de Fordo - complexo de centrífugas construído sob uma montanha. Por último, iranianos teriam de aceitar enviar ao exterior seu combustível nuclear enriquecido a 20%, ideia que já foi criticada por alas do governo iraniano no fim de semana.

Após surgirem as primeiras notícias da possibilidade de acordo, Israel manifestou apreensão. "Será um erro histórico relaxar a pressão sobre o Irã agora, antes de as sanções alcançarem seu objetivo", defendeu o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, em discurso no Parlamento de Israel.

Diplomatas iranianos indicaram que apresentarão sua versão preliminar de um acordo, mas não revelaram o conteúdo. A delegação de Teerã deve exigir que as potências ocidentais reconheçam o direito de os iranianos enriquecerem urânio para fins pacíficos. Será a primeira vez que o Irã e o chamado P5+1 - composto por EUA, China, Rússia, Grã-Bretanha, França e Alemanha - negociam desde a eleição de Rohani, que trocou o discurso radical de seu antecessor, Mahmoud Ahmadinejad, por promessas de romper o isolamento iraniano.

Em razão das sanções, a economia do Irã sofre uma contração anual de 6%, com desemprego em alta, escassez de moeda forte e os níveis mais baixos de exportação de petróleo desde o fim dos anos 80. O governo alemão estima que as punições pelo programa nuclear custem ao país, anualmente, US$40 bilhões.

Americanos e europeus indicaram ao Estado que querem do Irã sinais de avanços "rápidos". Enquanto a negociação estiver em curso, no entanto, as sanções internacionais serão mantidas.

"Não faremos julgamentos com base em palavras, ainda que tenhamos apreciado a mudança no tom", disse uma negociadora americana. "O tom conciliador terá de ser equiparado por ações. Queremos passos concretos para lidar com nossas preocupações. No fundo, queremos medidas para construir confiança."

CAMINHO DIFÍCIL

De acordo com diplomatas alemães, por enquanto, não está em discussão o fim das restrições às exportações de petróleo, a principal fonte de renda do Irã. O primeiro abrandamento das sanções envolveria, exclusivamente, produtos petroquímicos e alguns metais.

Nesta terça-feira, o Irã terá a primeira palavra. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohamed Javad Zarif, sublinhou, ao chegar à Suíça, que espera um acordo em breve, mas alertou que não será um processo simples.

"É o início de um difícil e relativamente demorado caminho a se seguir. Tenho esperança de que possamos chegar a um acordo sobre um roteiro (para a negociação)", disse Zarif. "No entanto, mesmo com a boa vontade do outro lado, alcançar um acordo sobre os detalhes e iniciar a aplicação provavelmente exigirá outra reunião no nível ministerial", completou o chanceler iraniano.

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