Oficialização não desfaz dúvidas sobre futuro venezuelano

Cenário: Diego Oré / Reuters

O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2012 | 03h02

Embora tenha apresentado formalmente sua candidatura ontem, a falta de informação sobre o estado de saúde do presidente venezuelano, Hugo Chávez, não eliminará as dúvidas a respeito do futuro do país nem as especulações sobre o destino do homem que acentuou enormemente a polarização na nação caribenha.

A história política de Chávez está repleta de retornos com grande pompa e reinvenções.

Em abril de 2002, após dias de grandes protestos, sofreu um golpe de Estado. Dois dias mais tarde, estava novamente no poder, preparado para iniciar um processo muito mais radical de mudanças políticas.

Em 2007, sofreu uma derrota num referendo constitucional com o qual buscava uma série de emendas da Carta, como a eliminação dos limites para a reeleição presidencial. Muitos acreditaram que seria o começo do fim do seu ciclo, mas pouco depois lançou novo referendo para poder ser reeleito sem restrição e saiu vitorioso.

Agora enfrentará o que promete ser uma acirrada eleição contra o jovem adversário, Henrique Capriles, que representa uma coalizão da oposição e mostra-se um político enérgico dedicado a visitas aos eleitores, casa por casa. Chávez conta com a máquina de propaganda oficial, uma poderosa arma política.

Velocidade de cruzeiro. Antes que os médicos diagnosticassem o seu câncer, Chávez não parava um instante sequer. Exigiu o máximo de sua saúde, dormindo duas ou três horas diárias, viajando sem parar em seu moderno Airbus A-319 e tomando até 40 xícaras de café por dia para poder exercer sua influência pelo mundo, da Bolívia à Síria.

"Estou aqui assumindo tudo isto e confessando-o ao país, infelizmente não continuarei trabalhando como um cavalo como costumava fazer, prefiro a força do búfalo à do cavalo", disse no mês passado. "Agora estou trabalhando conforme manda a lei oito horas por dia, descansando, seguindo uma dieta", comentou em um dos seus constantes contatos por telefone com a TV estatal.

Nos últimos meses, a figura do presidente refletiu passo a passo o tratamento médico ao qual teve de se submeter. A enfermidade deixou sucessivamente sua marca no rosto do mandatário sempre exposto à mídia: magro e enfraquecido no período pós-operatório, inchado e de cabeça raspada durante a primeira série de sessões de quimioterapia; macilento e esgotado depois da terceira em menos de um ano, "Dá-me sua coroa, Jesus, dá-me tua cruz, teus espinhos para eu sangrar, não me tires a vida ainda", pediu em lágrimas Chávez em abril durante uma missa para a sua recuperação, na sua cidade natal, Barinas.

A saúde de Chávez é o assunto principal, mas o governo também enfrenta outros problemas: a inflação galopante, a crise dos serviços públicos, índices de criminalidade brutais e problemas financeiros no centro do modelo econômico, a estatal petrolífera PDVSA.

Chávez regou a região com petróleo barato depois da assinatura de acordos bilaterais de fornecimento do produto e derivados em troca de outros bens para criar laços políticos em posição de vantagem com muitos países. Mas estes acordos afetaram profundamente as finanças da estatal e criaram dúvidas quanto à sustentabilidade da empresa, graças à qual são financiados os programas sociais que sustentam a popularidade do presidente. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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