Ofícios como engraxate e amolador ainda existem em Lisboa

Ofícios como engraxate e amolador ainda existem em Lisboa

Antigamente havia locais dedicados a engraxar sapatos e onde trabalhavam de quatro a cinco pessoas

O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2016 | 11h28

LISBOA - Lisboa é provavelmente a última das principais cidades europeias onde ainda é possível encontrar pelas ruas profissionais de ofícios prestes a desaparecer, como amoladores, engraxates ou vendedores de castanhas assadas.

Houve um tempo no qual um engraxate podia contar com uma fila de espera de 20 clientes na praça do Rossio e conseguir um salário acima da média nacional, algo impensável atualmente. Em uma manhã ensolarada dos tempos atuais, pode-se contabilizar entre 15 e 20 engraxates fazendo brilhar os sapatos de seus clientes no centro da cidade, uma presença chamativa para os visitantes estrangeiros que os contemplam com assombro e curiosidade.

Américo Santos ainda não tinha oito anos quando começou a trabalhar como engraxate e, embora em algumas épocas tenha chegado a ter outros empregos, "raro era o fim de semana no qual não vinha com minha gaveta à rua para lustrar sapatos, e já se vão 53 anos", comentou com um sorriso.

Cada engraxate tem seu posto fixo na rua pelo qual paga uma licença anual à prefeitura de Lisboa e uma clientela habitual, normalmente mantida há anos. O preço pela limpeza de um par de sapatos oscila entre 2 e 3 euros (entre R$ 7 e R$ 10), apesar de não ser raro os casos em que clientes deixam gorjetas, dobrando essa quantia.

Um dos engraxates mais carismáticos da região do Rossio é Carlos Manuel Fernandes, conhecido como "Fininho" por seu aspecto alto e magro e com posto fixo na Rua do Desamparo. Ele exerce a atividade há 40 anos e quando escuta a palavra "engraxate" corrige com seriedade: "Não sou engraxate, me dedico à limpeza do calçado". Ao redor dele se forma um pequeno núcleo de leitores de jornal aposentados, vendedores de loteria e plastificadores de documentos, o que dá à rua um ar familiar e pitoresco.

Manuel Duarte é outro dos veteranos da praça do Rossio. Com 70 anos, ele viveu muitos tempo em Madri, onde trabalhava com tapeçaria durante a semana e como engraxate nos fins de semana no Palácio de Imprensa da capital.

Nos tempos áureos, havia inclusive locais dedicados a esse tipo de ofício onde trabalhavam de quatro a cinco engraxates, mas as coisas mudaram e a Andorinhas, situada na rua Santa Justa, foi a última das engraxatarias a fechar na capital lusa.

Também no centro, do final de outubro até março, é frequente encontrar nuvens de fumaça pairando sobre as ruas de Lisboa, um sinal de que os pequenos reboques a carvão dos vendedores de castanhas assadas não estão longe. O ofício de castanheiro, como são chamados estes vendedores ambulantes, é outro dos antigos trabalhos que ainda estão presentes nas ruas da capital lusa. Como acontece com os engraxates, os vendedores de castanhas também têm seu posto fixo na rua.

Mas a paisagem dessas ocupações tradicionais em vias de extinção não estaria completa sem a figura dos amoladores, que percorrem as ruas da cidade com um assobio para avisar de sua presença e uma bicicleta que levam pelas mãos. Na barra da bicicleta têm instalada uma roda rudimentar para amolar facas e tesouras, a qual fazem girar com uma manivela manual, enquanto na parte traseira levam uma caixa de ferramentas com as quais consertam guarda-chuvas e outro tipo de instrumentos de ferro e metal.

Pedro Maldonado é um desses amoladores. Há 54 anos em um ofício no qual começou com 15 e foi herança de seu pai, ele é da região portuguesa do Alentejo e cobra pelo serviço entre 2 e 5 euros. "Embora já não seja como antes, ainda dá para ir sobrevivendo a cada mês, às vezes ganho 10 euros ao dia, às vezes 15, mas algo sempre vem", comentou. / EFE

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