Ohio vira campo de batalha crucial na campanha eleitoral americana

Composição demográfica e economia são um microcosmo do Meio-Oeste americano e influenciam outros Estados do país

Denise Chrispim Marin / ENVIADA ESPECIAL / CINCINNATI, EUA,

03 de novembro de 2012 | 20h40

CINCINNATI, EUA - "Para onde vai Ohio, vai o país". A frase mostra a importância do Estado na eleição presidencial. Por isso, ele tornou-se o principal campo de batalha entre Barack Obama e Mitt Romney. O esforço das duas campanhas não se resumiu à tentativa de atrair os 5% de indecisos, como Henry Watts, pastor batista e chefe de cozinha aposentado da empobrecida Moraine, ou o instalador de ar-condicionado Mike Johnstone, de Cincinnati.

 

Sentado ao balcão de um bar na periferia de Cincinnati, Johnstone se diz contrário a Romney. "Ele me assusta de tão favorável que é aos mais ricos", afirmou o técnico de 45 anos. No entanto, também não queria votar em Obama. "Não confio em um muçulmano para conduzir o meu país", disse ele ao Estado, ao reproduzir a velha história disseminada por muitos conservadores nos EUA.

 

A importância de Ohio vem do fato de ser um Estado ainda indefinido e de responder por 18 delegados no Colégio Eleitoral, a instância que definirá o vencedor da disputa. Nas últimas 11 eleições em Ohio, os republicanos venceram sete. Os democratas, quatro - entre elas, a presidencial de 2008. As últimas quatro disputas foram tão competitivas quanto a atual, afirmou Richard Hartnett, professor de ciências políticas da Universidade de Cincinnati.

"Nunca um candidato republicano venceu a eleição sem ter conquistado Ohio. Será histórico se ocorrer com Romney", afirmou. "A campanha democrata percebeu isso e fez do Estado seu maior campo de batalha. Não à toa, o presidente Obama esteve aqui 17 vezes no ano."

Hartnett não acredita na possibilidade de Romney quebrar uma tradição e tornar-se o primeiro presidente republicano a ter perdido a eleição em Ohio. Pelo seus cálculos, ele teria de vencer em Cincinnati por uma vantagem de 5 pontos porcentuais para compensar a vitória de Obama em Cleveland.

As pesquisas estaduais mostram que a disputa está apertada, com leve vantagem para Obama. O site Real Clear Politics, que publica uma média das sondagens, mostra o democrata com 49% das intenções de voto. Seu rival republicano tem 46,5%. De acordo com as projeções de Nate Silver, do blog Five Thirty Eight, Obama obteria 50,5% dos votos. Romney, 48%. A enquete da CNN, divulgada esta semana, aponta uma vantagem de 3 pontos porcentuais para o presidente (49% a 46%).

 

Conservadorismo

 

Ohio é um microcosmo do Meio-Oeste americano, capaz de influenciar outros Estados da região, principalmente Wisconsin, Michigan e Minnesota. Os brancos são 85% da população. Os negros, 12%. A economia é diversificada, com indústrias de automóveis e autopeças, reservas de gás natural, carvão e agricultura. A taxa de desemprego, de 7% em setembro, está um pouco abaixo da média nacional, de 7,8%.

O eleitorado do Estado é basicamente conservador. Nas regiões rurais e de exploração do carvão, são republicanos. Nos grandes centros urbanos, como Cleveland, Columbus e Toledo, são democratas influenciados pelos sindicatos e mais sensíveis ao fato de o governo ter socorrido grandes montadoras, como General Motors, Chrysler e Ford.

Em 2008, Obama venceu o republicano John McCain por pouco mais de 260 mil votos, cerca de 4,5 pontos porcentuais. A vantagem democrata foi construída justamente nos grandes centros, especialmente em Cleveland.

Desta vez, Hamilton County, onde está Cincinnati, é um dos principais campos de batalha. "Quando o Partido Republicano vence em Ohio é porque ganhou em Hamilton", afirmou Hartnett. Segundo ele, Obama pode vencer a eleição sem levar o condado, porque tem apoio em outras regiões. Romney, não.

Para Gene Beaupre, da Xavier University, o número de indecisos complica qualquer previsão. "Mesmo com toda ciência e estatística, ainda há um mistério sobre os indecisos em Ohio", explicou.

Entre os eleitores republicanos está o casal Bobby e Kerin Johnson, fascinados pelo Tea Party, facção ultraconservadora do partido. Ambos tocam uma loja de placas e cartazes em West Chester, pequena cidade de classe média alta. Ao contrário de muitos correligionários, eles ponderam as críticas aos programas sociais de Obama.

Kerin acha que há muita gente dependente de ajuda. Bobby, porém, lembra que um de seus filhos, autista, não tem acesso aos planos de saúde privados e é tratado adequadamente pelo sistema público. Apesar disso, ambos votarão em Romney. "Precisamos de alguém capaz de trabalhar com o orçamento de outra maneira", disse Kerin.

Na biblioteca de West Chester, Ted Bailly, de 51 anos, gerente de uma loja de departamentos, diz que era registrado como eleitor independente. Assim como em 2008, votará em Obama por considerá-lo mais afinado com a classe média e por dar valor à reforma do sistema de saúde proposta pelo presidente.

"Vivo há 15 anos aqui e a maioria de meus vizinho é republicana. Percebi que, muitas vezes, as pessoas não sabem explicar porque votarão em Romney", contou.

Ruby Walkerson, pastora evangélica, acha que Obama tem "compaixão pelo sofrimento" da classe média e dos pobres e não o culpa pela crise. Ela diz que rezar por ele todos os dias e bate de porta em porta pedindo voto para o democrata. "Obama tem bom coração", disse.

 

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