Oito mitos sobre o controle das armas

Debate nos EUA está contaminado por posições totalmente equivocadas, de ambos os lados; americanos precisam ter uma discussão mais séria

É COLUNISTA DA REVISTA ATLANTIC, JEFFREY, GOLDBERG, BLOOMBERG NEWS, É COLUNISTA DA REVISTA ATLANTIC, JEFFREY, GOLDBERG, BLOOMBERG NEWS, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2013 | 02h02

Há inúmeros mitos e equívocos a respeito do controle de armas nos EUA, de todos os lados do debate - e o tempo é muito escasso! São eles:

Mito 1. "O radicalismo da Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês) e de seu diretor executivo, Wayne LaPierre, prejudica sua causa".

A atuação aparentemente insensata de LaPierre, primeiramente na sua recente entrevista coletiva sem perguntas e depois no programa Meet the Press, da NBC, convenceram os defensores do controle de armas e os jornalistas de que ele perdeu o juízo. Não perdeu. Suas aparições foram calculadas de forma a agradar aos radicais da Segunda Emenda da Constituição, que constituem a base da organização que ele representa, e para ajudar a vender as armas fabricadas por companhias que dependem da NRA para que o seu mercado continue tão isento de regulamentações quanto possível. A tática da NRA consiste em incitar a paranoia entre os proprietários de armas que estão convencidos de que o presidente Obama confiscará as armas das quais são os legais proprietários.

Mito 2. "O presidente Barack Obama confiscará as armas que os cidadãos americanos compraram legalmente".

Obama não fará nada disso. Ele está tão longe de tomar uma decisão dessas que é cômico acreditar o contrário. Não há um mecanismo constitucional que lhe permita fazer isso. E o presidente não tem motivo algum para fazê-lo, porque todos sabem que ele defende os direitos dos desportistas, dos caçadores e - o que é fundamental - das pessoas que acreditam que precisam ter armas para a sua defesa pessoal. Como o vice-presidente Joe Biden afirmou durante a campanha de 2008: "Barack Obama não vai tirar minhas pistolas, portanto não acreditem nestas bobagens".

Mito 3. "Não foi proposta nenhuma medida de controle de armas capaz de tornar os Estados Unidos mais seguros."

É verdade, no país há cerca de 300 milhões de armas, e diariamente muitas outras entram em circulação. Mas algumas novas normas seriam muito úteis. A eliminação da chamada brecha das exposições de armas - que permitem que muitas armas sejam vendidas sem que as autoridades federais possam verificar os antecedentes da pessoa - dificultaria, pelo menos em parte, sua aquisição por compradores não habilitados, como criminosos e doentes mentais. Desde 1994, foram bloqueadas cerca de 1,9 milhão de compras graças à verificação dos antecedentes. Um criminoso semi-inteligente, ou uma pessoa desequilibrada, embora até certo ponto autônoma, ainda assim conseguiria uma arma. Mas seria muito útil criar mais obstáculos para impedir que ela pudesse desfrutar dessa facilidade.

Mito 4. "Recorrer novamente à proibição das armas de assalto é a medida óbvia para tornar os EUA mais seguros."

"Armas de assalto" são assim definidas pois se assemelharem a fuzis de uso militar. Na minha definição, todos os dispositivos que podem disparar um projétil de metal a velocidade muito elevada num corpo humano são de assalto. Até que ponto são mortais, depende tanto da perícia e do treinamento do atirador quanto do equipamento utilizado. Repito, será útil proibir os carregadores de grande capacidade e outros implementos excepcionalmente mortíferos. Mas não devemos nos iludir acreditando que isso evitará outras matanças.

Mito 5. "Somente os radicais favoráveis ao porte de armas querem que sejam colocados policiais nas escolas."

Muito antes de LaPierre justificar a necessidade de segurança armada para proteger os estudantes, o presidente Bill Clinton defendeu um programa semelhante que predispunha policiais nas escolas de todo o país depois do massacre no Colégio Columbine, em 1999. Na época, Clinton disse: "De acordo com esse programa, 2.200 policiais serão destacados em mais de mil comunidades, onde contribuirão para garantir a segurança nas escolas e exercerão a função de treinadores de esportes, e também de orientadores e mediadores para as crianças que precisarem".

Mito 6. "Columbine provou que a polícia nas escolas não impede o massacre."

É verdade que o vice-delegado encarregado da segurança em Columbine atirou contra os dois assassinos, mas não conseguiu fazê-los parar. Também é absurdo querer tirar importantes lições de um único incidente.

Em 2007, na Igreja da Nova Vida no Colorado, uma voluntária encarregada da segurança, Jeanne Assam, feriu um atirador que matara duas pessoas fora da igreja e outras duas, na noite anterior. Provavelmente, a agente salvou muitas vidas naquele dia. Isso acaso significa que todas as igrejas deveriam ter seguranças armados espalhados entre os fiéis? Novamente, é difícil avaliar a partir de um único incidente.

Contudo, cidadãos treinados munidos da devida autorização para carregar armas representam de fato uma solução contra a violência das armas.

Mito 7. "A concessão de mais licenças de porte de armas torna a sociedade mais perigosa."

Há mais de 8 milhões de cidadãos americanos autorizadas a portar armas, e o número cresce ano após anos. Essas pessoas estão registradas na polícia. Elas cometem muito menos crimes do que a população em geral. E, segundo algumas estimativas, cometem até mesmo menos crimes do que a polícia.

Mito 8. "Um número sem precedentes de americanos apoia o direito de ter uma pistola, apesar da recente chacina na escola de Newton."

O texto foi extraído de um artigo publicado pelo Washington Post, que citava uma pesquisa da Gallup. A pesquisa mostrou que muitos americanos são favoráveis a alguma medida de controle de armas, e que 74% se opõem à proibição total. O problema no artigo do Washington Post é a palavra "apesar". Muitos americanos querem uma arma, ou querem reservar o direito de tê-la, e não "apesar" do massacre de Newton - mas "em razão dele" e de outras atrocidades.

Alguns artigos indicam que o assassino de Newton era um jogador fanático de videogames e gostava de jogos particularmente violentos como Call of Duty. Nenhum estudo comprovou uma relação concreta entre esses jogos e a violência de fato. Isso não significa que os jogos não sejam perversos e repulsivos: eu não permito que os meus filhos joguem.

Mas não se pode sair atirando numa escola ou num cinema como num videogame. Entretanto, culpar unicamente os fabricantes de videogames por esses crimes complexos e incompreensíveis equivale a eximir-se da responsabilidade.

Que conclusão devemos tirar de todos estes equívocos? Simplesmente que sequer chegamos perto de uma conversa séria sobre como podemos nos proteger de um tiro mortal. Eu gostaria que se realizasse um debate em âmbito nacional sobre a justificativa moral da Segunda Emenda no século 21. Mas nem mesmo há uma discussão séria do debate. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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