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Lourival Sant'Anna
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Ojeriza à máscara

Para homens com o perfil de Trump, a proteção parece indicar que eles têm medo

Lourival Sant'Anna*, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2021 | 23h30

Nesse ano e meio de pandemia, as máscaras se tornaram objeto de ojeriza dos populistas. Como quase todos os aspectos da vida cotidiana nesse ambiente de polarização ideológica, esses objetos, em si tão anódinos, politizaram-se. Hoje, o que se esconde por trás das máscaras é revelador. Depois de nove meses negando a ameaça do coronavírus - e a necessidade das máscaras e do distanciamento físico -, o então presidente Donald Trump teve de ser hospitalizado no início de outubro, a um mês da eleição presidencial. Seu instinto marqueteiro lhe disse que esse revés exigia uma dramaturgia para neutralizar o dano.

Enquanto tentava convencer os médicos de que precisava de alta, Trump decidiu preencher o vazio que sua internação causara dando uma volta de carro nos arredores do Hospital Militar Walter Reed. Ele realizou a excursão, numa das raras vezes em que apareceu de máscara, dentro de um carro com os vidros fechados, juntamente com agentes da CIA responsáveis por sua segurança. Acenou para as câmeras e para os fãs nas calçadas ao redor e voltou para o hospital.

O então presidente expôs os agentes secretos, a poucos centímetros de seu rosto, ao auge de sua carga viral. Dois dias depois, Patti Davis, filha do ex-presidente Ronald Reagan, recordou, numa entrevista à CNN, o que seu pai lhe havia contado sobre o que sentira no instante do atentado a tiros contra ele, em 1981. “Ele disse que nunca esqueceria o momento em que olhou pelo retrovisor enquanto o carro se afastava rapidamente do local, e viu as pessoas em poças de sangue de balas que eram para ele”. Reagan sabia que os agentes eram treinados para saltar na frente das balas, para salvar a vida dele. Isso o angustiou.

O contraste entre a preocupação de Reagan e a displicência de Trump em relação à segurança dos funcionários escalados para protegê-los diz muito sobre o que separa esses dois ex-presidentes. Reagan é o ícone do liberalismo econômico mundial - ao lado da ex-primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher -, e do Partido Republicano.

No grande debate ideológico americano do século 20 e início do século 21, o Partido Republicano defende o individualismo, enquanto o Partido Democrata busca soluções coletivas. Trump está fora desse debate. Ele não abraça o individualismo, no sentido republicano, mas o egoísmo, que encarna tão perfeitamente.

No dia seguinte ao passeio, Trump recebeu alta do hospital. Sob a luz do entardecer, que dava a máxima dramaticidade à cena transmitida ao vivo pelas TVs, voou no Marine One, o helicóptero presidencial, até a Casa Branca. Subiu, ofegante, a escadaria que dá para a sacada, retirou a máscara, descobrindo o rosto febril, e bateu continência para fuzileiros navais que o trouxeram, e acabara de expor à sua carga viral. Atrás dele, um fotógrafo da Casa Branca também ficou exposto.

Um mês antes, Trump perguntou em um comício a seus eleitores se eles conheciam “um homem que gosta tanto de máscara” quanto Joe Biden, seu adversário: “Ela lhe dá um sentimento de segurança. Se eu fosse psiquiatra, diria que esse cara tem problemas”.

Trump não é o único líder com intenções autoritárias a rejeitar máscaras. O russo Vladimir Putin, o belarusso Alexander Lukashenko e o húngaro Viktor Orbán estão entre os que repelem essa e outras medidas de precaução. 

Máscaras são incômodas. Não creio que alguém as use por prazer. Mas elas oferecem uma dupla proteção: para quem as usa e para quem está ao redor. Pessoas imunizadas podem transmitir o vírus. Para quem já contraiu a doença e tem a falsa sensação de imunidade ou está vacinado, parece contraintuitivo usar máscara, se não tiver a capacidade de fazer algo pelos outros.

No caso dos homens com esse perfil, a máscara parece ter a agravante de indicar que eles têm medo. Expor suas fragilidades aumenta sua insegurança. E há mulheres que gostam de homens assim.

* É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

 

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