AP Photo/Michael Sohn
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Olaf Scholz: quem é o líder social-democrata e provável próximo chanceler da Alemanha

Vice-chanceler e ministro das Finanças no governo Merkel, Scholz era considerado o mais experiente entre os principais candidatos; carreira política longa também acumula polêmicas nos âmbitos estadual e federal

Loveday Morris, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2021 | 15h00

BERLIM - Olaf Scholz conseguiu o que muitos na Alemanha consideraram impossível: trazer os social-democratas de volta à vida.

O partido político mais antigo do país, o Partido Social-Democrata de centro-esquerda, conhecido por sua sigla alemã SPD, definhou nas pesquisas por anos. Mas, nas eleições de domingo, o SPD tomou a dianteira, conquistando 26% dos votos, de acordo com as primeiras apurações. A coalizão dos democratas-cristãos, de centro-direita, obteve 24% dos votos, a menor marca do partido desde sua fundação em 1945.

Os totais apertados são apenas o começo de um caminho longo e pouco claro para a formação do novo governo. Até o momento, tanto Scholz quanto o líder democrata-cristão Armin Laschet disseram pretender apresentar uma coalizão formada até o Natal.

Os social-democratas foram os parceiros de coalizão minoritários dos democratas-cristãos conservadores da chanceler Angela Merkel no governo que se encerra, na terceira vez que se juntou a seu rival tradicional. É uma posição que o SPD assumiu com relutância - mas que permitiu a Scholz se projetar nacionalmente.

Como ministro das finanças e vice-chanceler do gabinete de Merkel durante a pandemia, Scholz, de 63 anos, construiu uma reputação de ter mãos firmes durante uma crise. Ele supervisionou a distribuição de bilhões de euros em auxílio ao coronavírus e ajuda de emergência às vítimas das enchentes mortais de verão no oeste da Alemanha.

Ele foi apelidado de "Scholzomat" - algo similar a "Scholz-tapete" - por seu estilo seco, quase chato, de fazer política. Mas isso pode ter sido útil para ele com os eleitores ainda ligados a Merkel, que não era especialmente conhecida por seus discursos apaixonados. Apesar de ser de um partido diferente, ele se posicionou como o sucessor natural após os 16 anos de Merkel no poder.

"Obviamente Merkel deixou um grande impacto na cultura política da Alemanha por meio de seu estilo de governo", disse o consultor de comunicação política Frank Stauss, que já trabalhou com o SPD no passado. Scholz não é um "clone de Merkel" - mas tem um estilo político semelhante e proximidade para atrair eleitores que podem estar procurando por mais do mesmo, acrescentou ao The Washington Post.

Um social-democrata de longa data, Scholz nasceu em Osnabrück, no Estado da Baixa Saxônia, no oeste da Alemanha, e foi criado na rica cidade-estado de Hamburgo, na costa norte da Alemanha, onde também atuou como prefeito. Alternando entre política estadual e nacional, ele serviu no parlamento, ou Bundestag, e como ministro do Trabalho e Assuntos Sociais no primeiro gabinete de Merkel.

Sua carreira política foi abalada por vários escândalos. Quando era prefeito de Hamburgo, Scholz enfrentou críticas pela repressão a protestos durante a realização da cúpula do Grupo dos 20 (G-20), em 2017, quando houve violência generalizada entre manifestantes e policiais. 

No início deste ano, uma investigação parlamentar feita por legisladores da oposição o acusou de falta de supervisão no esquema de fraude envolvendo a fintech Wirecard, considerado um dos maiores escândalos no país no pós-guerra. Ele rejeitou as acusações sobre ter qualquer responsabilidade política.

Scholz também foi questionado em outra investigação, para saber se agiu para influenciar as autoridades fiscais em nome de um banco de Hamburgo, em um escândalo de fraude que privou o Estado alemão de bilhões de euros em receitas. Ele também negou qualquer irregularidade e, em última análise, nenhuma evidência concreta foi apresentada.

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Na Alemanha, cargo de chefe de governo não é escolhido em eleição direta, mas por meio de uma votação na Bundestag, a Câmara baixa do Parlamento, depois que um partido ou coalizão conseguir as cadeiras necessárias para formar um governo.

Na última reviravolta, o líder social-democrata foi forçado a retornar a Berlim depois de um compromisso de campanha na segunda-feira para responder a perguntas no comitê parlamentar de finanças. O inquérito foi iniciado depois que um promotor público ordenou buscas no Ministério da Fazenda, que investiga alegações de obstrução da justiça em sua unidade de combate à lavagem de dinheiro. 

Legisladores do SPD apontaram que, pelo momento, o movimento parecia ter motivação política, já que o partido de Scholz assumiu a liderança nas pesquisas.

Mas ele saiu relativamente ileso. "Não teve um grande impacto", disse Peter Matuschek, analista da agência de pesquisas Forsa.

O que realmente levantou a bandeira do SPD foram os tropeços de campanha de seus rivais.

À direita de seu partido, Scholz pode ter conseguido conquistar eleitores que votaram nos democratas-cristãos - sigla mais conservadora - nos últimos pleitos por causa de Merkel. As questões de campanha do SPD incluem aumento do salário mínimo e impostos sobre os mais ricos.

Ao contrário dos verdes, que querem eliminar o carvão até 2030, o SPD quer manter a data-alvo existente de 2038 - o que pode ter contribuído para manter próximos os mineiros e operários alemães, base tradicional de apoio do partido.

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