REUTERS/Fabrizio Bensch
Olaf Scholz apresenta acordo de coligação do novo governo alemão ao lado de Christian Lindner (esquerda) e Robert Habeck (direita). REUTERS/Fabrizio Bensch

Olaf Scholz toma posse como novo chanceler da Alemanha e põe fim à era Merkel

Entre as prioridade do governo do social-democrata estão o combate à pandemia e às mudanças climáticas

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2021 | 20h00

BERLIM - Quando o Parlamento alemão confirmar o líder social-democrata Olaf Scholz como novo chanceler da Alemanha nesta quarta-feira, 8, terá fim um dos capítulos mais importantes da história contemporânea do país: os 16 anos de Angela Merkel como dirigente da maior economia da zona do euro. Merkel, que não tentou reeleição no pleito realizado em setembro e viu seu partido ser derrotado pelos social-democratas, passará o bastão para Scholz, seu atual vice-chanceler e ministro das finanças, assim que o processo legislativo for concluído.

O caminho para a eleição de Scholz no Bundestag nesta quarta começou há meses, logo após a apresentação dos resultados das eleições de setembro. Apesar de liderar a legenda mais votada no pleito, o Partido Social Democrata (SPD), Scholz precisou de paciência e habilidade política para costurar um acordo de coalizão inédita com outros dois partidos: o Partido Liberal Democrático (FDP), de centro-direita, e os Verdes, ambientalista de centro-esquerda.

Lideranças das três legendas anunciaram que os termos para o acordo de coalizão haviam sido alcançados no fim do mês passado, porém cada uma das siglas precisou aprovar as resoluções internamente, antes da formalização da coligação. O documento final, de 177 páginas, foi firmado e apresentado ao público na terça-feira, 7, no museu Futurium, em Berlim.

O plano do novo governo, batizado de "Dare More Progress" ("Ouse mais progresso", em tradução livre), aponta como prioridade a contenção da pandemia da covid-19, que vem batendo recordes de contaminação dia após dia no país europeu. No entanto, além da questão emergencial, é possível identificar como aspectos centrais do plano de governo a preocupação com as mudanças climáticas, a modernização da economia e a introdução de políticas sociais mais liberais - pontos que revelam o papel ativo de verdes e liberais na definição das "linhas mestras" do acordo.

"Nós dissemos que queríamos nos aventurar por mais progresso, e desta semana em diante nós queremos trabalhar pelo progresso", disse Christian Lindner, líder do Partido Democrático Liberal e futuro ministro das finanças. Enquanto isso, Robert Habeck, líder dos ambientalistas e novo ministro da Economia e do Clima, afirmou que "a grande tarefa da nossa geração" será resolver a tensão entre questões ecológicas e necessidades econômicas. "Isso domina todo o acordo de coalizão e será, além de todas as outras crises, a tarefa central deste governo", disse em entrevista coletiva na segunda-feira, 6.

A união entre os três partidos - que tinham diferenças marcantes antes da eleição - foi alcançada com relativa rapidez na visão de analistas - e, pelo menos em público, ocorreu com uma harmonia inesperada. Os termos do acordo foram aprovados por SPD e FDP em encontros dos partidos durante o último fim de semana, sendo aprovados por 90% dos representantes. Os Verdes submeteram o texto a uma eleição aberta, que teve a participação de cerca de 71 mil membros do partido, e ainda assim alcançaram 86% de aprovação.

"Se a boa cooperação que funcionou enquanto estávamos formando o governo continuar a funcionar, será um momento muito, muito bom para as tarefas que temos pela frente", disse Scholz na terça.

Após a apresentação do plano, o líder social-democrata comentou sobre alguns temas da agenda internacional. Scholz antecipou que o novo governo vai priorizar a aproximação e o trabalho com democracias ao redor do mundo e que pretende estreitar e fortalecer os laços com parceiros da União Europeia - confirmando que sua primeira viagem internacional deve ter como destino Paris.

O próximo chanceler alemão também criticou a movimentação militar russa na fronteira com a Ucrânia. "Precisa ficar muito, muito claro que seria uma situação inaceitável se houvesse uma ameaça à Ucrânia", disse, ressaltando que a fronteira do país europeu não pode ser violada.

Novo começo

Com a maioria garantida no Parlamento, a transferência de poder acontecerá de maneira imediata após a votação, e a centro-esquerda retornará ao poder pela primeira vez desde o governo de Gerhard Schröder (chanceler de 1998 a 2005). Em contrapartida, Merkel - primeira mulher a governar o país - deixará o cargo após 5.860 dias, apenas nove a menos do que seu mentor, Helmut Kohl.

A trajetória de Merkel é marcada por momentos de brilho, como a recepção dos migrantes em 2015 e sua aptidão para administrar crises, mas também pela falta de ambição na luta contra a mudança climática e na modernização da Alemanha. No balanço, pesam a favor dela quatro reeleições por meio de um processo democrático estabelecido.

"Angela Merkel foi uma chanceler que teve êxito", elogiou Scholz, ao homenagear uma governante que "permaneceu fiel a ela mesma durante 16 anos marcados por várias mudanças". Apesar da homenagem, o novo chanceler não nega que pretende trilhar seu próprio caminho.

"Quero que estes anos signifiquem um novo ponto de partida", declarou Scholz à revista alemã Die Zeit. Algumas mudanças devem ser visíveis já na nomeação do novo gabinete de governo. O social-democrata prometeu que os ministérios serão divididos igualmente entre homens e mulheres.

"Estou particularmente orgulhoso de que as mulheres agora estarão a partir de agora à frente de ministérios que tradicionalmente não eram ocupados por elas", declarou na segunda-feira. Além de Annalena Baerbock, líder Verde e uma das principais candidatas da última eleição, que vai ocupar a pasta das Relações Exteriores, mulheres comandarão os ministérios do Interior, Defesa, Desenvolvimento, Construção, Meio Ambiente, Família e Educação. A saúde, pasta mais problemática em razão da pandemia, ficará nas mãos do social-democrata Karl Lauterbach, um dos cientistas mais respeitados do país e partidário de restrições mais duras./ AFP, AP, REUTERS e W.POST

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O que você precisa saber sobre Olaf Scholz, o próximo chanceler alemão

Após meses de negociação, social-democrata conduzirá o país à era pós-Merkel

Por William Glucroft e Loveday Morris, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2021 | 17h31

BERLIM - Após meses de negociações, Olaf Scholz, dos sociais-democratas (centro-esquerda), conduzirá a Alemanha à era pós-Merkel.

O partido de Scholz lidera uma coalizão junto com duas outras legendas triunfantes nas eleições de setembro: os Verdes e os Democratas Livres. Os democratas-cristão de Merkel ficaram de fora do poder.

Aqui está o que você precisa saber sobre Scholz, de 63 anos, e a nova liderança da Alemanha:

Scholz trabalhou com Merkel

O partido de Scholz foi o parceiro júnior da CDU no último governo Merkel, a terceira vez que os social-democratas se juntaram a seu tradicional rival em uma coalizão. É uma posição que o SPD assumiu com relutância -- mas que permitiu a Scholz aumentar seu capital político.

Como ministro das finanças e vice-chanceler do gabinete de Merkel durante a pandemia, Scholz construiu a reputação de ter mãos firmes durante uma crise. Ele supervisionou a distribuição de bilhões de euros em pacotes de ajuda relacionados à pandemia e às enchentes mortais de verão no oeste da Alemanha.

Ele tem sido chamado de “Scholzomat” por seu estilo político “robótico” e quase chato. Mas isso pode ter funcionado bem com eleitores ainda ligados a Merkel, que não era conhecida por discursos apaixonados. Apesar de ser de outro partido, ele se posicionou durante a campanha eleitoral como seu sucessor natural.

“Obviamente, Merkel deixou um grande impacto na cultura política da Alemanha por meio de seu estilo de governo”, disse Frank Stauss, consultor de comunicação política que já trabalhou com o SPD no passado. Mas Scholz não é um “clone de Merkel”, acrescentou.

Marcado por escândalos

Scholz, um social-democrata de longa data, nasceu em Osnabrück, no noroeste do Estado alemão da Baixa Saxônia, e foi criado na rica cidade-Estado de Hamburgo, na costa norte da Alemanha, onde também atuou como prefeito. Alternando entre política estadual e nacional, ele serviu no parlamento, ou Bundestag, e como ministro do Trabalho e Assuntos Sociais no primeiro gabinete de Merkel.

Sua carreira política foi fustigada por escândalos. Enquanto prefeito de Hamburgo, ele enfrentou críticas por sua forma de lidar com a cúpula do G-20 em 2017, quando o evento se tornou palco de violência generalizada entre os manifestantes e a polícia.

Uma investigação parlamentar feita por legisladores da oposição no início deste ano o acusou de falta de supervisão no caso que ficou conhecido como Wirecard -- o maior escândalo de fraude pós-guerra na Alemanha. Ele rejeitou as acusações.

Scholz também foi questionado em meio ao escândalo de fraude “cum-ex”. Ele foi acusado de agir para influenciar autoridades fiscais em nome de um banco de Hamburgo. Ele negou qualquer delito e nenhuma evidência concreta surgiu contra ele.

E em setembro, Scholz foi forçado a retornar a Berlim depois de sua campanha eleitoral para responder a perguntas no comitê parlamentar de finanças. O inquérito foi iniciado depois que o promotor público ordenou buscas no Ministério das Finanças como parte de uma investigação sobre alegações de obstrução da justiça em sua unidade de combate à lavagem de dinheiro, mas ele saiu relativamente ileso.

Questões à frente

O novo governo enfrenta desafios imediatos, com a Europa lutando contra as consequências do Brexit, uma crise na fronteira da União Europeia com Belarus e o ressurgimento de casos de covid-19 -- Scholz afirmou que o enfrentamento à pandemia seria sua prioridade. 

Mas sua coalizão também tem planos ambiciosos de médio e longo prazo, incluindo uma expansão mais rápida das energias renováveis, uma saída acelerada do carvão poluente e um aumento do salário mínimo, de acordo com seu pacto.

Ressaltando sua tendência socialmente liberal, a coalizão também concordou em permitir a cidadania múltipla, aumentar a imigração regular, reduzir a idade de voto para 16 anos e tornar a Alemanha o primeiro país europeu a legalizar a venda de cannabis para uso recreativo.

A co-líder dos Verdes, Annalena Baerbock, de 40 anos, deve se tornar a primeira mulher ministra das Relações Exteriores da Alemanha e Scholz disse que quer um governo com igualdade de gênero.

Enquanto a campanha eleitoral da Alemanha foi amplamente focada em questões internas, os partidos sinalizaram no pacto de coalizão uma abertura para reformar as regras fiscais da União Europeia. Eles também concordaram que a Alemanha permaneceria parte do acordo de partilha nuclear da Otan, uma medida que evitará um rompimento na aliança militar ocidental em um momento de tensões crescentes com a Rússia. 

A nova coalizão terá que equilibrar os apelos dos Verdes por uma linha mais dura com a Rússia e a China em relação aos direitos humanos com a provável preferência de Scholz de evitar confrontos sobre Taiwan e Ucrânia. /WP e REUTERS

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Como serão as 'férias' de Angela Merkel depois de 16 anos governando a Alemanha

Aos 67 anos, chanceler ainda é jovem o suficiente para assumir outros desafios, mas tem mantido a boca fechada a respeito de seus planos para a aposentadoria

Katrin Bennhold e Melissa Eddy, The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2021 | 05h00

Ela perderá o título por menos de duas semanas: Angela Merkel, ao que tudo indica, não será a chanceler que ocupou o cargo por mais tempo depois de Otto von Bismarck, o líder fundador da Alemanha.

Quando Helmut Kohl finalmente entregou as chaves da chancelaria alemã, em 1998, ele havia passado 5.870 dias no cargo mais graduado de seu país; se Olaf Scholz tomar posse, conforme planejado, no início de dezembro, Merkel deixará a chancelaria a poucos dias de bater esse recorde, como a segunda chanceler a permanecer mais tempo no cargo no período pós-guerra.

Ainda assim, 16 anos são bastante tempo, e depois de passar quase um quarto de sua vida no cargo mais alto do país, muitos se perguntam o que Merkel vai fazer agora.

Sua partida era aguardada havia muito — ela anunciou que não concorreria à reeleição três anos atrás. Desde então, as fábricas de rumores têm funcionado a todo vapor. Alguns a previram aceitando convite para se tornar conferencista de alguma faculdade americana, enquanto outros tiveram esperança de que ela assumisse algum cargo-sênior na União Europeia ou alguma outra instituição internacional.

O que ficou claro desde o início: ela quis deixar o cargo segundo seus próprios termos, em seu próprio tempo. “Quero, em algum ponto, encontrar o momento certo de deixar a política”, disse ela em 1998 a Herlinde Koelbl, uma fotógrafa alemã. “Não quero virar sucata.”

Dois anos atrás, quando Merkel sofreu acessos de tremores incontroláveis, houve o temor de que ela não completasse o mandato. Ainda assim, mesmo sem conseguir superar a longevidade de Bismarck no cargo, Merkel compartilhou com ele a alcunha de “chanceler de ferro” e seguiu firme.

Aos 67 anos, Merkel ainda é jovem o suficiente para assumir outros desafios, mas tem mantido a boca fechada a respeito de seus planos para a aposentadoria. Quando pressionada, Merkel se esquivou com a ideia de que não tem tempo para pensar sobre isso, insistindo que apenas quando deixar a chancelaria será capaz de começar a colocar o foco em seu próximo passo.

“Acho que todo dia de governo tem de ser levado igualmente a sério e sempre considerado com o mesmo olhar atento”, afirmou ela. “Acredito em governar ao mesmo tempo que vivo minha vida pessoal e de maneira tão sensata quanto possível; e em fazer isso até o último dia em que me caiba essa responsabilidade.”

Com esse último dia se aproximando cada vez mais, Merkel começou a falar mais livremente a respeito de uma necessidade que tem de fazer uma pausa longa o suficiente para descansar e refletir a respeito do que realmente lhe interessa. Em uma entrevista que concedeu neste verão, depois de receber um doutorado honorário — seu 18.º — da Universidade Johns Hopkins, a chanceler permitiu o primeiro vislumbre real de como imagina seu futuro.

“Tentarei ler algo — e então meus olhos ficarão pesados, porque estou cansada, daí dormirei um pouquinho. Depois veremos”, afirmou ela.

Mas quando o Parlamento aprovou nove funcionários para trabalhar em tempo integral em seu escritório de ex-chanceler, muitos apontaram rapidamente que trata-se de uma equipe formidável para alguém que planeja ficar deitada no sofá lendo livros.

“Gostaria, nessa fase seguinte da vida, de pensar muito cuidadosamente no que quero fazer”, afirmou em setembro.

“Quero escrever? Quero dar palestras? Quero vaguear por aí? Quero ficar em casa? Quero viajar o mundo?”, afirmou Merkel. “Por esse motivo, decidi que primeiro não vou fazer nada — e verei o que acontece. Acho essa ideia realmente fascinante.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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Centro-esquerda da Alemanha chega a acordo para formar governo e substituir Merkel

Líder do Partido Social-Democrata (SPD), Olaf Scholz deve assumir a chancelaria no início de dezembro após acordo com Verdes e liberais

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2021 | 09h35
Atualizado 24 de novembro de 2021 | 13h57

Os três partidos que negociavam a formação de um novo governo na Alemanha — Social-Democrata (SPD), Verdes e Liberal Democrático (FDP) — anunciaram a que chegaram a um acordo nesta quarta-feira, 24, para a formalização da coalizão que vai dirigir a maior economia da União Europeia, no primeiro governo em 16 anos que não terá como figura central a chanceler Angela Merkel.

As siglas vinham discutindo a formação da coalizão desde as eleições parlamentares de setembro, marcadas pela derrocada da União Democrata Cristã (CDU) e da ascenção do SPD, liderado pelo vice-chanceler do gabinete de Merkel, Olaf Scholz, que deve assumir o governo no início de dezembro.

Na costura do acordo da nova coalizão, o partido de Scholz - sigla mais votada no pleito de setembro - ocupará a maioria dos principais ministérios do novo gabinete. O presidente do Partido Liberal Democrático (FDP), Christian Lindner, assumirá a pasta de Finanças, enquanto os líderes Verdes, Annalena Baerbock e Robert Habeck, serão responsáveis pelas Relações Exteriores e por um superministério que engloba economia e mudanças climáticas, respectivamente. O único remanescente do atual gabinete de Merkel no futuro governo é o ministro do Trabalho, Hubertus Heil, do SPD.

É a primeira vez que a Alemanha será governada por uma aliança tríplice, em uma coalizão que vem sendo chamada de "Aliança Semáforo", em referência as cores dos partidos. O feito, no entanto, não foi possível sem a superação de divergências internas de cada sigla envolvida na cooperação governista.

Mesmo com diferenças ideológicas marcantes, os partidos da nova coalizão definiram algumas pautas comuns para o próximo governo. Documentos consultados pela Reuters nesta quarta-feira mostram que as legendas pretendem aumentar o investimento público em tecnologia verde e digitalização, ao mesmo tempo em que projetam um retorno a uma política de austeridade fiscal para conter a dívida de 2023 em diante. Os partidos também concordaram em fortalecer a união econômica e monetária com a União Europeia, e sinalizaram uma abertura para reformar regras fiscais do bloco, também conhecido como Pacto de Estabilidade e Crescimento.

"O Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) mostrou sua flexibilidade. Com base nisso, queremos garantir o crescimento, manter a sustentabilidade da dívida e garantir investimentos sustentáveis ​​e amigáveis ​​ao clima", disse o documento consultado pela agência de notícias britânica. E completa: "O futuro desenvolvimento das regras de política fiscal deve basear-se nestes objetivos de forma a reforçar a sua eficácia face aos desafios da época. O PEC deve tornar-se mais simples e transparente, também de forma a reforçar a sua aplicação".

Dentro da pauta de costumes, a nova coalizão anunciou que planeja legalizar a venda de cannabis no país, em lojas autorizadas e com consumo reservado a adultos. "Isto permitirá controlar a qualidade, impedir a circulação de substâncias contaminadas e garantir a proteção dos jovens", diz o acordo firmado entre os partidos, que detalha ainda que o "impacto social da lei" será reavaliado dentro de quatro anos.

A expectativa é que o novo governo seja oficialmente empossado na semana de 6 de dezembro. Antes, contudo, o acordo de coalizão terá que ser aprovado em conferências partidárias de SPD e FDP, enquanto os Verdes vão abrir um processo de votação entre seus membros que deve durar 10 dias, e deve começar na quinta-feira, 25, segundo o jornal britânico The Guardian.

Quem é o novo chanceler da Alemanha, Olaf Scholz?

Scholz tem 63 anos e ocupou os cargos de ministro das finanças e vice-chanceler do gabinete de Angela Merkel. Durante a pandemia, construiu a reputação de ter mãos firmes durante a crise. Ele supervisionou a distribuição de bilhões de euros em auxílio ao coronavírus e a ajuda de emergência às vítimas das enchentes mortais que ocorreram no oeste da Alemanha no verão.

Social-democrata de longa data, Scholz nasceu em Osnabrück, no Estado da Baixa Saxônia, e foi criado na rica cidade-estado de Hamburgo, na costa norte do país, onde também atuou como prefeito. Alternando entre política estadual e nacional, ele serviu no parlamento, ou Bundestag, e como ministro do Trabalho e Assuntos Sociais no primeiro gabinete de Merkel.

Como mostrou o jornal The Washington Post, sua carreira política foi abalada por vários escândalos. Quando era prefeito de Hamburgo, Scholz enfrentou críticas pela repressão a protestos durante a realização da cúpula do Grupo dos 20 (G-20), em 2017, quando houve violência generalizada entre manifestantes e policiais. 

No início deste ano, uma investigação parlamentar feita por legisladores da oposição o acusou de falta de supervisão no esquema de fraude envolvendo a fintech Wirecard, considerado um dos maiores escândalos no país no pós-guerra. Ele rejeitou as acusações sobre ter qualquer responsabilidade política. Scholz também foi questionado em outra investigação, para saber se agiu para influenciar as autoridades fiscais em nome de um banco de Hamburgo, em um escândalo de fraude que privou o Estado alemão de bilhões de euros em receitas. Ele também negou qualquer irregularidade e, em última análise, nenhuma evidência concreta foi apresentada.

Quem são os partidos que compõem a nova coalizão de governo?

A nova coalizão de governo na Alemanha é formada por três partidos: o Partido Social-Democrata (SPD), o Partido Liberal Democrático (FDP) e os Verdes. Apesar do acordo costurado para formação do novo gabinete, as siglas pertencem a campos políticos diferentes e precisaram superar uma série de discordâncias individuais para definir uma pauta comum de governo.

As divergências iniciais passavam por pontos-chave de governo, da economia à diplomacia. O FDP é um forte defensor da ortodoxia orçamentária, sendo hostil à modificação da regra constitucional que impõe um freio ao endividamento, enquanto os Verdes e, em menor medida, o SPD, defendem individualmente uma maior flexibilidade. Os ambientalistas querem eliminar o freio para financiar os investimentos caros que uma transição verde exige.

O SPD fez do aumento do salário mínimo e das aposentadorias uma de suas promessas. Para reduzir as desigualdades, o partido defende também o aumento dos impostos para os mais ricos e quer reformar o imposto sobre a herança, que deixa de fora boa parte das transferências das empresas familiares, a espinha dorsal da economia alemã. O objetivo é compartilhado pelos Verdes, mas constitui um ponto frágil para o FDP, que defende cortes de impostos para as empresas e as famílias.

Quanto ao Clima, acelerar a transição energética está no centro da agenda dos Verdes. Os ambientalistas querem antecipar o prazo para a Alemanha deixar de usar usinas a carvão de 2038 para 2030. Mas muitos dos liberais do FDP são céticos em relação a essa medida. Eles pedem que a meta de se alcançar a neutralidade do carbono —  ou seja, a compensação de todas as emissões —  seja transferida para 2050, cinco anos depois do planejado, enquanto os Verdes querem adiantar esse prazo para 2040. 

O que significa a saída de Angela Merkel?

Após 16 anos, a terceira maior permanência de um chanceler à frente da Alemanha, a saída de Merkel representa o fim de uma era para o país e para a Europa. Por mais de uma década, Merkel não liderou apenas seu país, mas efetivamente o continente, ajudando a Europa a atravessar crises sucessivas e fazendo da Alemanha a principal potência do bloco.

Merkel guiou o país através de uma série de crises, da economia à pandemia. Suas habilidades como criadora de consenso foram bem vistas dentro e fora da Alemanha. Entretanto, ela também deixa uma longa lista de negligências com as quais Scholz terá de lidar. 

Durante seu governo, o setor público fracassou em investir adequadamente ou sabiamente, ficando atrás de outros países em relação à construção de infraestrutura, especialmente no campo digital. Isso prejudica não somente novas e avançadas empresas de tecnologia, mas também todas as outras empresas.

O mais grave problema doméstico da Alemanha, porém, é o país fracassar em reformar seu sistema de pensão. Os alemães estão envelhecendo rapidamente, e a atual geração colocará um peso ainda maior sobre o orçamento no fim desta década, quando começar a se aposentar. 

A respeito das mudanças climáticas, a Alemanha também tem sido relapsa – e ainda emite mais carbono por habitante do que qualquer outro grande país da União Europeia. O fechamento da indústria nuclear alemã, promovido por Merkel após o desastre de Fukushima, no Japão, em 2011, não ajudou./APAFP, Reuters e NYT 

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