Olhem-se no espelho

Manifestantes muçulmanos reclamam da falta de respeito por Maomé, mas não censuram comentários de ódio contra judeus e os EUA

THOMAS L. FRIEDMAN*, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2012 | 03h03

Na segunda-feira, David Kirkpatrick, chefe do New York Times no Cairo, citou Khaled Ali, um dos manifestantes diante da Embaixada dos EUA no Egito, que justificou os protestos da semana passada: "Nunca insultamos profeta nenhum - nem Moisés, nem Jesus. Então, por que não podemos exigir respeito por Maomé?". Trabalhador da indústria têxtil, de 39 anos, ele carregava um cartaz em inglês: "Cale-se América". "Obama é o presidente, então deveria se desculpar."

Li vários comentários dos amotinados na imprensa na semana passada e tenho um grande problema com eles. Não gosto de ver a crença de alguém insultada, mas preciso deixar duas coisas muito claras - mais claras do que a equipe de Obama deixou. Uma é que um insulto - até um tão estúpido e horrendo como o vídeo que deu início a tudo isso - não dá direito às pessoas de saírem à rua para atacar embaixadas e matar diplomatas inocentes. Não é assim que pessoas responsáveis por si mesmas se comportam. Não há desculpa. Isso é vergonhoso.

Em segundo lugar, antes de exigir desculpas do presidente americano, Ali e os jovens egípcios, tunisianos, líbios, iemenitas, paquistaneses, afegãos e sudaneses que foram às ruas devem se olhar no espelho - ou simplesmente ligar seus televisores. Podem querer ver o amargor chauvinista disseminado por alguns de sua própria mídia - na TV via satélite, em websites ou vendido em livrarias diante de mesquitas - insultando xiitas, judeus, cristãos, sufistas e qualquer um que não seja sunita ou muçulmano fundamentalista. Existem pessoas nos seus países para as quais odiar "o outro" tornou-se uma fonte de identidade e desculpa coletiva por não atingir o próprio potencial.

O Instituto de Pesquisa de Mídia do Oriente Médio (Memri, na sigla em inglês) foi fundado em 1998, em Washington, por Yigal Carmon, ex-assessor em Israel no combate ao terror, para "acabar com as divergências de linguagem entre o Oriente Médio e o Ocidente monitorando, traduzindo e estudando mídia, livros escolares e sermões religiosos em árabe, farsi, urdu e pashtu". O que respeito no Memri é que ele traduz não só material ofensivo ou ameaçador, mas também textos de comentaristas árabes reformadores, liberais e corajosos.

Como um judeu que viveu e trabalhou no mundo muçulmano, sei que manifestações de intolerância são só um lado da história e existem ali opiniões profundamente tolerantes que são apoiadas e praticadas também. Essas sociedades são complexas.

Esse é o ponto. Os EUA também são uma sociedade complexa, mas devem parar com a tolice de dizer que esse é apenas um problema dos americanos. Os manifestantes do Cairo estão certos: as fés e os profetas dos outros devem ser respeitados. Mas isso é recíproco. Obama e os jornais mais importantes dos EUA condenam o discurso de ódio contra outras religiões. E os manifestantes? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É COLUNISTA

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