Olho em Putin

Líder russo usa força econômica e militar para interferir na política de países ligados à antiga URSS e criar novo bloco

Janusz Bugajski, The Christian Science Monitor, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2012 | 08h42

MOSCOU - Na Geórgia, e em seguida na Ucrânia e Lituânia, as eleições parlamentares no Leste da Europa revelam como é frágil a democracia e a soberania em países outrora na esfera de influência de Moscou na era soviética. Entre as grandes prioridades que o presidente russo, Vladimir Putin, estabeleceu para o seu terceiro mandato presidencial está a reintegração das ex-repúblicas soviéticas, com base em vínculos econômicos mais fortes e, por fim, um pacto político e de segurança em torno da Rússia. Moscou pretende criar uma nova União Eurasiana que manteria o equilíbrio com a União Europeia a oeste e a China a leste.

As ligações econômicas criarão aparentemente elos políticos e de segurança mais estreitos, o que deverá tornar menos provável que os vizinhos da Rússia formem alianças políticas e militares alternativas. Essa estratégia se reflete numa política mais assertiva com relação a antigos Estados satélites mais vulneráveis da Ásia Central e Europa centro-oriental.

A Geórgia enfrentou um importante teste político na votação parlamentar da semana passada. Partidários do governo sustentam que o bilionário ganhador da eleição, Bidzina Ivanishvili, vem arquitetando várias provocações para corroer a emergente democracia da Geórgia. Segundo eles, Ivanishvili, que enriqueceu na Rússia, atendeu aos interesses do Kremlin ao criar a coalizão Sonho Georgiano. Uma grande agitação na Geórgia poderia precipitar uma nova intervenção militar russa com o pretexto de restaurar a lei e a ordem, instalando um governo mais amigo em Tbilisi, a capital.

Na Ucrânia, as eleições parlamentares do dia 28 também podem culminar em protestos caso violações flagrantes sejam detectadas pelos monitores eleitorais e por partidários da líder da oposição presa, Yulia Tymoshenko. A Rússia deseja ter mais influência sobre Kiev e estaria mais certa disso com um governo autoritário boicotado pelo Ocidente. Em escrutínios anteriores, os eleitores da região central e ocidental da Ucrânia votaram, na maior parte, em partidos com políticas reformistas e mais ocidentais, ao passo que os das regiões sul e leste do país preferiram candidatos mais conservadores e favoráveis à Rússia.

Se o partido liderado pelo presidente Viktor Yanukovich for visto como um bloco que pretende estabelecer um monopólio político, reverter as reformas democráticas e fraudar as eleições parlamentares, então a próxima revolução pode não ser tão pacífica como a Laranja, de novembro de 2004.

Ao contrário da Geórgia e da Ucrânia, a Lituânia é uma democracia consolidada, tendo aderido à União Europeia e à Otan. A soberania das três repúblicas bálticas ainda é contestada por Moscou. Lituânia, Letônia e Estônia estão à frente de campanhas para promover a adesão de Ucrânia e Geórgia à Otan. Moscou se opõe a isso e as eleições nas repúblicas bálticas constituem uma possibilidade para o Kremlin debilitar os partidos políticos que se opõem a suas ambições.

A Lituânia realizará eleições parlamentes nos dias 14 e 28. O governo de centro-direita é desafiado pelo Partido Trabalhista, que os eleitores russos, minoria, devem apoiar. Contratos comerciais lucrativos, doações para campanhas políticas e a compra de agências de mídia teriam permitido a Moscou convencer políticos a apoiar seus interesses, o que culminou com o impeachment do presidente Rolandas Paksas em abril de 2004, acusado de passar informações sigilosas para empresários russos que teriam vínculos com o serviço secreto de Moscou. Na Letônia, nas eleições de setembro de 2011 o Kremlin apoiou o Partido da Harmonia, de etnia russa, calculando que, se o partido entrasse no governo, poderia fazer com que as decisões políticas favorecessem Moscou.

Cada ciclo eleitoral oferece a Moscou uma nova oportunidade para perseguir suas ambições regionais. Pelo bem da manutenção da independência regional e da democracia nesses países, esperamos que eles consigam resistir a essas ambições. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MATINO

* É MEMBRO DO PROGRAMA EUROPA DO CENTRO DE ESTUDOS INTERNACIONAIS E ESTRATÉGICOS, EM WASHINGTON

 

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