Al Drago/AP
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Ômicron está se espalhando rápido, mas com menos internações e mortes, diz Fauci

Segundo o infectologista, com sinais de que a Ômicron causa infecções mais brandas, avaliar as hospitalizações é melhor do que o número diário de casos

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2022 | 15h00

Os Estados Unidos e países da Europa terminaram o ano de 2021 batendo recordes diários de casos de covid-19, conforme a variante Ômicron se espalha. Por outro lado, os números de internações e mortes não crescem no mesmo ritmo, o que tem levado médicos a sugerirem uma mudança no critério de avaliação da pandemia: observar hospitalizações em vez de casos.

O infectologista assessor do governo, Anthony Fauci, observou no último domingo, 2, que o risco de colapso que a nova variante representa em conjunto com a Delta aos hospitais deve preocupar mais do que os recordes de infecções registrados a cada dia. “À medida que você avança e as infecções se tornam menos graves, é muito mais relevante focar nas hospitalizações em vez do número total de casos”, disse.

Sua fala se soma com a de diversos outros especialistas em doenças infecciosas que veem com cautela os “tsunamis” de casos. Na semana passada, uma média de mais de 401.200 casos foram relatados todos os dias nos Estados Unidos, triplicando em relação a duas semanas atrás. Esta é a primeira vez que o número ultrapassa 400.000, segundo levantamento do “New York Times”. 

Os números diários dos primeiros dias de 2022 aparecem menores do que dos últimos dias de 2021, mas analistas alertam que isso é reflexo do menor número de testagem durante os feriados de fim de ano.

As hospitalizações, por outro lado, aumentaram, mas em uma proporção muito menor que os casos. Foi um crescimento de 33% na média de hospitalizações, para 92.300, enquanto as mortes caíram 4% para uma média de 1.249 por dia, de acordo com o levantamento do "New York Times".

Ainda assim, os Estados Unidos são atualmente o país com a maior alta de internações por covid-19. Os países europeus, embora apresentem um leve aumento nas últimas semanas, possuem médias mais baixas. Segundo dados do Our World in Data, a França tem uma média de 19 mil internados com a doença, seguida pela Itália com 13 mil. 

Não está claro quantas hospitalizações são pacientes infectadas pela Ômicron em vez da variante Delta, que os cientistas acreditam ser significativamente mais virulenta. De acordo com os dados mais recentes dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), para a semana encerrada em 25 de dezembro, a Ômicron foi responsável por mais de 58% dos novos casos nos EstadosUnidos contra mais de 41% para a Delta.

Maior risco para não vacinados

Fauci ressaltou, em entrevista à rede americana ABC, que muitas das novas infecções, especialmente em pessoas vacinadas e com doses de reforço, resultam em nenhum sintoma ou sintomas leves, tornando o número absoluto de casos menos importante do que nas versões anteriores do vírus.

O número de casos explodiu porque a variante Ômicron parece ser muito mais contagiosa e capaz de escapar das vacinas do que outras variantes anteriores, o que estimulou testagens mais difundidas pelo país. Além disso, os números oficiais são muito provavelmente uma contagem defasada, já que muitas pessoas apresentam resultados positivos em testes caseiros rápidos ou são portadoras do vírus sem quaisquer sintomas.

Segundo o infectologista do governo, a preocupação não é tanto com os casos leves ou assintomáticos de Ômicron, mas sim com o número de pessoas com infecções graves ou fatais. “A principal questão  com a qual você deve se preocupar é: as vacinas estão nos protegendo da doença mais grave que leva à hospitalização?”

Até agora, vacinas e reforços parecem estar fornecendo essa proteção. Mas os não vacinados continuam em risco. “Ainda estou muito preocupado com as dezenas de milhões de pessoas que não foram vacinadas porque, embora muitas delas se tornem assintomáticas e levemente sintomáticas, um grande número delas vai contrair a doença grave”, disse Fauci.

O Departamento de Saúde da Louisiana tuitou no domingo que as hospitalizações no estado ultrapassaram a marca dos 1.000, e que 76% dos hospitalizados não estão em dia com a vacinação.

Pressão sobre os hospitais

Mas ainda que as hospitalizações não estejam crescendo no mesmo ritmo das infecções, a combinação de duas variantes altamente contagiosas como Ômicron e Delta ainda representa um risco de pressão sobre os serviços de saúde, alerta o médico. De acordo com ele, é com este colapso que os americanos deveriam se preocupar.

Mesmo que a Ômicron seja mais branda, como a maioria das evidências sugere, um número maior de casos significa mais profissionais de saúde afastados do trabalho devido a exames positivos, ao mesmo tempo em que as pessoas podem ficar doentes o suficiente para necessitarem de cuidados médicos. 

É por isso que o infectologista sugere cautela ao interpretar a informação de que a variante é menos grave. “Temos que ter cuidado com isso, porque, mesmo que você tenha uma porcentagem menor de gravidade, quando você tem muito mais pessoas infectadas, o resultado é que você ainda vai ter muitas pessoas que vão precisar de hospitalização”, disse.

Hospitais em vários estados estão mostrando sinais de tensão e enfrentando escassez de pessoal. “No momento, a principal preocupação é o efeito da Ômicron na equipe dos hospitais em conjunto com a fadiga e o aumento das internações pela covid-19, entre outras coisas”, disse Julio Figueroa, chefe de doenças infecciosas do Louisiana State School Health Sciences Center.

O Havaí solicitou 700 profissionais de saúde adicionais da Agência Federal de Gerenciamento de Emergências, enquanto alguns hospitais na área de St. Louis começaram a limitar o número de visitantes novamente. Líderes em Illinois pediram aos hospitais que adiem cirurgias e procedimentos eletivos.

A Maryland Hospital Association disse que o número de pacientes do hospital ultrapassou o pico do inverno passado. “Acreditamos que as próximas quatro a seis semanas serão realmente um ponto terrível nesta crise e potencialmente a pior parte de toda a luta de dois anos”, disse o governador Larry Hogan, de Maryland, à CNN americana.

Trabalhadores adoecendo

No último sábado, o Reino Unido e alguns estados da Austrália, fizeram o mesmo alerta sobre o risco da nova variante sobre os profissionais de saúde. Devido à falta de funcionários nos hospitais, o estado de Nova Gales do Sul, na Austrália, cogita flexibilizar a quarentena de proficcionais de saúde com resultados positivos para covid-19.

Assim como os Estados Unidos, países da Europa e a Austrália vêm registrando recordes diários de infecções, levando a um aumento das restrições. O mundo está registrando uma média de quase 1,5 milhão de novos casos todos os dias, o dobro por dia do que foram registrados há quase uma semana.

O risco de ausência não é apenas dos profissionais de saúde, outras áreas já têm reportado falta de funcionários conforme mais pessoas se infectam. Policiais, bombeiros, paramédicos e trabalhadores de trânsito não estão consido completar a escala de turno por falta de pessoal.

Na cidade de Nova York, as linhas do metrô ficaram atrasadas devido à falta de funcionários, e o Corpo de Bombeiros pediu aos residentes que não ligassem para o 911, exceto em uma emergência real.

Mesmo antes do feriado de Natal, companhias aéreas já cancelavam voos por falta de tripulação. Agora, falta funcionários até mesmo para remarcarem os voos nos call centers. Grandes empresas adiaram ou descartaram totalmente os planos de retorno ao escritório, ao mesmo que muitas faculdades estão voltando para as aulas virtuais. As escolas públicas lutam agora para fazerem o mesmo. /NYT

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