Ria Novosti/AP
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Omissão com Rússia e rusgas marcaram relação com a UE

Otimismo inicial da Europa com Obama foi minado por crise do euro, espionagem e invasão russa da Ucrânia

Jamil Chade , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2017 | 05h00

GENEBRA - Era uma manhã ainda fria de começo de primavera na Europa em 2009. Na praça diante do Castelo de Praga, milhares esperavam conhecer os planos do presidente americano, Barack Obama para o futuro da Europa. Quase oito anos depois, a relação foi marcada por desencontros e crises e a ascensão da Rússia no cenário geopolítico mundial.

Obama havia escolhido de forma simbólica a cidade que foi alvo de revoltas na Guerra Fria para propor ao mundo um plano para acabar com as armas nucleares. Seu recado era para que “o medo não prevalecesse sobre a esperança”, usando ainda o impacto de seu slogan de campanha “Yes, we can”.

Para diplomatas consultados pelo Estado na ONU, no entanto, foi sua passividade em relação a Ucrânia e Crimeia que permitiu um avanço de Moscou no cenário internacional. “A virada de Obama para a Ásia foi um jogo de soma zero, deixando os europeus se sentindo abandonados”, escreveu Denis MacShane, ex-ministro britânico para Assuntos Europeus. “Como vimos, quando os europeus são deixados sozinhos, os demônios nacionalistas ressurgem.” 

“Obama delegou para a Alemanha o maior desafio para a segurança europeia – a invasão russa da Ucrânia”, afirma David Kramer, diretor do McCain Institute de Washington. Para Jan Techau, diretor do Richard Holbrooke Forum da Academia Americana em Berlim, a frustração com os EUA vem do fato de que os europeus se esqueceram de considerar que o Obama atende aos interesses americanos. 

Na avaliação do ex-embaixador americano na Alemanha John Kornblum, o governo Obama significou uma “retração” dos EUA do cenário internacional, “permitindo à Rússia voltar” ao cenário como uma potência militar e diplomática. “Obama esqueceu que os EUA são necessários para manter a Europa unida.” 

George Robertson, ex-secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), também destacou que Obama permitiu um avanço de Putin, testando o Ocidente na Ucrânia. “Isso terá um legado de longo prazo”, alertou.

Para Ivo Daalder, ex-embaixador dos EUA na Otan sob a administração Obama, o presidente democrata jamais abandonou a aliança militar. “Obama agiu rapidamente para garantir aos aliados europeus depois da invasão russa na Ucrânia”, escreveu, lembrando os US$ 3,4 bilhões para aumentar a presença americana na Otan. 

Assim que assumiu, o presidente americano deixou claro que sua prioridade seria a Ásia. Nas cúpulas europeias, se queixou da falta de uma coordenação maior de Bruxelas para falar com uma só voz. Obama também se mostrou irritado diante da demora dos europeus em lidar com a crise na Grécia, temendo que um colapso do euro significasse a volta da economia mundial ao cenário de caos de 2008. 

O auge da crise entre os dois parceiros ocorreu quando foi revelado o esquema de escutas telefônicas pela NSA, que grampeou o celular da chanceler alemã, Angela Merkel, o que provocou protestos.

 

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