WHO/P. Virot
WHO/P. Virot

OMS aprova que sua gestão da pandemia do coronavírus seja avaliada

Estados-membros decidiram por avaliação imparcial, independente e completa após fim da pandemia

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2020 | 12h32
Atualizado 19 de maio de 2020 | 15h32

GENEBRA - Os Estados-Membros da Organização Mundial da Saúde (OMS) apoiaram nesta terça-feira, 19, uma resolução fortemente favorável à entidade depois dos novos ataques de Donald Trump contra o organismo da ONU. Na segunda-feira, 18, Trump havia dado 30 dias para que a OMS fizesse reformas e investigasse sua resposta à pandemia de coronavírus, caso contrário perderia em definitivo o financiamento dos EUA.

A resolução, apoiada pelo presidente da China, Xi Jinping e elaborada em grande parte pela União Europeia, deixa de lado o tipo de investigação internacional focada na conduta da China, proposta pela Austrália e pelos Estados Unidos. O Ministério das Relações Exteriores da China alegou que a resolução era completamente diferente da investigação de motivação política solicitada pela Austrália. O documento apoiou a liderança da OMS e concordou com uma investigação “independente e imparcial” sobre a resposta global à pandemia de coronavírus e sobre a conduta da OMS.  

O presidente dos EUA lançou um ataque à OMS na segunda-feira em uma longa carta descrevendo a crença dos Estados Unidos de que a OMS não era suficientemente independente da China e aceitou sem contestações as explicações do país para as origens do surto de coronavírus. 

À medida que a pandemia se agrava nos EUA e em outros países inicia uma recuperação provisória, Trump tenta culpar a China e a OMS. A carta acusava a OMS de cometer erros. "Se a OMS não se comprometer com grandes melhorias substanciais nos próximos 30 dias, farei meu congelamento temporário do financiamento dos Estados Unidos à OMS permanente e reconsiderarei nossa associação", disse Trump a Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

Algumas alegações na carta de Trump eram falsas, por exemplo, que Taiwan havia alertado sobre a transmissão da doença de humanos para humanos em 31 de dezembro. Naquela data, Taiwan enviou uma carta à OMS, notando o número de casos inexplicáveis de pneumonia em Wuhan, na China, e que os pacientes estavam isolados e solicitando mais detalhes.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Zhao Lijian, descreveu a carta de Trump como difamatória. "A carta aberta da liderança dos EUA está tentando enganar o público para atingir o objetivo de difamar os esforços da China na prevenção de epidemias e mudar a responsabilidade por sua própria incompetência no tratamento da epidemia", disse Zhao.

Especialistas em saúde disseram que as críticas de Trump à OMS só poderiam ser efetivamente tratadas dando à OMS novos poderes sobre as políticas de saúde dos Estados, algo que Trump resistiria se fosse aplicado nos EUA.  

A perda de financiamento dos EUA para a OMS seria um duro golpe, já que os EUA contribuíram com mais de US$ 400 milhões para a OMS em 2019, ou cerca de 15% de seu orçamento. O financiamento da OMS precisa de reforma, uma vez que o órgão sobrecarregado depende fortemente de contribuições voluntárias pontuais de nações e filantropos, como a Fundação Gates. Muitos estados europeus compartilham o desejo de reformar a OMS, mas consideram as ameaças de Trump contraproducentes, uma vez que apenas consolidam a influência chinesa na África e tornam a reforma mais difícil. 

Resposta

A revista médica The Lancet, que foi mencionada incorretamente na carta de Trump como tendo publicado um relatório sobre o vírus no final de 2019, emitiu uma declaração contestando Trump.

"Esta afirmação é factualmente incorreta", diz a revista. “Lancet não publicou nenhum relatório em dezembro de 2019, referindo-se a um vírus ou surto em Wuhan ou em qualquer outro lugar na China ... As alegações levantadas contra a OMS na carta do presidente Trump são sérias e prejudiciais aos esforços para fortalecer a cooperação internacional para controlar essa pandemia. É essencial que qualquer revisão da resposta global se baseie em um relato factualmente preciso do que ocorreu em dezembro e janeiro". 

Em Bruxelas, a União Europeia defendeu a OMS, instando todos os países a apoiá-la na sequência dos contínuos ataques de Trump. "Este é o momento da solidariedade", disse a porta-voz da comissão europeia Virginie Battu-Henriksson. “Não é hora de apontar o dedo ou minar a cooperação multilateral.”

Parabenizando o que foi uma vitória para a diplomacia da UE, o chefe de relações exteriores do bloco, Josep Borrell, distanciou-se das críticas de Trump, dizendo: "A resolução destaca a importância de responder a essa crise por meio da solidariedade e cooperação multilateral sob a égide das Nações Unidas. Louvamos a OMS por seu papel de liderança na orientação da resposta a esta crise".  

Ele reiterou o pedido da UE para que a pesquisa de vacinas seja compartilhada e disse que a OMS realizará um inquérito sobre as lições aprendidas.

A própria liderança da OMS não respondeu inicialmente à carta de Trump, mas a resolução aprovada na terça-feira afirma o papel central da OMS na liderança da saúde global. Uma tentativa dos EUA de alterar a redação da resolução sobre o acesso universal a vacinas encontrou resistência dos países africanos. Os EUA desejavam incluir um incentivo à inovação que daria às empresas garantias sobre os lucros das vacinas.  

Ao fim do evento, realizado pela primeira vez de maneira virtual, o diretor diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, confirmou que esta avaliação começará o mais cedo possível, embora ele tenha observado antes que, por enquanto, vai se concentrar em combater a pandemia.

"Congratulamos qualquer iniciativa que fortaleça a segurança global da saúde e a OMS, que como sempre está firmemente comprometida com a transparência, a adoção de responsabilidades e melhoria contínua", afirmou. / EFE

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