OMS confirma surto de poliomielite na Síria

Doença, que estava erradicada havia 14 anos, teria sido levada por jihadistas

Jamil Chade, Correspondente - O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2013 | 02h02

GENEBRA - A Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou ontem a existência de um surto de poliomielite na Síria, com o risco de rápida contaminação regional da doença - erradicada no país havia 14 anos. Com a confirmação, cresceram os apelos para que o regime de Bashar Assad e os rebeldes aceitem um cessar-fogo imediato e incondicional, permitindo o acesso de médicos às regiões sob risco e a vacinação da população.

A OMS também quer investigar se a doença foi levada à Síria por estrangeiros envolvidos na guerra civil. A pólio ainda é endêmica em países como Afeganistão e Paquistão, de onde podem ter partido combatentes jihadistas que lutam contra Assad.

Não há cura para a pólio, também conhecida como paralisia infantil, mas a doença pode ser controlada e erradicada por meio da vacinação de crianças. Segundo a agência de saúde da ONU, além de trazer de volta a poliomielite, a guerra civil também fez crescer perigosamente o número de casos de sarampo, hepatite A e febre tifoide.

Técnicos da OMS confirmaram dez casos de pólio na Província de Deir al-Zor, no leste da Síria, região que foi palco de uma intensa batalha entre rebeldes e governo. Outras 12 suspeitas de contaminação estão sendo analisadas em laboratórios europeus.

Pelos cálculos da OMS, atualmente 100 mil crianças estão sob risco imediato de contrair a doença na Síria. Antes da guerra civil, o país era um exemplo na região em campanhas de vacinação, com 95% de crianças atendidas. Dois anos depois, a OMS estima que 500 mil menores de idade não estão imunizados e, portanto, correm risco de contrair a doença.

A OMS luta agora para erradicar o vírus no local onde o surto foi detectado, evitando que ele se espalhe. "Trata-se de um vírus altamente infeccioso e, com o movimento de pessoas que temos visto na Síria, os riscos são grandes", disse Oliver Rosenbauer, porta-voz da entidade, lembrando que a contaminação viria de alimentos ou água que tiveram contato com fezes.

Estima-se que 4 milhões de sírios tenham sido obrigados a abandonar suas casas em razão da violência, criando uma crise sanitária grave em várias regiões do país. Para piorar, mais de mil hospitais foram destruídos em combates, assim como parte da infraestrutura de saneamento.

Damasco informou que iniciou uma nova campanha de vacinação logo após as primeiras indicações de que havia um surto da doença. Com 4 mil refugiados deixando a Síria por dia, governos como o da Jordânia, do Líbano e da Turquia querem que a ONU também realize campanhas de vacinação nos acampamentos de refugiados, temendo que o vírus cruze as fronteiras. "A principal preocupação é de agir rapidamente com uma resposta de imunização", declarou Rosenbauer.

Trégua. Entidades como a ONG Save the Children fizeram um apelo ontem para que rebeldes e governo cheguem a um acordo para um cessar-fogo, permitindo que equipes humanitárias entrem em áreas afetadas e impeçam que a pólio torne-se endêmica na Síria. Segundo a entidade, tréguas para o combate à paralisia infantil já foram acertadas em países como Afeganistão, Sudão e na República Democrática do Congo.

Anthony Lake, diretor-executivo do Unicef, também exortou Damasco a conceder acesso às áreas mais devastadas pelo conflito, com o objetivo de garantir que todas as crianças sejam vacinadas. "A imunização não tem caráter político e não tem relação com qualquer tipo de consideração militar", afirmou.

Já o enviado especial da ONU e da Liga Árabe para o conflito na Síria, Lakhdar Brahimi, alertou que o país corre o risco de repetir a situação da Somália, que, depois de anos de conflito, deixou de ter um Estado operante. "O perigo real é de uma espécie de 'somalização', porém ainda mais profunda e duradoura do que vimos na própria Somália", declarou o negociador internacional.

Em mais de dois anos e meio de guerra civil, a crise síria já deixou um saldo de pelo menos 100 mil mortos, além de milhões de deslocados. Países vizinhos, como Turquia, Jordânia, Líbano e Iraque, sofrem com o grande influxo de refugiados sírios.

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