Denis Balibouse/Reuters
Denis Balibouse/Reuters

Origem do coronavírus: OMS lança novo grupo para investigar surgimento

Além de responder a pergunta sobre o início da pandemia atual, grupo Sago terá como função montar estratégias para possíveis novas ameaças; cúpula da OMS defende revisão sobre tese de vazamento em laboratório chinês

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2021 | 15h00

A Organização Mundial da Saúde (OMS) nomeou na quarta-feira, 13, um grupo de 26 cientistas para uma nova tentativa de desvendar as origens do novo coronavírus - esforço apontado por pelo menos um alto dirigente da organização como sendo a "última chance" para entender como o vírus infectou humanos pela primeira vez.

Batizado de Grupo de Aconselhamento Científico sobre as origens de novos agentes patógenos (Sago, na sigla em inglês), o novo corpo consultivo reúne cientistas dos Estados Unidos, da China e de 24 outras nações, sendo seis deles remanescentes da equipe internacional que viajou para a China no começo do ano. A equipe será formalmente confirmada após duas semanas de consultas públicas.

Além de tentarem responder a grande questão não resolvida da atual pandemia - onde e como o vírus infectou humanos pela primeira vez? - a equipe também será responsável por produzir uma nova estrutura global para estudos sobre as origens de novas ameaças com potencial epidêmico e pandêmico.

O diretor do programa de emergência sanitária da OMS, Michael Ryan, disse que esta "talvez seja nossa última chance de entender as origens deste vírus".

Alguns dos cientistas selecionados para a Sago, como a holandesa Marion Koopmans e o vietnamita Hung Nguyen, participaram da missão científica conjunta da OMS e China sobre a origem da covid-19 no começo do ano. O relatório publicado na época, no entanto, não apresentou uma resposta conclusiva, limitando-se a enumerar cenários possíveis - entre eles, o considerado mais verossímil foi o de que o vírus foi transmitido ao ser humano por um animal intermediário, infectado por um morcego.

Os autores do primeiro relatório também foram criticados internacionalmente e acusados de tentar mitigar a responsabilidade da China no caso, uma vez que a teoria de um vazamento acidental do Instituto de Virologia de Wuhan - ou de outro laboratório chinês - foi considerada "extremamente improvável". A narrativa é que a hipótese teria sido descartada praticamente desde o início.

Em artigo publicado na revista Science na quarta-feira, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, ao lado da chefe da unidade de doenças emergentes e zoonoses da organização, Maria Van Kerkhove, e Michael Ryan, defenderam que todas as hipóteses precisam voltar a ser analisadas pela Sago, uma vez que os estudos anteriormente realizados foram alvo de pressões políticas e logísticas que dificultaram os esforços em identificar a origem da covid-19.

"Desde o início desta pandemia, cientistas de todo o mundo trabalharam juntos para entender os eventos que levaram às primeiras infecções humanas. Em maio de 2020, os estados membros da OMS aprovaram uma resolução unânime dando à OMS um mandato para reunir especialistas internacionais para estudos científicos e colaborativos sobre as origens do vírus. Mas está claro que os processos científicos foram prejudicados pela politização, razão pela qual a comunidade científica global deve redobrar os esforços para impulsionar o processo científico (...). Todas as hipóteses devem continuar a ser examinadas e, como a OMS disse desde o início, um processo científico totalmente aberto e transparente é essencial.", diz o artigo assinado pelos três. 

Além de mencionar outras hipóteses que voltarão a ser analisadas, especificamente sobre a teoria do vazamento em um laboratório chinês, a cúpula da OMS afirmou no artigo que "as hipóteses laboratoriais devem ser examinadas com cuidado, com foco nos laboratórios do local onde surgiram os primeiros relatos de infecções humanas em Wuhan. Um acidente de laboratório não pode ser descartado até que haja evidências suficientes para fazê-lo e os resultados sejam divulgados abertamente".

Embora a China tenha contestado o apelo da OMS para investigar mais amplamente a hipótese de vazamento de laboratório - tendo rejeitado, em 13 de agosto, um pedido da organização por uma nova investigação no local, alegando que a primeira havia sido suficiente - os chineses indicaram um representante para a equipe da Sago, o vice-diretor do Instituto de Genômica de Pequim na Academia Chinesa de Ciências, Yungui Yang.

Após a nomeação do grupo de especialistas, "faremos o possível para apoiar a OMS e cooperar com ela no estudo científico de suas origens", disse o conselheiro chinês Feng Yong, encarregado de saúde pública.

"É uma oportunidade real agora de nos livrarmos de todo o barulho, de toda a política em torno disso e focar no que sabemos, no que não sabemos e no que, urgentemente, precisamos focar nossa atenção", disse Maria Van Kerkhove, , em entrevista./ AFP e W.POST

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