Justin T. Gellerson/The New York Times
Justin T. Gellerson/The New York Times

Ona, a escrava que desafiou George Washington

A obstinação do presidente americano em busca de sua escrava, bem como o testamento que libertou seus escravos, refletem a atitude típica dos escravagistas

Jennifer Schuessler / The New York Times, O Estado de S. Paulo

20 Fevereiro 2017 | 15h37

MOUNT VERNON - Os personagens vestidos a caráter na graciosa mansão de George Washington estão acostumados a lidar com todo tipo de pergunta estranha, seja algum questionamento sobre as latrinas do século 18 ou os dentes do primeiro presidente. Por isso, quando um visitante recentemente perguntou à atriz negra de saia ampla e turbante se ela conhecia Ona Judge, a moça nem piscou.

"A fuga de Ona da residência presidencial, em 1796, na Filadélfia, foi um grande constrangimento para o general e a senhora Washington", respondeu, antes de dar sua opinião sobre o assunto. "Ona nasceu livre, como todo mundo; foi este mundo que a escravizou."

Em Mount Vernon, o tempo parou em 1799, onde mais de um milhão de pessoas por ano têm a oportunidade de ver a propriedade exatamente como ela era antes da morte de Washington, quando seu testamento ficou famoso por libertar todos os 123 escravos que possuía. A alforria, entretanto, não se aplicou a Ona Judge, que fazia parte do grupo de 153 escravos mantidos por Martha Washington.

Ela, porém, acabou superando os esforços insistentes (e muitas vezes ilegais) dos Washington em recapturá-la, e viveu tranquilamente em New Hampshire por mais 50 anos. Hoje, sua história – e o desafio que representa à ideia de que Washington, de alguma forma, transcendia a realidade desprezível da escravidão – está ganhando mais destaque do que nunca.

Ona está entre os 19 escravos em destaque na mostra Lives Bound Together: Slavery at George Washington's Mount Vernon, a primeira grande exposição dedicada ao assunto. E também é tema de um livro, Never Caught: The Washingtons' Relentless Pursuit of Their Runaway Slave, Ona Judge, de Erica Armstrong Dunbar.

A maioria dos estudiosos que escreveu sobre a fuga de Ona usou a ocasião como análise da mudança de ideia de Washington sobre a escravidão; já Never Caught, publicado pela editora 37 Ink, altera essa perspectiva, abordando o significado da liberdade para aqueles que ele mantinha em cativeiro.

"Temos fugitivos famosos, como Harriet Tubman e Frederick Douglass, mas antes deles, Ona Judge fez o mesmo. Quero que o público conheça sua história", afirma a autora, que é professora de História e Estudos Negros na Universidade de Delaware, em entrevista na  praça de alimentação de Mount Vernon, no melhor estilo do século 18.

As pesquisas sobre escravidão explodiram nas duas décadas desde que Mount Vernon, Monticello e outros marcos históricos instituíram passeios relacionados ao tema e passaram a reconhecer os escravizados sob um novo ângulo.

Lives Bound Together, que estará em cartaz até setembro de 2018, a princípio ia ocupar uma das salas de 100 m² desta mansão, mas acabou se expandindo para incluir outras seis galerias normalmente dedicadas às belas artes, livros e manuscritos.

"Tínhamos muito material; é uma história tão importante! Percebemos que poderíamos aproveitar muitos objetos já expostos simplesmente alterando a abordagem", explica Susan P. Schoelwer, curadora de Mount Vernon.

A exibição deixa bem claro quem servia o chá nos bules elegantes e quem fazia o trabalho árduo nas plantações da fazenda de 3.200 hectares, mas a integração da dura realidade da escravidão à história de heroísmo de Washington – um "líder de caráter", como o chama o título da exibição permanente – não chega a ser totalmente estabelecida, segundo os estudiosos.

"(Washington é) uma figura mítica, muito mais do que Jefferson. Muita gente faz questão de considerá-lo perfeito sob vários aspectos", define Annette Gordon-Reed, autora de The Hemingses of Monticello e professora de Harvard. 

Entretanto, sua obstinação em busca de Ona, bem como o testamento que libertou seus escravos, refletem a atitude típica dos escravagistas. "É como se dissesse: 'Não importa o conceito que concebo, tenho direito de fazer o que bem entender com minha propriedade", prossegue.

Erica Armstrong Dunbar, autora de Never Caught, tomou conhecimento da história de Ona Judge no fim dos anos 90, quando ainda era aluna de Columbia e fazia pesquisa sobre negras livres na Pensilvânia. Um dia, nos arquivos, notou um jornal de 1796 que oferecia US$ 10 de recompensa pela devolução de "uma mestiça clara, cheia de sardas, de olhos negros e cabelo bem crespo que tinha 'sumido' da casa do presidente".

"Pensei comigo mesma: 'Se sou especialista no assunto, como nunca ouvi falar dela antes?'", conta.

Desde então, a saga de Ona vem inspirando muitos livros infantis, mas Never Caught é o primeiro relato completo de não ficção,  cm base em algumas fontes nunca antes exploradas para rastrear sua trajetória de Mount Vernon a Nova York, da Filadélfia a New Hampshire, em uma época em que a abolição gradual ainda traçava uma linha ambígua entre a escravidão e a liberdade.

"Há esse mito de que o Norte era livre, mas sua história mostra que a coisa era complicada", prossegue ela.

É nos registros meticulosos dos livros de Mount Vernon que vemos Ona Maria Judge pela primeira vez, nascida por volta de 1773 de mãe escrava e pai branco que trabalhava como servo contratado. Aos 9 anos, passou a viver na mansão, e acabou se tornando a aia pessoal de Martha Washington.

Quando George se tornou presidente, Ona acompanhou o primeiro casal para Nova York, e depois para a Filadélfia, que abrigava uma comunidade de negros livres cada vez maior.

E, segundo o livro, foram eles que a ajudaram a fugir, em meio a um jantar presidencial, depois que ela descobriu que seria entregue a Eliza, neta de Martha Washington; foram eles também que a colocaram em um navio para Portsmouth, New Hampshire, onde se casou, teve três filhos e viveu na pobreza, prestando serviços em casas muito menos exuberantes que as da família presidencial.

Em duas entrevistas publicadas em jornais abolicionistas pouco antes de sua morte, em 1848, Ona falou do desejo de liberdade que a fez fugir da casa dos Washington, onde "nunca recebeu o mínimo de instrução moral ou mental", segundo suas palavras.

De acordo com a autora, a história de Ona joga por terra a ideia de que os escravos que trabalhavam na casa grande tinham "privilégios" ou gozavam da benevolência dos Washington, cujo papel em perpetuar a escravidão estava longe de ser passivo e muitas vezes infligia punições brutais aos mais rebeldes, descritas em detalhes.

O livro conta como a família conseguiu driblar a lei de abolição gradual de 1780 na Pensilvânia fazendo rodízio dos escravos na propriedade a cada seis meses – e o choque causado pela "ingratidão" e fuga de Ona, que "foi embora sem nenhum motivo", como escreveu o presidente.

Ao ouvir falar que a moça estava em Portsmouth, Washington inventou uma história de que ela teria sido "atraída e ludibriada por um francês" e discretamente enviou um oficial federal para a cidade para capturá-la, ignorando os procedimentos da lei de 1793 que regia os fugitivos que ele mesmo tinha aprovado.

Quando Ona concordou em voltar sob a condição de que fosse liberta por ocasião da morte de Martha, George Washington se recusou, considerando sua exigência "inadmissível". E, em carta ao oficial, disse que por mais que fosse a favor da emancipação geral, dar a Ona a chance de decidir seu futuro seria o mesmo que "valorizar a falta de lealdade" e abrir precedentes a outros "que necessitavam muito mais de tais concessões".

Em agosto de 1799, Washington, por meio de outro servidor, tentou novamente capturá-la, mas amargou outro fracasso, pois Ona foi avisada com antecedência e desapareceu.

Quatro meses depois, o presidente morreu, libertando todos os seus escravos em testamento. Ona Judge e os outros mantidos por Martha continuaram sendo sua propriedade legal.

Erica classifica a atitude como "importante", mas não vê Washington, que não teve filhos biológicos ou herdeiros, como o herói da história.

"Ele emancipou seus escravos quando considerou seguro, ou seja, depois de morto. Quer saber de uma coisa? Foi exatamente isso que todos os políticos da época fizeram, chutando a questão da escravidão como se fosse uma lata no meio do caminho", conclui ela. / THE NEW YORK TIMES

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.