AP
AP

Onda de ataques deixa 19 mortos a 2 dias das eleições afegãs

Comboio da Otan foi alvo de atentado; entre as vítimas estão dois funcionários da ONU e um militar da aliança

18 de agosto de 2009 | 13h57

Uma série de atentados deixou pelo menos 19 mortos a dois dias da segunda eleição presidencial da história do Afeganistão. No mais sangrento dos ataques, um carro-bomba foi lançado contra um comboio militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), matou ao menos oito pessoas, incluindo dois funcionários afegãos da ONU e soldados da aliança atlântica, e feriu mais de 50 pessoas. Horas antes, foguetes do Taleban atingiram o terreno do palácio presidencial em Cabul.

 

O alvo do atentado suicida era um comboio militar das tropas ocidentais que transportava comida, apesar de a maior parte das vítimas ser civis que passavam pelo local. A Otan disse que um de seus soldados, sete civis e dois funcionários das Nações Unidas morreram no ataque e mais de 50 ficaram feridos. O Taleban assumiu a autoria do ataque.

 

Veja também:

linkEntrevista: Porta-voz nega trégua do Taleban antes da eleição

som Enviado especial Lourival Sant'Anna fala do clima violento em Cabul

especial Especial: 30 anos de violência e caos no Afeganistão 

lista Perfil: Hamid Karzai é favorito à reeleição no Afeganistão

lista Perfis: Ex-ministros são os principais rivais de Karzai

 

 

Com o presidente Hamid Karzai lutando pela reeleição, a votação também é um teste à estratégia do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de reforçar o conflito no Afeganistão em um esforço para reverter recentes ganhos do Taleban. Militantes juraram intensificar a luta e atacar os locais eleitorais, o que poderia danificar a legitimidade da eleição ao reduzir o comparecimento dos cidadãos.

 

Aproximadamente 12 veículos privados foram destruídos perto do local do ataque. Testemunhas dizem que a explosão de Cabul na movimentada rua Jalalabad atingiu o comboio militar perto de um mercado e que há crianças entre os mais de 50 feridos.

 

As forças dos EUA, da Otan e afegãs estão em alerta máximo, por causa das eleições de quinta-feira. Horas antes do atentado, um foguete foi lançado contra o palácio presidencial do Afeganistão, em Cabul, mas ninguém ficou ferido. A Otan informou, nesta terça-feira, que não realizará operações militares regulares no dia da eleição. A aliança afirmou que fará apenas missões consideradas "necessárias para proteger a população".

 

Perante a ameaça taleban e o clima de insegurança generalizado, as embaixadas estrangeiras em Cabul se esforçam em aconselhar a seus cidadãos que tripliquem as precauções, sobretudo durante o período eleitoral. "Convém sair de casa apenas o imprescindível e se vestir de modo que não chame a atenção. O nível de alerta é permanente e não se deve baixar a guarda", disse à agência Efe uma fonte diplomática.

 

O atentado foi condenado pelo presidente afegão, Hamid Karzai, horas depois que dois foguetes cairam nas imediações de seu Palácio sem causar vítimas.

 

Segundo o chefe do serviço secreto afegão, Amrullah Saleh, "a segurança é como o pão, um bem que se necessita sem cessar. Será para sempre nossa preocupação e é um bem que necessitaremos sempre. Nossas medidas e esforços não vão parar após as eleições".

 

A presença em massa das forças da ordem não muda a percepção dos afegãos: segundo um recente estudo do instituto americano IRI, a segurança é um dos dois principais problemas do Afeganistão para 56% dos cidadãos consultados, 21 pontos acima da situação econômica. "Eu a tenho (a pistola) por segurança. Aqui em Cabul há roubos e sequestros constantes", relata a Efe um tadjique de 22 anos preocupado com a alta da criminalidade, enquanto empunha uma Beretta italiana de calibre 9 mm no interior de um carro.

 

De acordo com diferentes relatórios, as estradas afegãs estão infestadas de bandidos que organizam emboscadas a caminhoneiros e viajantes. "Não me sinto seguro, claro que não. A Polícia não está ativa e não está equipada para resolver os problemas. Os sequestros e roubos de Cabul são perpetrados por gente com uniforme. A corrupção é de 100%", sustenta o empresário Mohamad Nader no bairro de Makroyan, na capital.

 

No Afeganistão há 100 mil policiais, mas a maioria é mal formada e equipada, têm salários baixos e quase não conta com a infraestrutura adequada, expôs a Efe o porta-voz da missão policial da UE no Afeganistão (Eupol), Andrea Angeli. Só na capital, há cerca de 8.500 agentes encarregados de manter a ordem, mas segundo Angeli são precisos muitos mais em uma cidade assolada pelos roubos e sequestros, com os empresários e os estrangeiros como alvos principais.

 

Na província Uruzgan no sul, um suicida explodiu um posto de controle na fronteira, matando três soldados afegãos e dois civis. Um homem que tentava passar a pé por um posto de controle detonou os explosivos que carregava. Enquanto isso, um candidato ao conselho provincial foi assassinado na província do norte Jowzjan. No leste do país, dois soldados americanos morreram na explosão de uma bomba em uma estrada, de acordo com o comando militar dos Estados Unidos.

 

A campanha eleitoral acabou oficialmente a meia-noite após um dia final de disputas em apoio a Karzai e seu principal rival, o ex-ministro das Relações Exteriores, Abdullah Abdullah. Pesquisas de opinião pública mostram que Karzai provavelmente ganhará a eleição de quinta-feira, mas não com a maioria dos votos, o que requereria um segundo turno em seis semanas. Abdullah, um oftalmologista civil, fez uma campanha energética, buscando apoio além de sua base no norte de maioria étnica Tajik. As últimas pesquisas deram a Karzai 45% dos votos, contra 25% para Abdullah. Desde que as pesquisas começaram, Karzai tem conseguido parcerias de último minuto com alguns ex-líderes regionais, esperando que possa assegurar a vitória no primeiro turno.

 

Quirguistão

 

Um centro de passagem de cargas militares e humanitárias para as tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Afeganistão substituirá a base militar americana no aeroporto de Manas, no Quirguistão. Nesta terça-feira, 18, terminou o prazo para o fechamento da base aérea, a última com a qual os Estados Unidos contavam na Ásia Central e na qual as tropas americanas e de outros 11 países estiveram presentes desde o começo de 2002.

 

O presidente do Quirguistão, Kurmanbek Bakiyev, decidiu no começo do ano fechar a base após diferenças com Washington sobre o pagamento do aluguel das instalações, o status dos militares e seu impacto ecológico. A base abrigava cerca de mil soldados americanos, espanhóis e franceses, além de vários aviões-tanque e de transporte militar, fundamentais para a provisão das tropas desdobradas no Afeganistão.

 

No final de junho, EUA e Quirguistão alcançaram um acordo válido por 12 meses para substituir a base militar por um centro de passagem, a fim de apoiar as operações aliadas no país vizinho. Com isso, o país evitou ter que introduzir tropas e equipamentos através do Paquistão, território hostil onde muitos dos comboios de provisões foram objeto de atentados e sabotagens.

 

Em virtude do acordo, o centro acolherá pessoal administrativo e só um pequeno número de soldados que ficarão a cargo da segurança, mas as mercadorias que transitem com destino ao Afeganistão não serão vigiadas.

Tudo o que sabemos sobre:
Afeganistão

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.