Tonga Geological Services/via REUTERS
Tonga Geological Services/via REUTERS

Onda de choque e tsunamis incomuns da erupção em Tonga serão estudados por anos

Fenômeno desencadeado pelo vulcão Hunga pode provocar interrupções nas transmissões de rádio; cientista diz que impacto da explosão na atmosfera foi extraordinário

Henry Fountain, The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2022 | 05h00

NOVA YORK — Enquanto os moradores de Tonga lutam para se recuperar de uma devastadora explosão vulcânica seguida de tsunami, que sufocou de cinzas e água a nação insular do Pacífico, os cientistas tentam entender melhor os efeitos globais do fenômeno. Eles já sabem a resposta para uma pergunta crucial: embora pareça ter sido a maior erupção no mundo em três décadas, muito provavelmente não causará um resfriamento temporário no clima global, como já aconteceu com algumas fortes erupções no passado.

No rescaldo do evento, podem surgir efeitos de curto prazo no clima em partes do mundo e possivelmente pequenas interrupções nas transmissões de rádio, incluindo aquelas usadas por sistemas de posicionamento global (GPS).

A onda de choque produzida pela explosão, bem como a natureza incomum das tsunamis que gerou, farão com que os cientistas estudem o fenômenos durante anos. Tsunamis foram detectadas não apenas no Pacífico, mas também no Atlântico, Caribe e Mediterrâneo.

“Não que não tivéssemos conhecimento de explosões vulcânicas e tsunamis”, disse Lori Dengler, professora emérita de geofísica da Universidade de Humboldt, na Califórnia. “Mas testemunhar isso com a moderna variedade de instrumentos que temos é algo realmente sem precedentes.”

A explosão do vulcão submarino, formalmente conhecido como Hunga Tonga-Hunga-Ha'apai, fez chover cinzas perigosas sobre a região, incluindo na capital tonganesa, Nuku'alofa, cerca de 64 quilômetros ao sul. A capital também sofreu uma tsunami de 1,2 metro, e ondas de até 15 metros foram relatadas em outros pontos do arquipélago de 176 ilhas.

O governo chamou a erupção de “desastre sem precedentes”, embora o alcance total dos danos tenha sido difícil de determinar porque a explosão destruiu cabos de telecomunicações submarinos e as cinzas forçaram os aeroportos de Tonga a fechar.

Além de Tonga, porém, o alcance da fenômenos foi facilmente perceptível. Fotos de satélite mostraram uma nuvem de sujeira, rocha, gases vulcânicos e vapor de água com várias centenas de quilômetros de diâmetro, e uma coluna mais apertada de gás e detritos subiu a quase 32 quilômetros.

Pinatubo

Alguns vulcanólogos fizeram comparações com a explosão catastrófica do Cracatoa, na Indonésia, em 1883, e com a mais recente erupção do Monte Pinatubo nas Filipinas, em 1991.

O Pinatubo, por exemplo, entrou em erupção por vários dias, enviando cerca de 20 milhões de toneladas de dióxido de enxofre para a estratosfera, ou atmosfera superior. Ali, o gás se combinou com a água para criar partículas de aerossol que refletiram e dispersaram alguns dos raios solares, impedindo que chegassem à superfície.

Isso teve o efeito de resfriar a atmosfera em cerca de 0,5°C por vários anos. (É também o mecanismo de uma forma controversa de geoengenharia: usar aviões ou outros meios para injetar continuamente dióxido de enxofre na estratosfera para resfriar intencionalmente o planeta.)

A erupção do Hunga “era comparável à potência do Pinatubo durante seu pico”, disse Shane Cronin, vulcanóloga da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, que estudou erupções anteriores no vulcão.

A diferença é que a erupção do Hunga durou apenas cerca de dez minutos, e os sensores de satélites nos dias seguintes identificaram cerca de 400 mil toneladas de dióxido de enxofre atingindo a estratosfera.

“A quantidade de SO2 liberada é muito, muito menor do que, digamos, a do Monte Pinatubo”, disse Michael Manga, professor de ciências da terra da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

A explosão produziu uma onda de choque na atmosfera que foi uma das mais extraordinárias já detectadas, disse Corwin Wright, físico da Universidade de Bath, na Inglaterra. As leituras de satélite mostraram que a onda alcançou muito além da estratosfera, cerca de 96 km acima do mar, e se propagou ao redor do mundo a mais de 965 km/h.

“Estamos vendo uma onda muito grande, a maior já vista nos dados que usamos há 20 anos”, disse Wright. “Nunca vimos nada que realmente cubra toda a Terra assim, e certamente não de um vulcão.”

A onda resultou da enorme quantidade de ar deslocada para o alto pela força da explosão. Mas a gravidade a puxou para baixo antes de ela subir novamente. Essa oscilação de cima para baixo continuou, criando uma onda alternada de alta e baixa pressão que se moveu para fora da fonte da explosão.

Wright disse que, embora a onda tenha ocorrido no alto da atmosfera, potencialmente pode ter um efeito de curto prazo nos padrões climáticos mais próximos da superfície. “Não sabemos muito bem, disse. “Vamos ver o que vai acontecer nos próximos dias. Poderia apenas se propagar e não interagir.”

Wright afirmou que, como a onda era tão alta, também poderia ter um pequeno efeito nas transmissões de rádio e nos sinais dos satélites dos sistemas de posicionamento global.

Tsunamis

Além disso, a onda de pressão atmosférica pode ter desempenhado um papel nas tsunamis incomuns que aconteceram.

Tsunamis são geradas pelo rápido deslocamento da água, geralmente pelo movimento de rocha e solo. Grandes falhas submarinas podem desencadear tsunamis quando se movem em um terremoto.

Vulcões também podem causar tsunamis. Nesse caso, a explosão submarina e o colapso da cratera do vulcão podem ter causado o deslocamento. Ou um flanco do vulcão pode ter se tornado instável e colapsado, com o mesmo resultado. Mas isso só explicaria a tsunami local que inundou Tonga, disseram os cientistas.

“Normalmente se esperaria que essa energia decaísse com a distância”, disse Gerard Fryer, pesquisador afiliado da Universidade do Havaí em Manoa, que trabalhou anteriormente no Centro de Alerta de Tsunami do Pacífico.

Mas o evento causou tsunamis aproximadamente do mesmo tamanho do local e por muitas horas, em Japão, Chile, Peru e Costa Oeste dos EUA, e eventualmente desatou pequenas tsunamis em outras bacias em outras partes do mundo.

Isso é um sinal de que, ao viajar pela atmosfera, a onda de pressão pode ter afetado o oceano, fazendo-o oscilar também.

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