STRINGER / AFP
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Premiê do Iraque anuncia renúncia após onda de protestos

Adel Abdul-Mahdi entregará o pedido de renúncia ao Parlamento depois de perder o apoio da principal liderança xiita do país

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2019 | 10h22
Atualizado 29 de novembro de 2019 | 22h26

BAGDÁ - Pressionado por dois meses de intensos protestos e uma violenta repressão que deixou quase 400 mortos e 8 mil feridos, o primeiro-ministro do Iraque, Adel Abdel Mahdi, anunciou nesta sexta-feira, 29, que apresentará sua renúncia ao Parlamento. O anúncio foi feito horas depois de o aiatolá Ali Sistani, figura crucial da política iraquiana, aconselhar seu afastamento. Em sua declaração, Mahdi alega que seu objetivo é impedir o “derramamento de sangue”.

Com o pedido, Sistani, líder religioso xiita, de 89 anos, manifestou pela primeira vez seu apoio aos manifestantes, que desde outubro exigem a queda do regime e a renovação da classe política, que acusam de corrupção, de ignorar a população e de reprimir os protestos com violência. Na quinta-feira, 46 manifestantes foram mortos e quase mil ficaram feridos em várias localidades do Iraque.

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Quando pensamos em revolta, o que não faltam são exemplos: do Líbano à França, da Bolívia a Hong Kong. No Iraque, os ocupantes da Praça Tahrir pedem voz para o povo, eleições e a caça aos corruptos

O anúncio de renúncia de Mahdi é um revés para o Irã, que apoiava o premiê e teve seu consulado incendiado na quarta-feira durante protestos na cidade sagrada xiita de Najaf. O prédio foi seriamente danificado pelas bombas incendiárias lançadas pelos manifestantes que se opõem à influência de Teerã no governo iraquiano.

Na Praça Tahrir, epicentro dos protestos na capital, os manifestantes largaram as pedras que jogavam contra a polícia e começaram a dançar para comemorar o anúncio de Mahdi. “Esta é a nossa primeira vitória, mas precisamos nos livrar de todos eles, Maliki e seus criminosos”, disse Hiatt Mehdi, de 60 anos, referindo-se ao ex-premiê Nuri al-Maliki. 

“Este é um passo importante, embora tenha sido tardio e depois de dias muito sangrentos”, disse Ali Hussein, estudante de 20 anos, na cidade de Nassíria.

Em Diwaniya, no sul do Iraque, onde os protestos desta sexta ocorreram sob a forma de procissão fúnebre em homenagem aos 46 manifestantes mortos na quinta-feira em cidades vizinhas, um manifestante disse que a renúncia não é suficiente. “Nosso problema não é o primeiro-ministro, queremos que todos os partidos caiam fora”, disse, denunciando péssimos serviços públicos, corrupção e o elevado índice de desemprego.

No Iraque, um dos países mais ricos em petróleo do mundo, a infraestrutura está em péssima condição, após anos de guerra e poucos investimentos em sua renovação. Em 16 anos, o equivalente ao dobro do PIB do país – US$ 225 bilhões – evaporou nos bolsos de políticos e empresários. O petróleo representa 90% das receitas de um governo endividado e um em cada cinco iraquianos vive abaixo da linha da pobreza.

Os parlamentares de oposição, ligados ao ex-premiê Haider al-Abadi e ao polêmico líder xiita Moqtada al-Sadr, – já disseram que estão prontos para votar a queda do gabinete. Os paramilitares pró-Irã do Hashd al-Shaabi, o segundo maior bloco do Parlamento, que até agora apoiava fortemente o governo, também parecem cumprir as diretrizes de Sistani.

O Parlamento deve se reunir no domingo em sessão de emergência para decidir se aceita a renúncia. Mahdi e seu gabinete podem permanecer de forma interina no governo, até que o presidente, Barham Salih, nomeie um novo premiê. Esta será a primeira vez desde a queda de Saddam Hussein, em 2003, que um primeiro-ministro deixa o cargo sem terminar seu mandato. 

Manifestantes querem o fim do sistema político concebido pelos americanos e profundamente influenciado pelo Irã, que é xiita, como a maioria do governo iraquiano. Documentos obtidos pelo site Intercept e publicados no início do mês pelo New York Times revelaram que agentes da inteligência iraniana cooptaram vários membros do atual gabinete e se infiltraram na liderança militar do Iraque.

De acordo com os documentos, a presença do Irã nas instituições-chave do Iraque é tão profunda que Teerã tem participado de várias decisões estratégicas no país, segundo seus interesses. 

Apesar do anúncio da renúncia, novos confrontos foram registrados nesta sexta na cidade de Nassíria, sul do Iraque, onde pelo menos 16 manifestantes morreram e mais de 100 ficaram feridos. Uma fonte do Ministério do Interior iraquiano afirmou que os manifestantes continuam cercando o quartel-general do comando da polícia de Dhi Qar, no centro de Nassíria.

EUA pedem a Bagdá que escute demandas do povo

Os Estados Unidos pediram aos líderes iraquianos que atendam às “demandas legítimas” dos manifestantes, incluindo o combate à corrupção, após o premiê Adel Abdel Mahdi anunciar que apresentará sua renúncia em razão de dois meses de protestos.

“Compartilhamos as preocupações legítimas dos manifestantes”, disse Morgan Ortagus, porta-voz do Departamento de Estado. “Continuamos pedindo ao governo do Iraque que encaminhe as reformas exigidas pelo povo, entre elas as referentes ao desemprego, à corrupção e à reforma eleitoral.”

As autoridades americanas reiteradamente têm pedido aos líderes iraquianos que escutem os manifestantes, mas se distanciando de uma possível intervenção no país, que teve de se recompor após a invasão liderada pelos EUA, em 2003. / AFP, NYT, W.POST

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