Reprodução/BBC
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Onda de saques na Argentina deixa 3 mortos e se aproxima de Buenos Aires

Ataques a estabelecimentos comerciais começaram em Bariloche e espalham-se por várias cidades

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

21 de dezembro de 2012 | 14h30

(Texto atualizdo às 19h48) BUENOS AIRES - Dois dias de tensão e saques em várias cidades da Argentina tinham deixado, até esta sexta-feira, 21, o saldo de três mortos e centenas de saqueadores detidos. Em Rosário, dois homens morreram baleados em circunstâncias ainda não esclarecidas pela polícia. E uma mulher de 36 anos, aparentemente uma saqueadora, foi morta em Campana, na Província de Buenos Aires, também em consequência de disparo de arma de fogo.

Um hipermercado da rede Carrefour foi saqueado na cidade de San Fernando, na zona norte da Grande Buenos Aires, num sinal de que a onda de saques se aproxima da capital, colocando o governo de Cristina Kirchner em alerta. Mais de 300 pessoas invadiram o estabelecimento pelos fundos, levando alimentos e eletrodomésticos. A polícia reprimiu o grupo rapidamente, interrompendo a invasão, mas dezenas de pessoas fugiram com a carga pelas ruas próximas. Os saqueadores, além de atacar a polícia com paus e pedras, pararam caminhões que passavam pela área, saqueando seu conteúdo.

A multidão, que aumentou ao longo da tarde, bloqueou ruas ao redor do hipermercado com pneus em chamas. A polícia respondeu com disparos de balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. A área metropolitana da capital argentina também foi o cenário de tentativas de saques nos municípios de Béccar e San Isidro.

"Não somos ingênuos. Existem políticos e sindicalistas por trás disso", disse nesta tarde o chefe do gabinete de ministros, Juan Manuel Abal Medina. O prefeito de San Fernando, Luis Andreoti, afirmou que as pessoas não estavam roubando comida, mas eletrodomésticos. "Nem sequer saqueiam alimentos", disse.

Em Campana, durante a madrugada, duas centenas de pessoas saquearam supermercados de grandes redes, além de pequenas mercearias de imigrantes chineses.

Cláudio Rodríguez, secretário de gabinete de Prefeitura de Campana, afirmou que mais de cem pessoas foram detidas. "Elas terão de declarar quem os convocou", disse. Segundo Rodríguez, os saques não foram "espontâneos, mas "organizados". "Há uma organização por trás destes saques, mas ainda não sabemos de quem", disse à imprensa.

Em Rosário, na Província de Santa Fe, rica área agropecuária, centenas de pessoas invadiram comércios na empobrecida periferia. No bairro Alvear, um dos mais pobres da cidade, moradores da área tentaram saquear um posto de gasolina e outros estabelecimentos comerciais.

O governador de Buenos Aires, Daniel Scioli, prometeu pôr na cadeia "essas pessoas que tentam extorquir a população". "São delinquentes. Levar um televisor de plasma não é sinal de fome". Scioli, uma das principais figuras Partido Justicialista (Peronista), tem aspirações de suceder a Cristina em 2015. "Já prendemos 117 pessoas", afirmou o governador ontem.

O secretário federal de segurança, Sergio Berni, acusou o secretário-geral da ala rebelde da Confederação-Geral do Trabalho (CGT), Hugo Moyano, além de Pablo Micheli, líder da Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA), de ter instigado os saques. "Eles não são capazes de debater e instalar suas ideias de forma democrática", disse Berni, que sustentou que "há um setor que quer o caos e tingir as festas de Natal e Ano-Novo com sangue". Moyano retrucou: "Se alguém estimulou os saques, foram pessoas do governo".

Na quarta-feira a CGT e a CTA promoveram uma manifestação no centro de Buenos Aires para protestar contra a política econômica de Cristina. Nos discursos, os sindicalistas, de tradição peronista, fizeram duras críticas a Cristina - também peronista -, afirmando que ela havia deixado de lado os "ideais de Juan Domingo Perón".

Luis D’Elia, líder piqueteiro alinhado com a presidente Cristina, que em 2001 e 2002 protagonizou cercos a supermercados para obrigá-los a fornecer comida aos pobres, atualmente critica a estratégia que aplicou na época. D’Elia declarou que estes novos saques eram uma manobra para desestabilizar o governo Kirchner.

Em Bariloche, onde os saques começaram na quinta-feira, a cidade voltou à calma, graças à presença ostensiva da polícia, reforçada por ordem dos governos nacional e regional.

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