Onda de sequestros desafia autoridades no Líbano

Criminosos pedem até US$ 15 milhões para libertar reféns; empresários ricos são maioria das vítimas.

Carine Torbey, BBC

23 de setembro de 2012 | 22h03

Foi uma incrível contradição. Ao mesmo tempo em que o Líbano celebrava nesta semana o sucesso em termos de segurança na organização da visita do papa Bento 16, o país estava testemunhando uma onda de sequestros que faz lembrar a época da guerra civil.

A relação entre as vítimas parece ser sua situação financeira. Os sequestrados são empresários ricos, e seus sequestradores pediram resgates de até US$ 15 milhões (cerca R$ 30 milhões).

Os sequestros representam um enorme desafio para o governo, que prometeu encontrar e punir os responsáveis em uma semana - uma promessa recebida com uma grande dose de ceticismo.

Final feliz

Fouad Daoud ainda está recebendo visitas de amigos em sua casa em Zahle, uma cidade em frente ao Vale do Bekaa, leste do país. Eles querem comemorar o final feliz de seu sequestro.

Na noite de quinta-feira, uma semana após Daoud ter sido sequestrado, o Exército invadiu o cativeiro onde ele era mantido e o libertou.

"Tudo começou quando eu recebi um telefonema de um estranho que falou comigo em um tom muito familiar", relata Daoud. "Ele sabia que eu era um comerciante de automóveis e proprietário de uma grande loja de peças automotivas."

"Ele disse que tinha um carro usado que poderia alcançar um bom preço. Eu concordei em ir a Baalbek, no Vale do Bekaa, para ver o automóvel", diz.

Daoud conta que, quando chegou ao local, quatro homens mascarados e armados saíram do carro e o renderam.

"Eles me disseram que sabiam que eu tinha US$ 1 milhão (cerca de R$ 2 milhões) e que queriam US$ 200 mil (cerca de R$ 400 mil) para me libertar."

Durante o período no cativeiro, os sequestradores permitiram que Daoud fizesse apenas uma ligação. Eles também o moveram para três locações diferentes. Mas ele não sofreu nenhuma violência física.

Liberdade cara

Em muitos aspectos, a história de Youssef Bechara, que também foi sequestrado na semana passada, é parecida com a de Daoud.

Proprietário de uma rede de padarias, Bechara foi arrancado de seu carro depois que os sequestradores jogaram seu veículo contra o dele.

Pediram a sua família um resgate de US$ 400 mil (cerca de R$ 800 mil), que foi pago rapidamente, levando os sequestradores a soltar Bechara na quarta-feira.

Sua filha admite que a família pode ter concordado com a exigência muito rapidamente e diz que eles talvez devessem ter dados às forças de segurança a chance de resgatá-lo e prender os sequestradores.

Ali Mansour, que foi sequestrado em Gaza, no Vale do Bekaa, parece não ter tido tanta sorte. Seus sequestradores estabeleceram um preço muito alto pela sua liberdade - US$ 15 milhões (cerca de R$ 30 milhões).

Alerta de segurança

Os sequestros no Líbano, particularmente na região do Vale do Bekaa, não são novos. Mas sua frequencia aumentou nas últimas semanas.

As forças de segurança não conseguiram evitá-los, mas têm tido relativo sucesso em prender os criminosos. Elas estão em alerta máximo.

As forças de segurança acreditam que três gangues principais estejam por trás dos sequestros, e o ministro do Interior, Marwan Charbel, prometeu acabar com elas.

Charbel está confiante de que vai cumprir sua promessa, e diz que tem amplo apoio político.

Clã

O problema dos sequestros no Líbano ganhou as manchetes no mês passado, após a captura de dezenas de sírios e de um empresário turco pelo poderoso clã xiita dos Mekdad, do Vale do Bekaa, depois que um membro da família foi sequestrado por rebeldes sírios e acusado de entrar na Síria para lutar com as forças do governo.

Na semana passada, o empresário turco foi libertado pelos Mekdad horas depois que uma ação de soldados libaneses libertou os quatro últimos reféns sírios, que eram mantidos em uma das casas da família em Danieh, um subúrbio ao sul de Beirute.

Na terça-feira, um promotor militar acusou seis membros do Mekdad dos sequestros e de formar um grupo armado com propósitos terroristas.

Apesar de os sequestros realizados pelo clã dos Mekdad terem sido motivados por razões políticas, e não financeiras, como os dos três empresários citados nesta reportagem, alguns analistas veem fortes semelhanças entre os casos.

Segundo Omar Nachaba, editor de assuntos legais do jornal libanês al-Akhbar, todos os casos foram estimulados por um sentimento de caos e falta de lei, "que cria um contexto favorável para gangues e criminosos".

México e Colômbia

O presidente do Partido Progressista Socialista, o líder druso Walid Jumblatt, tem alertado que, se as autoridades não impuserem o Estado de Direito, "nós vamos ficar como o México ou a Colômbia, e a lei da selva vai prevalecer".

O governo garante que vai impor a ordem. Ele pode conseguir forçar as gangues a interromper os sequestros de empresários e até mesmo levá-las à Justiça.

Mas isso pode não ser o suficiente para tranquilizar muitos libaneses.

A maioria lamenta que a segurança em seu país dependa de acordos e vontade política.

A segurança no Líbano sempre foi um problema de política. E, de alguma maneira, o caos sempre conseguiu coexistir com o Estado de Direito. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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