Ed JONES / AFP
Ed JONES / AFP

Onda de turistas chineses invade a Coreia do Norte

Principal parceira comercial e fornecedora de ajuda do isolado país, China é também a origem da maior parte das pessoas que visitam Pyongyang; mesmo sem dados oficiais, estima-se que até 2 mil pessoas cheguem à cidade por dia na alta temporada

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2019 | 16h21

PYONGYANG - Em uma coluna de pedra cinza em Pyongyang, um mural mostra soldados chineses e norte-coreanos atacando as forças lideradas pelos EUA na Guerra da Coreia (1950-1953). Décadas mais tarde, o monumento é dos lugares mais procurados pelas novas ondas de chineses que visitam a Coreia do Norte, desta vez como turistas.

Centenas de soldados e trabalhadores fizeram melhorias no obelisco e em seus arredores nos últimos dias antes da visita oficial do presidente chinês, Xi Jinping, à capital da Coreia do Norte nesta semana.

Uma inscrição na estátua elogia "o Exército de Voluntários do Povo Chinês, que lutou conosco nesta terra e esmagou o inimigo comum". Seus "feitos imortais irão durar para sempre (...) assim como amizade forjada com sangue entre os povos da República Popular da China e da República Popular Democrática da Coreia", completa o texto.

Quase 70 anos depois de Mao Tsé-tung ter enviado milhões de soldados para salvar as tropas de Kim Il-sung da derrota quando os soldados do general americano Douglas MacArthur lutaram na península, a China como o principal parceiro comercial e fornecedor de ajuda da Coreia do Norte, um país isolado e com armas nucleares.

Agora a Torre da Amizade, como o monumento é conhecido, atrai cada vez mais turistas chineses.

Os turistas chineses pagam cerca de 2,5 mil yuans (R$ 1.396) por uma viagem padrão de três dias, chegando de trem a Pyongyang para visitar os principais pontos turísticos da capital, como o Arco do Triunfo local e a Praça Kim Il-sung.

No dia seguinte, se dirigem à Zona Desmilitarizada que dividiu a península desde que ambos os lados se enfrentaram em 1953 e, depois, retornam para a China.

"Estou muito interessada na Coreia do Norte e queria vir ver como é", disse Yu Zhi, uma mulher aposentada da província de Anhui que visitou Pyongyang. Ela afirmou que tinha um "sentimento especial" pelo país vizinho.

"A China é muito amiga da Coria do Norte. Somos parceiros há muitas gerações", completou Jin, companheira de viagem de Yu.

Como lábios e dentes

Mas nem sempre foi assim. Mao - cujo filho mais velho, Mao Anying, morreu no que a China ainda chama de "Guerra para Resistir à Agressão dos EUA e Ajudar a República Popular Democrática da Coreia" - descreveu os vizinhos como "tão próximos quanto lábios e dentes".

Os laços se estreitaram e relaxaram durante a Guerra Fria, quando o fundador da Coreia do Norte, Kim Il-sung, se tornou perito em fazer com que seus aliados soviéticos e chineses se enfrentassem.

Seu neto e atual líder, Kim Jong-un, levou mais de seis anos para visitar Pequim para prestar suas homenagens.

Mas no início de sua campanha diplomática no ano passado, Kim fez questão de que o presidente chinês fosse o primeiro chefe de Estado estrangeiro que ele visitou - e desde então já fez três viagens ao país vizinho, mais do que a qualquer outro líder. Agora Xi vai retribuir.

Ao mesmo tempo, o turismo chinês no norte atingiu níveis recorde, de acordo com fontes da indústria do turismo, a ponto de Pyongyang ter imposto um limite às chegadas.

Não há dados oficiais disponíveis das autoridades de ambos os lados, mas Simon Cockerell, CEO da Koryo Tours, líder de mercado para visitantes ocidentais, disse que houve "um grande aumento de turistas chineses".

Nos momentos com mais visitantes, 2 mil pessoas por dia chegaram a Pyongyang, disse Cockerell. "Isso é muito, porque não há infraestrutura para acomodar tantos turistas, então há problemas com passagens de trem, de avião e as reservas de hotel."

Como resultado, as autoridades norte-coreanas estabeleceram um teto de 1 mil turistas por dia na capital, embora não esteja claro se isso se aplica a toda a indústria ou apenas aos chineses, que compõem a grande maioria das visitas.

Decisão consciente

A China tem mostrado disposição para usar o turismo como uma arma de negociação geopolítica: assim, proibiu visitas de grupo à Coreia do Sul depois que Seul implantou o sistema antimíssil americano THAAD.

Com as negociações nucleares empacadas, o Norte continua sujeito a múltiplas sanções pelo Conselho de Segurança da ONU, e os Estados Unidos impuseram uma proibição de viajar a seus cidadãos após a morte do estudante Otto Warmbier, que foi preso após tentar levar um cartaz de propaganda para casa.

Mas o turismo não é um dos setores alvo de sanções, o que poderia permitir que Pequim o utilizasse como um incentivo para um aliado por vezes caprichoso.

O fenômeno das viagens na China está impulsionado pelo mercado, e não por ordem estatal, e, além do da oportunidade de mercado representada pela enorme população da China, as fronteiras de ambos os países permitem viagens terrestres a preços baixos.

Mas o simples fato de que essa viagens sejam permitidas significa que "é possível inferir que algumas decisões estão sendo tomadas" por Pequim, diz John Delury, da Universidade Yonsei, em Seul. "Sabemos que é algo que eles podem ativar e desativar", disse.

Embora o processo diplomático entre EUA e Coreia do Norte esteja paralisado, Delury acrescenta: "os chineses acreditam que devemos aproveitar esta oportunidade para avançar, deve haver um caminho em ambos os lados, então algo como abrir o turismo é uma boa maneira de fazê-lo". / AFP

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