Onda humana escapa da violência no Zimbábue

População atravessa fronteira com a África do Sul fugindo dos militantes de Mugabe e da escassez de alimentos

The New York Times,

21 de abril de 2008 | 16h13

Ao longo da fronteira da África do Sul com o Zimbábue, Sarah Ngewerume se dirigiu ao rio por desespero. Ela disse ter visto gangues leais ao presidente do país, Robert Mugabe, espancando pessoas - algumas até a morte - nas estradas de seu vilarejo. Sarah alega que militantes fiéis do Mugabe estão varrendo o país com pedaços de madeira nas mãos, exigindo ver cartões de identificação do partido e metodologicamente caçando os opositores. "Foi aterrorizante", disse a mulher, de 49 anos.   Veja também: Londres acusa Mugabe de tentar roubar eleição no Zimbábue Robert Mugabe, ditador do Zimbábue há quase 30 anos   Na semana passada ela atravessou com dificuldade o rio Limpopo, subornando um homem que consertava uma fenda no outro lado da fronteira, e conseguiu chegar a uma fazenda sul-africana. Sarah está entre as últimas chegadas inesperadas no que o maior jornal da África do Sul chama de 'Tsunami de Mugabe', uma onda de mais de mil pessoas que diariamente escapam de Zimbábue através de Limpopo para entrar na África do Sul.   Um nativo do Zimbábue, chamado Washington, que atravessou a fronteira, disse que o governo estava usando como arma a comida doada pelas Nações Unidas e direcionando grande parte dela para os militantes do partido governista. "Como dissemos, as pessoas estão morrendo de fome", afirmou. "As pessoas odeiam o governo, mas têm medo de lutar contra."   Comerciais em exibição atualmente nas TVs do Zimbábue mostram trechos de imagens de prisioneiros da guerra da liberação nos anos 70, lembrando para os cidadãos não desobedecerem seus líderes, segundo recém-chegados. No passado, incontáveis homens do Zimbábue escaparam para a África do Sul para dirigir táxis ou trabalhar em construções e enviar dinheiro para casa. Mas atualmente mulheres e crianças também fogem, pelo risco de ficarem sem comida. "Nós estamos esperando uma mudança e aguardando o que acontecerá na eleição", disse Faithi Mano, mais um dos cidadãos entrevistados após atravessar a fronteira na semana passada.   Não parece que Mugabe, antigo herói da libertação de 84 anos, que governa o Zimbábue há quase três décadas, deixará o poder sem lutar. Após os primeiros resultados da eleição de 29 de março indicarem que ele estava perdendo a batalha para o líder oposicionista, Morgan Tsvangirai, a comissão parou de anunciar a apuração dos votos. O resultado presidencial ainda não foi divulgado e a recontagem começou no sábado. O governo nega qualquer ação inadequada e acusa os líderes da oposição de traição.   A fronteira entre a África do Sul e o Zimbábue tem cerca de 150 milhas. Avisos de "perigo de crocodilo" aparecem ao longo do caminho e a grama é amarelada e rasteira. Joyce Dube, diretor do Instituto da Mulher Sul-Africana para Imigração, que acompanha a situação na fronteira, disse que a única razão para que mais pessoas ainda não terem escapado do país é a recente melhora no aumento da segurança no lado sul-africano.   Helicópteros militares sul-africanos sobrevoam o rio Limpopo e soldados guardam as estradas, parando carros para procurar pessoas escondidas. Uma equipe de homens consertam as fendas da fronteira. Mas trata-se de um jogo de gato e rato - assim que eles fecham um buraco, outro é descoberto.   As fendas caminham por milhas na fronteira, uma armadura de metal ao longo das colinas marrons. Costumava ser eletrificada por uma corrente de alta voltagem nos anos 80, quando a África do Sul e o novo Zimbábue independente estavam praticamente em guerra. Nessa época, Zimbábue era uma das estrelas africanas. Mugabe havia transformado um país relativamente pequeno em uma força econômica que produzia tabaco, grãos e carne bovina.   "Bob Mugabe era meu herói", disse um fazendeira branco, que não quis se identificar por medo de represália do governo. "Eu sei que isso parece engraçado, mas você não tem idéia do quanto Zim era belo". Zim é um apelido carinhoso para o Zimbábue.   Sarah, a ex-lojista que escapou do país, disse que militantes da oposição na sua vila central se tornaram alvos fáceis porque comemoraram nas ruas após a divulgação dos primeiros resultados. Quando os resultados finais não foram anunciados, eles começaram a se esconder. Mas os criminosos os encontraram de qualquer forma, ela disse.   "Eu não vejo como Mugabe poderia vencer novamente depois disso tudo", completa. Ela acrescenta, porém, que muitos militantes da oposição não terão outra chance contra "o homem velho" (como Mugabe é chamado freqüentemente) novamente. "Eu só quero ir para lá", disse Sarah, visivelmente abatida, apontado seu dedo para o sul, em direção a Johannesburgo. "Estou apenas lutando para conseguir algo melhor."

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