Onda interminável de violência

Novos ataques de palestinos e reações das forças israelenses elevam grau de tensão a níveis próximos da Intifada

BEN, LYNFIELD, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2014 | 02h02

A violência e a tensão que mexem com Jerusalém há semanas estão explodindo e se espalhando numa dimensão mais ampla depois que policiais israelenses mataram um jovem árabe numa localidade no norte de Israel, ameaçando as relações sempre sensíveis entre a maioria judia e a minoria árabe do país.

Na segunda-feira, dois israelenses foram mortos a facadas e dois outros ficaram feridos em dois ataques. O primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, prometeu uma dura resposta à violência, sugerindo até que os árabes israelenses envolvidos nos atentados poderão perder a cidadania. "Os autores devem se preparar para mudarem para a Cisjordânia ou para a Faixa de Gaza", disse Netanyahu. "Acreditem, não colocaremos nenhuma dificuldade."

A polícia israelense declarou originalmente que o jovem, Kheir al-Din Hamdan, foi morto por tentar esfaquear policiais da aldeia árabe de Kafr Kana, na noite de sexta-feira, mas o vídeo do incidente mostra que ele batia nas janelas de um carro da polícia segurando um objeto, sugerindo que ele podia tentar se afastar dos policiais quando recebeu os tiros. Sua morte provocou violentas manifestações em Kafr Kana e em outras localidades do norte do país, no fim de semana em que foi convocada uma violenta manifestação contra o governo.

Na segunda-feira, um agressor palestino matou uma jovem numa parada de ônibus fora do assentamento de Alon Shvut, na Cisjordânia, e feriu outras duas pessoas, enquanto numa estação de metrô lotada, em Tel-Aviv, um segundo agressor esfaqueou um soldado israelense que mais tarde morreu. Ambos os agressores foram presos. "A situação é extremamente explosiva", diz Amnon Beeri-Sulitzeanu, diretor da iniciativa Abraham Fund, ONG que trabalha pela cooperação entre cidadãos judeus e árabes.

O medo e a revolta crescem em ambos os lados. Do lado árabe, teme-se pelas intenções dos políticos de direita que sugerem que os árabes serão privados de seus direitos civis - há grande revolta diante da constante discriminação e crescem as preocupações religiosas pela situação da mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, depois dos apelos dos políticos e dos ativistas israelenses de direita para que se permita que os judeus orem no local.

Ao mesmo tempo, a população israelense está inquieta com os recentes ataques palestinos em Jerusalém, incluindo os dois que resultaram em morte de pedestres em estações do metrô lotadas de gente e a tentativa de assassinato de um ativista de direita. Eles também se preocupam com a violência das comunidades árabes no norte de Israel. "A inquietação e o medo, em ambos os lados, alimentados pelos políticos, são a garantia de uma escalada da violência", disse Beeri-Sulitzeanu.

O ministro da Segurança Pública, Yitzhak Aharonovich, já expressou seu "total apoio" aos policiais envolvidos na morte do jovem, ocorrida na sexta-feira. "Sentindo-se ameaçados, eles foram obrigados a reagir com fogo e o atingiram."

Até por volta da meia-noite de domingo, jovens de Kafr Kana queimaram pneus e atiraram pedras e rojões contra a polícia, que respondeu com gás lacrimogêneo. O mesmo ocorreu em Turan, Shefaram e em outras cidades árabes israelenses numa escalada que ameaça evoluir no mais grave tumulto desde a Segunda Intifada, em 2000, na qual 13 árabes israelenses foram mortos pela polícia.

Se a polícia não determinar imediatamente uma investigação confiável sobre a morte e os políticos não se comportarem com responsabilidade no sentido de acalmar os ânimos, a situação poderá se agravar.

No domingo, na casa de Hamdan, os amigos que foram prestar as últimas homenagens ao morto, sentados em cadeiras de plástico, tomando café aguado, recitaram os versículos de introdução do Alcorão, que falam da misericórdia e da compaixão de Deus.

Raul Hamdan, pai do jovem, afirmou: "Quero ver estes policiais no Tribunal num processo justo. Quero que os juízes vejam no vídeo com seus próprios olhos que o mataram a sangue frio."

Assassinatos. A morte de Hamdan intensificou a convicção entre os árabes israelenses de que a polícia recorre sem pestanejar às armas e não dá valor à vida deles. Nos últimos 14 anos, 35 cidadãos árabes morreram por tiros da polícia, enquanto apenas dois judeus israelenses tiveram morte semelhante, segundo Jafar Farah, diretor da ONG Musawa. Apenas três policiais foram condenados e a sentença mais dura foi de 14 meses.

No entanto, o porta-voz da polícia, Micky Rosenfeld, afirma que a acusação de que a polícia não hesita em atirar é "incorreta, imprecisa e implausível". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É JORNALISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.