Onde está a oposição americana?

Nos Estados Unidos, na época da Guerra do Vietnã (1960-75), importantes líderes políticos desafiaram o governo para denunciar a violência e até derrubar o presidente. Em momentos decisivos, milhões de jovens tomaram as ruas para protestar contra a guerra. A questão dividiu o país. Era a grande batalha entre os falcões e os pombos. A América de hoje parece um ninho que só tem falcões. Onde estão os pombos??Em casa,? segundo o professor de ciência política Robert Lieber, da Universidade de Georgetown. ?Os americanos encaram Saddam Hussein como o diabo em pessoa e têm consciência dos estragos que ele tem feito no próprio país.?No caso do Vietnã, diz o analista militar aposentado Mike Murphy, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), ?muitos americanos entenderam que o líder comunista Ho Chi Minh era um patriota vietnamita, adversário, sim, mas sincero patriota. É impossível ver Saddam Hussein sob esta ótica.? Provocação fortíssimaHoje, também, existe um forte símbolo, que é a destruição do World Trade Center, uma provocação equivalente ao ataque dos japoneses a Pearl Harbor para os americanos. Não houve nada igual na época do Vietnã. Uma outra diferença entre a Guerra do Vietnã e a atual é a tecnologia militar. A oposição à Guerra do Vietnã cresceu ao longo de vários anos, em parte por causa da grande frustração que a intervenção americana ensejou. Em quarto anos, de 1961 até 1965, 25,000 soldados ?especialistas? não resolveram nada. Depois, de 1965 até 1968, meio milhão de soldados invasores só conseguiram perder terreno. A guerra no Iraque, porém, deve ser relativamente curta. Este fato, inclusive, está afastando os grandes líderes do partido da oposição, os Democratas, da controvérsia. Segundo Liz Marlantes, um analista político do jornal americano Christian Science Monitor, ?até a época da eleição, em novembro de 2004, a guerra já terá sido esquecida.? Os democratas Dos seis pré-candidatos democratas no páreo, apenas dois fizeram forte oposição à guerra, e são os dois com menos chance de ganhar - o ex-governador Howard Dean, do pequeno Estado de Vermont, e um excêntrico reverendo negro de Nova York, Al Sharpton. Aliás, o líder nas pesquisas até agora, senador Joe Lieberman, é o mais ?falcão? de todos os pré-candidatos democratas. Segundo os analistas, ele sabe, melhor do que os outros, que essa guerra será um ?mau negócio? para o partido da oposição. Em 2004, não haverá um Eugene McCarthy, senador democrata que liderou o movimento pacifista em 1968. Hoje não há alistamento obrigatórioOutro fator que operou fortemente na época do Vietnã era o alistamento obrigatório de soldados. Quando a presença americana atingiu o auge de 500 mil homens em 1968, a grande maioria era composta de jovens recrutas.?Não há dúvida de que o alistamento obrigatório estimulou a oposição à guerra,? segundo o sacerdote católico e ex-deputado federal Robert Drinan. ?A guerra já não era popular. Com milhões de estudantes no país, e todos passíveis de serem convocados, o movimento pacifista tinha um apoio potencial enorme.? Até o jovem Dick Cheney, hoje vice-presidente americano e ?superfalcão,? evitou a convocação dizendo que tinha, na época, ?outras prioridades.? Hoje, o exército americano é composto só de voluntários. E a proporção de estudantes na população é bem menor do que em 1968. A julgar pela letargia dos pacifistas americanos, parece que eles esperam outros líderes ou outras guerras. Veja o especial :

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